Valéria Gonçalvez/Estadão
Valéria Gonçalvez/Estadão

Acabou a pandemia? Desejo de encontrar pessoalmente e olhar nos olhos cresce em apps de paquera

Para possíveis encontros, aumenta busca por 'na minha casa', e ganham destaque termos como 'café', 'almoço', 'jantar' e 'parques'

Paula Felix, O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2020 | 14h00

   

SÃO PAULO - A flexibilização da quarentena, com reabertura de locais como bares e restaurantes, tem encorajado usuários de aplicativos de relacionamento a retomar saídas para encontros. Um levantamento do app Inner Circle com palavras-chave usadas por usuários brasileiros mostrou um aumento de 420% nas referências a “encontrar pessoalmente” e de 500% de “olhos nos olhos” no começo de agosto em relação aos últimos dias de março.

Entre os locais para possíveis encontros, também houve aumento em “na minha casa” (205%), café (190%), almoço (178%), jantar (164%) e parque (141%). No Brasil, o aplicativo tem 343 mil usuários e o levantamento foi feito com base em palavras-chave presentes em mensagens, mas sem avaliação do conteúdo e da identidade do usuário.

CEO do aplicativo, David Vermeulen diz que, no começo, as pessoas imaginavam que fariam uma “pequena pausa na paquera” para cuidar da saúde, mas algumas começaram a se sentir solitárias com o prolongamento da situação. “Os solteiros se sentem, agora, mais confortáveis para novos encontros a uma distância segura, já que as regras de quarentena foram flexibilizadas e a pandemia, acompanhada das medidas de distanciamento social, deve continuar por um período mais longo do que a maioria esperava.”

Vermeulen acredita que, com um vírus contagioso em circulação, o comportamento das pessoas que usam aplicativos de relacionamento pode passar por mudanças. “Não apenas vamos nos adaptar ao uso de álcool em gel para as mãos no dia a dia, mas, para namorar e ter encontros depois de uma pandemia, os solteiros estarão mais conscientes sobre a sua saúde e prestarão mais atenção à higiene. Estamos prevendo uma nova tendência que estamos chamando ‘encontro limpo’ ou encontro ideal. Ao invés de mais ‘seletivos’, esperamos que o tema da ‘exclusividade’ apareça primeiro, pois os solteiros querem saber se seus encontros podem colocar a saúde em risco.”

A pedagoga Samantha Romeira, de 24 anos, evitou encontros até a flexibilização dos restaurantes e bares, em julho. Com a reabertura, ela voltou a sair, mas tem optado por se encontrar com rapazes que conhece.

Só conhecidos

“Nesta época de pandemia, é complicado sair com uma pessoa que você não conhece. Então, estou dando oportunidade para pessoas que já conhecia. Com pessoas que não conheço só mantenho o papo.” Ela diz que, com o relaxamento da quarentena, as conversas sobre a covid-19 mudaram também. “No começo, as conversas eram relacionadas à quarentena, à pandemia. Agora, as pessoas estão mais tranquilas.”

O levantamento feito pelo app mostrou que, em agosto, houve queda de 75% nas referências a coronavírus, de 29% para quarentena e de 43% para isolamento. Por outro lado, pandemia e máscara aumentaram 915% e 310%, respectivamente.

A plataforma também fez uma pesquisa com 3 mil usuários brasileiros e indagou se eles já estavam se encontrando pessoalmente e 64% responderam que não, mas que estão disponíveis para encontros. Outros 29% afirmaram que já estão se encontrando e apenas 6% disseram que não e também não estão disponíveis para sair.

Consultor de estilo e imagem para homens, Rodolfo Kanematsu, de 32 anos, foi infectado pelo coronavírus quando os primeiros casos estouraram. Depois, fez uma quarentena rígida. “A vontade é de partir deste planeta para outro lugar. Com esse baque, fiquei em quarentena e não tive nenhum encontro físico. Seria muito mesquinho simplesmente ignorar tudo que está acontecendo no País, porque eu me preocupo com a pessoa que está ao meu lado. Não tem como não criar empatia.”

