Conselho busca MP para garantir parque na zona oeste

Prefeito Kassab enviou um projeto à Câmara que regulariza a ocupação dos terrenos públicos por clubes de futebol, o que enterra o projeto do parque

Diego Zanchetta e Rodrigo Burgarelli, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2012 | 12h05

O Conselho Municipal do Meio Ambiente vai entrar com ação no Ministério Público Estadual para tentar garantir um parque de 160 mil metros quadrados para a zona oeste. A área verde está prevista para ser construída nos terrenos hoje ocupados pelos centros de treinamento do Palmeiras e do São Paulo. Mas o prefeito Gilberto Kassab (PSD) enviou um projeto à Câmara que regulariza a ocupação dos terrenos públicos por clubes de futebol, o que enterra o projeto do parque.

Era nesses terrenos ocupados pelos clubes e no pátio da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) ao lado receberiam a área verde que ajudaria a compensar o adensamento populacional causado pela Operação Urbana Água Branca. O caso foi revelado hoje pelo Estado. "Estamos todos indignados. Nós assinamos um parecer dentro da lei da operação urbana que assegurava a criação do parque. Vamos receber mais de 60 mil moradores nessa região e nenhuma área verde. Isso é um descalabro", criticou Rosi Mari Zenha, representante da região Lapa-Barra Funda do Cades.

Times de futebol. Pela proposta que Kassab enviou ao Legislativo, o Palmeiras e o São Paulo ganhariam o direito de ficar por mais sete décadas nos terrenos que há cerca de 20 anos abrigam seus centros de treinamento, na Avenida Marquês de São Vicente. O parque nesses terrenos, porém, estava previsto no licenciamento ambiental da Operação Urbana Água Branca, iniciada em 1995, e constava em uma determinação do Cades. Ele seria maior que o Parque da Água Branca (136 mil m²), a única área verde da região da Barra Funda, Perdizes e Pompeia.

"Vamos buscar a Promotoria de Meio Ambiente e tentar mobilizar os moradores da região. Hoje à tarde já vamos nos encontrar com o presidente da Comissão de Meio Ambiente da Câmara (vereador Gilberto Natalini, do PV) para tentar barrar a votação dessa anistia vergonhosa para os clubes", acrescentou.

A zona da operação urbana deve receber mais 66,9 mil moradores, segundo previsão da Prefeitura. De acordo com ambientalistas, a criação do parque amenizaria o impacto do adensamento - ela foi a maior exigência feita por moradores nas audiências públicas que antecederam a operação urbana.

A lei municipal também afeta a Portuguesa, já que regulariza o terreno onde fica o Estádio do Canindé. O Executivo pediu urgência na tramitação do novo projeto e a Mesa Diretora deve colocá-lo em votação ainda neste semestre. No projeto, Kassab cita que os clubes "com projeção internacional contam com torcedores de seus respectivos times de futebol por todo o território nacional, o que revela o caráter social da manutenção da ocupação das áreas pelos clubes".

Críticas. "Pelo jeito já começou o vale-tudo da campanha eleitoral. É uma grande sacanagem com a sociedade você beneficiar clubes que pagam milhões por jogadores e que não dão nenhuma contrapartida social para ninguém", diz o diretor da Fundação SOS Mata Atlântica, Mário Mantovani. "A região não para de receber prédios, e esse era um parque público apresentado como demanda da população da região, já há quase 20 anos." Mantovani explica que os parques ajudam a reduzir as ilhas de calor. "Regiões pouco arborizadas como a Barra Funda são até 5ºC mais quentes que outras mais verdes da cidade."

Regina de Lima Pires, do Movimento SOS Parque da Água Branca, diz que o adensamento excessivo da Barra Funda é o maior problema da região. Para ela, se as áreas foram cedidas aos clubes, a Prefeitura deveria ao menos cobrar aluguel. "São áreas municipais, poderia ter uma cobrança gradual."

Defesa. Para os defensores da proposta, ela não vai afetar o ambiente da região, já que os centros de treinamento também são áreas verdes, apesar de não serem abertos ao público. "O projeto cumpre a função ambiental de manter os terrenos sem risco de serem impermeabilizados. Por isso não há confronto legal", justifica o presidente da Câmara, José Police Neto (PSD).

O vereador Marco Aurélio Cunha (PSD), ex-diretor de futebol do São Paulo, também saiu em defesa da proposta. "Ninguém vai construir prédio ali. Na verdade vai continuar sendo um parque, tem muitas espécies de passarinhos que ficam nos campos do nosso CT."

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