Copa só pelo rádio do carro

Improviso. Na calçada do bairro Jequiá, Sérgio Murilo (centro) e amigos acompanham jogo

, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

Jogadores do Brasil e de Portugal já cantam os hinos antes da terceira partida da seleção na Copa do Mundo. Nas ruas de Água Preta, cidade vizinha a Palmares, a população anda com carrinhos de mão, sacos de alimentos, caminhões de água e tratores, em uma rotina que se manteve ao longo de toda a semana. A tragédia ainda é recente demais para animar o cotidiano da população que precisa reconstruir a cidade.

O desinteresse não significa que os habitantes de Água Preta não gostam de futebol - os enfeites de bandeirinhas verde e amarelas pendurados ao longo de toda a rua principal da cidade contrariam a suposição. A torcida, porém, esbarra em problemas estruturais: boa parte do município ainda não tem energia elétrica. Um bar e um posto de gasolina na BR-101, além de um hotel na parte alta da cidade, foram os três pontos de reunião daqueles que queriam ver o jogo.

A festa pela seleção começou animada, antes das enchentes, no jogo entre Brasil e Coreia do Norte. A partida contra Costa do Marfim, contudo, não foi vista por ninguém, já que no domingo toda a cidade estava sob as águas. Depois que a enchente baixou, no começo da semana passada, duas escolas haviam sido destruídas, além de dois bairros inteiros, onde viviam mais de 300 famílias. A vida parecia de cabeça para baixo, com postes e fiação no chão e canos de esgoto para fora das ruas. No jogo de ontem, a Copa ficou de vez em segundo plano.

"Sou são-paulino, fanático por futebol, e organizo as comemorações. Mas hoje não faço questão de assistir ao jogo", diz Geraldo Luiz da Silva. Na frente da casa atingida pelas águas, com bandeira do Brasil no telhado, ele esperava, com a irmã e uma amiga, a chegada de um carro-pipa que o abastecesse para continuar a limpeza do que sobrou.

Vestia uma camisa do Brasil e tinha uma pequena vuvuzela de plástico no pescoço. Havia tentado, em vão, ouvir o jogo por um celular que só pegava rádio FM, mas não conseguiu porque as duas emissoras da região também foram atingidas pelas cheias. Ainda assim, permanecia otimista. "O Brasil será campeão."

Pinga com mortadela. Mais à frente, um grupo de quatro moradores do bairro Jequiá conseguiu acompanhar a partida ouvindo o rádio do carro. O empresário Sérgio Murilo, dono de uma padaria destruída pelas enchentes, apresentava a receita para a comemoração em "dias de jogos depois das tragédias": pinga com mortadela. "Mortadela é bom porque pode ficar fora de geladeira sem estragar. Pinga, além de poder ser tomada quente, matas os germes", explicou.

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