Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Corredor de grafite da Avenida 23 de maio começa a ser pintado

Cerca de 450 artistas estão envolvidos no projeto que tem prazo de conclusão previsto para fevereiro de 2015

Gheisa Lessa, especial para O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2014 | 11h33

Com atraso de duas horas, começou a ser pintado, neste sábado, 6, o maior corredor de grafite da América Latina que ficará em São Paulo. Serão 15 mil metros quadrados, localizados na Avenida 23 de Maio, entre o Terminal Bandeira e o MAC - Museu de Arte Contemporânea, cobertos pelas artes de 450 artistas apoiados pela Prefeitura da cidade.

Com previsão de início das pinturas para as 14h, os trabalhos não puderam começar sem a interdição de uma das faixas da avenida, que é uma das que tem maior fluxo de veículos da capital. A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) que afirmou ter ficado sem cones suficientes para o trabalho, porém, por volta das 16h, dois caminhões da companhia surgiram para bloquear os trechos necessários.

Duas tendas armadas em pontos estratégicos da 23 de maio distribuíam os "kits" com material para os grafiteiros darem início à ação. "Cada artista ganha 40 sprays, duas latas de látex, quatro rolos de tamanhos diferentes, um extensor e uma bandeira para misturar as tintas", detalhou um dos curadores do projeto, o artista Rui Amaral.  O "kit" deve abastecer os artistas durante todo o projeto que tem previsão de término para as primeiras semanas de fevereiro de 2015.

Precursor do grafite por São Paulo, Amaral foi procurado pela prefeitura para participar do projeto junto com outros 14 ícones da arte de rua de São Paulo. "É a primeira vez que eu vejo arte de rua ser financiada por um órgão público, isso é um dos grandes passos que o Brasil estava precisando dar", conta o artista que já assina um dos maiores murais de grafite da capital - no túnel conhecido como "Buraco da Paulista", que liga a Avenida Dr. Arnaldo à Avenida Paulista. "O incentivo público vem, além do financiamento dos kits de tinta, com interdições de uma faixa do corredor pela (CET) para que a gente possa trabalhar em segurança", conta Amaral.

"As coisas estão mudando. Antes era muito comum acontecer censura ou perseguição de artistas que ocupavam os muros das ruas. Agora, depois de muita luta por espaço e liberdade de expressão conseguimos colocar no Brasil as maiores obras de arte urbana da América do Sul", diz Barbara Goy que também é uma das curadoras da ação na 23 de Maio. Goy assina o projeto "4km", que ocupa hoje o posto de maior corredor de grafite a céu aberto da América Latina, na zona leste da capital paulista.

Neste sábado os grupos se reuniram em dois pontos distintos do corredor. Uma parte começou a pintar próximo ao Terminal da Bandeira, outra na altura da região do Paraíso. "Cada um tem uma área de trabalho estimada em 5x5 metros. Mas as artes vão interagir entre si para formar, no final, só uma história ou desenho", explica o artista Rui Amaral.

Os grafiteiros, pixadores, artistas plásticos vão se reunir nos finais de semana, sempre das 8h às 22h, até a conclusão do projeto. "É muito positivo ver que o cinza está diminuindo em São Paulo", elogia Verônica Amores, a grafiteira conhecida como "V". "Esta já é uma cidade opressora, que não é pra pessoas. Quando a gente vai fazendo essas ocupações de cor, com mensagem, parece que dá um sentido de liberdade e identificação na população. Acho que estamos precisando disso", finaliza "V".

Pintor de Postes. Entre o exército de grafiteiros que ocupa a Avenida 23 de Maio para o projeto de grafite, um se destaca. Com cabelos e barbas brancos, John Howard, de 77 anos, é um dos maiores incentivadores do grafite paulistano e pinta, no meio do caos do trânsito do corredor, em silêncio. Ele usa pincéis pequenos, ao contrário dos grandes rolos com extensão que os demais recorrem para demarcar seus espaços. Parece ver detalhes que os demais ignoram.

Californiano de nascença, mas brasileiro de coração, como diz, Howard veio pela primeira vez ao Brasil em 1963 e se apaixonou. "Conheci minha esposa e tive certeza de que não iria sair daqui nunca mais", conta o artista que, apesar de morar no país há 41 anos ainda carrega o sotaque norte-americano.

John começou a desenhas nas festas de Halloween, mas foi em Santo Amaro, zona sul da capital paulista, na casa de seu cunhado, que encontrou graça na pintura de postes.

Com tintas doadas por um vizinho, John decidiu pintar um dos postes da rua para agradar um grupo de meninos que se reunia por lá. "As crianças viam graça no meu jeito de falar e começaram a me perguntar coisas. Aí achei que seria legal colocar um pouco de cor naquela rua para agradá-los", explica.

Foi com uma pintura "simples" de listras coloridas num poste, que o artista começou seu trabalho. "Acabei ficando conhecido como 'O Pintor de Postes'", ri John Howard.

Sobre a ação que começou neste sábado, John faz apenas um comentário: "parece que o prefeito que desenha patos em muros está em sintonia com a cidade".

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