Cornetão

É a buzina de um transatlântico, encalhado no cruzamento? O resmungo de Chewbacca, o macaco alienígena de Guerra nas Estrelas? Deus, arrastando móveis no céu? Não, meus amigos, é o bom e velho cornetão, despertando de sua hibernação de quatro anos e anunciando a chegada de mais uma Copa do Mundo.

Antonio Prata, O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 00h00

Dizem que o torcedor é mais apaixonado por seu time do que pela seleção. Por alguma razão, contudo, o palmeirense, corintiano, são-paulino ou santista fanático, quando deseja manifestar seu fervor futebolístico, restringe-se a urrar pela janela, não fazendo uso de nenhum outro instrumento musical além das próprias cordas vocais. Nos estádios, é verdade, pode-se ouvir alguns cornetões, mas nunca no recesso do lar, no estacionamento do shopping, na seção de laticínios do supermercado, como ocorre durante a Copa, época em que esse rugido de mamute torna-se ubíquo.

A sazonalidade do cornetão me leva a crer que o cidadão por trás do sopro que acabo de ouvir aqui da minha cozinha, às onze e meia da noite de sexta, não é o mesmo que gritou "chuuuuuuuupa palmeirense", às dez e quinze de quinta. O corneteiro, ouso arriscar, não é um aficionado pelo esporte bretão, desses que se metem em brigas, comem sanduíche de pernil e tatuam o escudo do time no braço, mas um amante da Copa, esse pequeno carnaval esportivo. Ele está para o futebol como aquele sujeito que enche a cara no amigo secreto da firma está para o álcool. Como o branquelo que sai do mar e rola na areia está para a praia. É um folião ocasional, neófito empolgado.

Devo dizer, a essa altura do texto, que começo a simpatizar com o corneteiro que, momentos atrás, eu detestava. Não que aprecie o grasnar de pterodáctilo que ele produz noite e dia, mas compreendo a pequena subversão que sua ação representa. Não vejo o sujeito como um folião total. Difícil imaginá-lo virando a noite a gritar ''Brasil! Brasil! Brasil!'', dançando sobre a mesa ou caindo no baixo meretrício só porque a seleção venceu. Vejo-o pai de família. Comendo torrada. Vestindo pijama. O único detalhe é que, durante um mês, de quatro em quatro anos, ele assopra sua corneta, sem parar. Sai da cama e, antes de tomar café, ffffrrrrrrummmmmm! Voltando do almoço, entra no carro e ffffrrrrrrrummmmmmm! No intervalo da novela, entre um e outro "Io te amo, ragazzina!", fffffrrrrrummmmmm! Às duas da manhã, numa noite de insônia e no meio da tarde, para espantar o tédio: ffffffrrrrrrrummmmmm!

Que que tem? É Copa do Mundo! Depois de 11 de julho, guardará a corneta no fundo do armário e retornará à silenciosa existência.

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