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Contando nossa história

O ser humano está sempre em busca é de uma história que tenha algum sentido

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

31 Dezembro 2017 | 03h00

Nosso cérebro funciona à base de histórias. As maneiras de compreender o mundo mudam, as lendas cedem espaço à religião, essa dá lugar à Filosofia, que passa o bastão para a ciência e quem sabe o que virá depois. Mesmo parecendo tão diferentes, todas as formas de explicação da realidade buscam um fio narrativo. Revelam que o ser humano está sempre em busca é de uma história com algum sentido, justamente para dar sentido às coisas. Até quem defende que nada tem sentido se esforça para nos contar essa história – de forma que ela tenha sentido. 

A estrutura narrativa, com começo, meio e fim (mesmo que não contada em ordem cronológica), apresentação progressiva de personagens, inserção em cenários e contextos, descrição de ações e desdobramentos, tem grande apelo para os seres humanos. Não é por outro motivo que os mitos atravessaram o tempo, passando pelo folclore e chegando ao romance moderno. As notícias que lemos nos sites e jornais atualmente não diferem tanto dos relatos do dia em torno da fogueira que ocorriam nos primórdios do ser humano – são histórias contando o que aconteceu, com quem, quando, por quê.

Nós experimentamos a realidade, afinal, de forma cronológica. O mundo e seus eventos desdobram-se diante de nós em sequência temporal, um instante depois do outro, cada coisa seguindo sua antecessora e sendo sucedida pela seguinte. 

No fim do ano nós também temos o costume de contar, para nós mesmos, a história do ano que está acabando. É uma época propícia para tanto, pois embora pudéssemos fazer isso em qualquer momento, as festas marcam o encerramento de um ciclo. E, ao contrário do que muitos dizem, a passagem do ano não é uma criação artificial, totalmente arbitrária. Ao contrário, trata-se de uma consequência direta da translação – para os que não se lembram, em um ano a Terra completa uma volta em torno do Sol. Esse passeio traz mudanças perceptíveis em nossa realidade, como a duração da luminosidade, as temperaturas médias, a quantidade de chuva. E tais mudanças, ocorrendo de forma repetida, marcam um ciclo natural, que a cada ano recomeça. Arbitrário é apenas dizer onde é o reinício, mas que é um recomeço não há dúvida. É justo aproveitá-lo para fazer esse balanço.

Infelizmente nem sempre somos narradores isentos. Muito frequentemente mais severos do que deveríamos, selecionamos mais memórias negativas do que positivas para urdir essa narrativa, conferindo pesos desproporcionais a eventos – os ruins parecem valer mais do que os bons; somos prontos para críticas e tardos para elogios. Carregamos conosco esse viés de negatividade como herança de uma estratégia evolutiva vencedora: quem se preocupava demais podia ser mais triste, mas corria menos riscos e acabava deixando mais descendentes. Passando a negatividade adiante. 

Com o poder que têm as histórias, contudo, contar a de nosso ano com esse viés, carregando-a de problemas, becos sem saída, más decisões, derrotas e fracassos, pode acabar nos convencendo que nada de bom aconteceu em 12 meses. Além de não ser verdade, acreditar nisso não dá muito ânimo para começar a jornada que será atravessar as próximas 365 voltas de Terra em torno de seu próprio eixo.

Tivemos azares e também alguns lances de sorte. E se tropeçamos e caímos, mesmo que aos trancos e barrancos ao menos chegamos até aqui, na linha de chegada de mais um réveillon. Não é preciso fingir que as adversidades não existem para reconhecer os êxitos. Que 2018 nós encontremos ambos. Feliz ano-novo.

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