Paulo Liebert/AE
Paulo Liebert/AE

Contra muro em local histórico, um festival de música

Vizinhos reclamam de parede em fonte do Butantã, cuja água no passado já teria matado a sede até de bandeirantes

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2011 | 00h00

Um muro, uma fonte e uma área de 39 mil m² no Morro do Querosene, a 1,5 km da Estação Butantã do Metrô, estão no centro de um imbróglio entre os vizinhos e a família dona do terreno que envolve até a Prefeitura. Dentro do terreno há uma fonte histórica, cuja água já teria servido para matar a sede dos bandeirantes que passavam rumo ao interior. Mas um muro construído pelos proprietários fecha a entrada do terreno e impede o acesso à fonte. No próximo domingo, a comunidade promove uma série de shows e uma manifestação "antimuro".

Segundo a família Basile, o terreno foi fechado porque servia de ponto de tráfico de drogas, desmanche de carros e descarte irregular de entulho - o que levou a uma série de multas para os proprietários, alegam.

Já os moradores defendem que a construção do muro interrompe o curso de uma rua pública, a Travessa da Fonte, que originalmente teria 85 metros, adentraria o terreno e daria acesso à fonte. Hoje, ela termina bem na frente do muro dos Basiles. "O muro promove o abandono de um lugar importante para toda a comunidade. A água que jorra da fonte está escorrendo para os bueiros, inutilizada", afirma o músico Dinho Nascimento, da Associação Cultural do Morro do Querosene.

Segundo Nascimento, um laudo da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) atesta que a água que sai dali é pura e própria para o consumo. "É uma nascente que não tem absolutamente nada, um caninho com água. Se fosse pura eu comercializaria", retruca Roberto Basile, um dos herdeiros do terreno, que pertence aos irmãos Margarida (mãe de Roberto), Pedro e Teresa Basile. "Temos um laudo do Instituto Adolfo Lutz comprovando que a água tem coliformes e é ferrosa. Não dá para vender nem para lavanderia."

Não bastasse a guerra de laudos sobre a água, a fonte também fica em um lugar especial. Em 2004, atendendo ao pleito dos moradores, a Chácara da Fonte foi indicada pela Subprefeitura do Butantã ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (Conpresp) como Zona Especial de Proteção Cultural (Zepec). E o mesmo conselho indica que toda Zepec está automaticamente sob análise de tombamento - ou seja, protegida contra quaisquer mudanças estruturais.

Sob análise. Segundo a Prefeitura, o muro não é necessariamente uma alteração no terreno. Mas o caso não está claro nem para o departamento jurídico municipal - a irregularidade ou não da construção do muro está "sob análise" do departamento jurídico da Prefeitura. Sobre a importância histórica do terreno de sua família, Roberto Basile afirma desconhecer. Ele já recebeu diversas propostas do mercado imobiliário: shopping center, edifício residencial e empresarial. Ainda não decidiu por nenhuma delas.

A comunidade já sinalizou que gostaria de utilizar o espaço como parque ou centro cultural. "Não vejo necessidade de mais um parque ali, do lado do Instituto Butantã e de diversas outras áreas verdes. Não entendo a insistência da comunidade. Agora, se a Prefeitura achar por bem que seja um parque, quem sou eu para negar? Desde que me paguem pela área, é indiferente."

PROGRAMAÇÃO

Apresentações culturais serão em um palco montado na Travessa da Fonte, do lado do muro, no domingo

10h20: Orquestra de Berimbaus / roda de capoeira / samba

11h50: Henrique Menezes e Banda Bom que Dói

12h20: Poesia Maloqueirista

12h35: Malungo (intervenção musical)

14h10: Manos Urbanos (palco)

14h45: Hugo Paz (poesia)

15h25: Treme Terra e Gaspar (Z''Africa Brasil) (palco)

16h25: Isca de Polícia (palco)

17h: Grupo de Teatro do Peabiru (intervenção) (chão)

17h25: Planta e Raiz (palco)

18h45: Tião Carvalho (palco)

20h25: Nasi (palco)

21h05: Peixe Elétrico (palco)

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