Corporação sempre aproveitou crise para mudar procedimento

Cenário: Bruno Paes Manso

O Estado de S.Paulo

09 Agosto 2012 | 07h42

Crise significa oportunidade. Na Polícia Militar de São Paulo, pelo menos, algumas ocorrências dramáticas que colocaram em risco a reputação da corporação serviram para incentivar mudanças importantes. Foi assim depois do Massacre do Carandiru, em 1992, quando 111 presos foram mortos depois de uma ação desastrada da tropa de choque comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães. Nos anos que se seguiram à tragédia, iniciou-se na PM a retirada das ruas dos policiais envolvidos em casos de morte, que passariam a se consultar com psicólogos.

Outra ocorrência fundamental para a autocrítica da PM foi o caso da Favela Naval, em Diadema, em 1997. No episódio, policiais militares foram flagrados em vídeo espancando diversas pessoas que eram paradas em uma blitz, culminando em um assassinato. A lentidão da polícia em reagir ao escândalo levou o governador Mário Covas a apresentar no Congresso Nacional um Projeto de Emenda Constitucional propondo a desmilitarização da Polícia Militar.

A ameaça à corporação levou a mudanças importantes de gestão. Percebeu-se, por exemplo, que os oficiais e policiais de Diadema haviam sido mandados para a cidade como castigo. Tinham punições em seu currículo e por isso eram enviados para locais com problemas graves de criminalidade.

"Isso mudou desde o escândalo e hoje os locais com taxas mais altas de crime recebem os melhores quadros", afirma o coronel José Vicente da Silva, ex-secretário Nacional de Segurança, que acompanhou as reformas em Diadema.

Também levou à criação de um modelo matemático que passou a servir de parâmetro para a distribuição de homens e viaturas, conforme taxas de crimes e população. Antes, a distribuição seguia critérios políticos. Também vem do período a criação das aulas de Direitos Humanos para oficiais e praças. "A crise é uma oportunidade para você pensar sobre seus defeitos e melhorar. Quando essa autocrítica não é feita, o problema volta", diz o coronel.

José Vicente cita o caso da Polícia da Bahia. Em 2001, ele foi chamado para propor reformas que ajudassem a lidar com as greves de policiais. As mudanças não foram feitas e o problema voltou dez anos depois, com nova greve de PMs.

Nos últimos 30 anos, contudo, apesar de todas as mudanças, a cultura de violência da tropa ainda resiste e continua sendo um dos maiores desafios para modernizar a corporação.

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