Kanematsu voltou a fazer trabalhos presenciais e, como não está mais em completo isolamento, já pensa em flexibilizar para encontros. “Conheci pessoas interessantes neste período e tem uma ou outra que a gente vai se encontrar depois. Até estou um pouco mais ansioso. Vejo as moças conversando mais, porque está mais flexível.”

Ele diz que vai ser cuidadoso, mas compreende que sempre há um risco ao se encontrar com outras pessoas. “A partir do momento em que eu sair, vou saber que estou correndo risco. Enquanto não estiver rolando namoro, a exclusividade é difícil de ser detectada, porque não vou saber por onde a pessoa andou. É fácil mentir.”

Preocupação

Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Francisco Ivanildo de Oliveira Junior vê com preocupação esse movimento de retomada dos encontros por usuários de aplicativos de paquera.

“A primeira coisa é que parte das pessoas que usam esses aplicativos está buscando um relacionamento casual e a questão do encontro casual se torna preocupante quando aumenta a frequência que acontece com vários parceiros. Quanto maior o número de contatos, maior a probabilidade de se infectar. E não é preciso ter uma relação sexual para pegar o vírus.”

Oliveira Junior diz que é difícil estabelecer formas para evitar o vírus nesse tipo de contato. “Teria de reduzir o número de pessoas com quem elas ficam. O jovem sabe que a chance de ter a forma grave é pequena, mas eles têm contatos com os pais, avós e pessoas que, mesmo não sendo idosas, podem ser vulneráveis, como quem tem doenças crônicas. É muito importante a gente passar a mensagem de que a pandemia não acabou e, se pode dar uma flexibilizada hoje, é porque houve um cuidado. Se não tiver esse comedimento nesse retorno, vai ter de retroagir em poucas semanas.”

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Durante a pandemia, os aplicativos de paquera registraram aumento de interações e lançaram novas ferramentas para facilitar os matches.

O Tinder registrou um crescimento de 52% no volume de mensagens enviadas globalmente e um aumento de 39% de matches entre membros com menos de 25 anos.

“Quando a pandemia se espalhou para mais e mais países do mundo inteiro em março, nós vimos que nossos membros estavam usando o Tinder para ficar conectados com o mundo, mesmo quando eles estavam socialmente distantes”, revela a diretora de comunicação do app, Jenny McCabe.

Segundo ela, “além de encontrar novas pessoas, os membros estavam confiando no Tinder para trocar experiências e ficar informados usando nosso Passaporte (funcionalidade que permite interagir com pessoas de outros lugares do mundo) para descobrir como estavam as coisas em outros países”.

Jenny ressalta que a participação de brasileiros foi importante nesse contexto. “Na realidade, São Paulo foi a cidade número 1 como origem do uso do Passaporte globalmente, com membros no Brasil usando o recurso para fazer tudo, de praticar inglês até se conectar com pessoas que falam português em países como Moçambique ou procurar companheiros fãs de K-pop em Taiwan.”

Em setembro, o aplicativo lançou o Swipe Night, um evento interativo semelhante a um jogo para aproximar os usuários, que podiam mudar os rumos de uma história e também dos seus matches.

Entre junho e agosto, o número de matches cresceu 258% no app Inner Circle em comparação com o período de março a maio e o aumento do número de mensagens enviadas foi de 208%.

Em junho passado, a plataforma Par Perfeito organizou uma pesquisa na qual ouviu um total de 1,2 mil usuários. Resultado: quase 60% afirmaram que o período de isolamento em que estavam mergulhados despertou mais interesse em encontrar um parceiro (58,35%).

O recurso de chamada de vídeo, usado para falar com parentes e amigos, também foi incorporado na paquera por 71% dos entrevistados. A funcionalidade foi incluída no aplicativo no mesmo mês. O Par Perfeito informou ainda que, entre março e maio, registrou aumento de 70% na categoria “novos usuários”.

Em nota, o aplicativo assinalou: “Desde março, no início do isolamento social, o mundo virtual prevaleceu e vimos um aumento pela procura do relacionamento online”. “Ficamos muito felizes de podermos conectar mais de 2 mil casais por mês pelo Par Perfeito, nossa maior plataforma de relacionamento sério do Brasil.”

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