Controle de camelôs ilegais pode ter motivado crime de sindicalista em SP

Por R$ 120 mensais, Afonso José da Silva oferecia proteção e segurança para os associados da sua entidade que trabalhavam na rua sem licença

Diego Zanchetta, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2010 | 20h44

SÃO PAULO - Uma disputa pela proteção oferecida aos camelôs clandestinos que atuam no Brás, na região central, pode ter motivado o assassinato do presidente do Sindicato dos Camelôs Independentes de São Paulo, Afonso José da Silva, de 40 anos. Por R$ 120 mensais, Afonso oferecia proteção e segurança para os associados da sua entidade que trabalhavam na rua sem licença. Ele também vendia pontos clandestinos na Feira da Madrugada por R$ 10 mil, segundo relatos de seus associados.

 

Cerca de 600 ambulantes são filiados ao sindicato criado por Afonso em 1996. Para a diretora da Divisão de Homicídios da Polícia Civil, Elisabete Sato, a hipótese de latrocínio (assalto seguido de morte) está descartada.

 

Na segunda-feira, Afonso recebeu uma ameaça de morte, segundo depoimento prestado pelo seu segurança particular, Carlos Derlan Costa da Silva, de 23 anos. Outros líderes do sindicato disseram ao Estado que antigos membros da diretoria da entidade queriam tomar o posto de Afonso, considerado uma espécie de "patrono" dos camelôs ilegais.

 

Era seu sindicato, por exemplo, quem mantinha uma estrutura para monitorar os passos da fiscalização da Subprefeitura da Mooca no Brás. Cerca de 15 homens com rádios seguiam a fiscalização e avisavam os camelôs clandestinos sobre a chegada deles nas ruas onde estavam.

 

Afonso também ia semanalmente no 12º DP tentar liberar as mercadorias apreendidas de seus associados. "Era um pai para nós. Eu só não passei fome em São Paulo porque o Afonso me dava um prato de comida todo dia durante dois meses quando cheguei na cidade", relembrava ontem a cearense Lurdes Etelvina de Souza, de 45 anos. Ela contava com a proteção do sindicato para vender pilhas na Rua Barão de Ladário, sem licença da Prefeitura.

 

Segundo os associados, muitas pessoas tinham interesse em tomar o posto de Afonso como protetor dos ambulantes clandestinos. Ele também vendia pontos dentro da Feira da Madrugada até novembro, quando a Prefeitura assumiu o gerenciamento do espaço na Rua Barão de Ladário. "Mesmo que alguém abrisse outro sindicato, ninguém jamais conseguiria ser tão popular quanto o Afonso. Ele transformava em camelôs bolivianos e nordestinos que chegavam em São Paulo sem ter o que comer", relatou José Vicente Silvério, de 45 anos, associado ao sindicato.

 

Comoção. O velório de Afonso foi realizado na sede do sindicato. Cerca de 3 mil pessoas passaram pela sede da entidade entre 5h e 13h, segundo a PM. Centenas de bolivianos e peruanos que trabalham como camelôs também estavam presentes na cerimônia. Para a cúpula do sindicato, o crime nada tem a ver com as denúncias feitas por Afonso sobre a Máfia dos Fiscais em 2002. "Querem ser o protetor que ele sempre foi dos camelôs. É isso que está por trás da morte", falou um sindicalista que pediu para não ter o nome divulgado. / COLABOROU MARCELO GODOY

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