Arquivo pessoal/Silvia Ometto Antoniati
Arquivo pessoal/Silvia Ometto Antoniati

Coronavírus infecta 30 pessoas e mata sete idosos em asilo de Piracicaba

Casa de acolhimento abriga 82 pessoas e número de óbitos é registrado em apenas uma semana

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 07h48

SOROCABA – Equipes da saúde lutam para conter um surto do novo coronavírus que, em menos de uma semana, matou sete dos 82 idosos de um asilo de Piracicaba, no interior de São Paulo. O último óbito, de um residente de 87 anos, foi registrado na noite desta segunda-feira, 27. Outros sete pacientes estavam internados, nesta terça-feira, 28, em hospitais públicos e privados da cidade. Três idosos estão em isolamento no interior da unidade, com sintomas da doença, mas sem necessidade de internação. Ao menos 13 dos 75 funcionários também contraíram o vírus. Desses, nove já cumpriram a quarentena e retornaram ao trabalho.

O Lar Betel, instituição tradicional em Piracicaba, acolhe idosos desde 1953. A sequência de óbitos começou na quinta-feira, 23, com a morte de uma residente de 82 anos. Ela estava internada desde o dia 16 no Hospital Regional. No dia seguinte houve outra morte, de um homem de 84 anos. No sábado, 25, morreu um idoso de 82 anos. Entre o domingo e a noite desta segunda-feira, 27, mais quatro idosos que estavam internados morreram. As vítimas da covid-19 tinham entre 73 e 87 anos.

O diretor-presidente do Betel, Luiz Adalberto dos Santos, fala em uma tragédia sem precedentes. “Nunca tivemos algo assim, nem as grandes gripes, como a H1N1, nos pegaram. Estamos chocados com a voracidade e violência desse vírus”, disse. Segundo ele, assim que os primeiros sintomas surgiram entre os funcionários, em meados de março, as visitas de familiares e grupos de apoio foram suspensas, bem como os trabalhos voluntários no interior da instituição. Por orientação da equipe médica, os funcionários foram afastados aos primeiros sinais da doença.

Notificada, a Vigilância Municipal passou a acompanhar as medidas internas de contenção e isolamento. “Fizemos os testes e colocamos os funcionários em quarentena, mas os resultados dos laboratórios levaram mais de 20 dias para sair. Quando vieram, já tínhamos idosos com sintomas. Sempre em contato com os familiares, aos primeiros indícios, encaminhamos os pacientes para a rede de saúde”, relatou Santos. A maioria dos residentes, segundo ele, é acompanhada por familiares, embora existam aqueles que não têm famílias, ou que estas se distanciaram.

Desde o dia 22 de março, uma equipe da Vigilância atua em conjunto com a equipe médica do asilo. “Nossa expertise é ajudar e cuidar dos idosos, mas a pandemia exigiu nos adequarmos à nova situação. Desde o início dos casos, os funcionários passaram a usar máscaras, luvas e álcool gel. Criamos áreas de isolamento interno, avaliadas pela Vigilância e vamos fazer testes em 100% dos idosos e da equipe. Com o resultado dos testes, vamos discutir se aqueles com resultado negativo podem ser transferidos para as famílias ou para outro local”, disse.

Com as visitas suspensas, as famílias acompanham a situação de seus idosos por contato telefônico ou pelas redes sociais. A professora aposentada Silvia Ometto Antoniati recebeu a notícia da morte do seu pai, Pedro Silvio Ometto, de 87 anos, na noite de segunda-feira, 27. “Meu pai ficou internado 11 dias no Hospital Regional aqui de Piracicaba. Não pudemos visitar, nem fazer acompanhamento no hospital, mas eles (Lar Betel) nos ligavam todos os dias para dar notícias. No lar, desde o início de março já estavam proibidas as visitas”, afirmou à reportagem.

Silvia conta que o pai era fumante e apresentou sintomas em meados de abril. “No dia 16, eu fui buscá-lo no lar para levar ao pronto-socorro e, assim que ele se internou, já não o vi mais. Ele estava somente com sintomas de vômito, mas como tinham alguns idosos com suspeita, acabaram fazendo o teste nele também. E aí deu positivo.” A educadora usou sua rede social para informar sobre a morte do pai e agradecer os cuidados que ele recebeu. “Hoje (27), infelizmente, veio a notícia do falecimento do meu pai pela Covid-19. Ele morava no Lar Betel, o qual está sendo injustamente criticado por muitas pessoas nesse momento!”. 

Ela também manifestou gratidão ao lar e a todos os funcionários. “Meu pai morou lá por 14 anos e nesse tempo teve toda atenção, respeito e cuidado que, assim como todos os outros idosos residentes lá, merecia e merecem!!!”, disse na postagem. Segundo ela, o que aconteceu foi uma fatalidade que poderia ter acontecido em qualquer casa, condomínio ou transporte público. “Espero que essas palavras confortem vocês, funcionários do Lar, pois eu testemunhei toda a tristeza que vocês estão passando... além de cuidar dos nossos vozinhos e se arriscarem a levar a Covid para suas casas, ainda sofrem julgamentos errôneos!”

A prefeitura informou que, desde o início da pandemia do coronavírus, a Secretaria de Saúde, por meio da Vigilância Sanitária, já realizou testes em 44 pessoas, entre funcionários e residentes do Lar Betel que apresentaram sintomas, observando o período de sete dias. Os testes prosseguem. Também é realizado um trabalho de controle para evitar novos casos, como o isolamento, desinfecção do lado externo da instituição e contato com as equipes de saúde e administração do lar. Esta semana, uma equipe com médico, enfermeiro e técnico de enfermagem ingressará no asilo para prestar assistência direta aos pacientes, em conjunto com a equipe local.

Além dos sete óbitos do Lar Betel, a cidade registra outras três mortes de moradores que não tiveram contato com pessoas do asilo, totalizando dez mortes pelo coronavírus. A cidade tem ainda 90 casos confirmados e 177 suspeitos. O Lar Betel se mantém com contribuições de 150 associados e doações de igrejas, entidades e pessoas. Um bazar de acesso público vende os excedentes dos bens doados. A prefeitura de Piracicaba informou o repasse de R$ 609 mil anuais para manutenção e assistência aos idosos, além de R$ 83,6 mil para assistência em saúde.

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