Evelson de Freitas/AE
Evelson de Freitas/AE

Conpresp deve hoje ''congelar'' o Belas Artes

Conselho de patrimônio começa a analisar tombamento de prédio na Consolação

Edison Veiga e Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2011 | 00h00

A primeira reunião dos novos conselheiros do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) deve dar hoje um novo fôlego para o Cine Belas Artes. Colocada a toque de caixa na pauta, a abertura de um processo de tombamento do imóvel onde funciona o cinema pode frustrar, pelo menos temporariamente, os planos do dono do prédio, Flávio Maluf, que rescindiu o contrato de aluguel o cinema e pretende entregar o espaço para uma loja.

Mesmo se aprovado, o processo de tombamento não significa a salvação imediata do Belas Artes. "Ele (Maluf) pode simplesmente fechar o cinema e mantê-lo assim enquanto o tombamento é discutido", explica Walter Pires, diretor do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) e vice-presidente do Conpresp. Mas somente o fato de o imóvel estar sob análise do conselho é suficiente para protegê-lo - qualquer intervenção nele precisaria de autorização prévia.

O pedido no Conpresp foi protocolado na última terça pela organização social Via Cultural, que não foi a única a fazer a solicitação. A Associação Paulista de Cineastas (Apaci) e o vereador Gilberto Natalini (PDSB) fizeram o mesmo. A Via Cultural também pleiteou a análise do Condephaat - órgão estadual de proteção ao patrimônio. Entretanto, na esfera estadual, nenhuma reunião deve acontecer antes de fevereiro. Os novos conselheiros da atual gestão sequer foram nomeados.

Não é praxe que a abertura de um processo de tombamento ocorra de forma tão rápida quanto no caso Belas Artes. A "fila" das pautas pode ser furada em casos específicos, quando se entende que há uma urgência - geralmente em situação em que a demora pode resultar na perda ou em danos ao imóvel. Assim, o caso pode ser avaliado pelos conselheiros mesmo que não conste da pauta oficial da próxima reunião, marcada para hoje.

Internet. No caso do Belas Artes, a pressão popular que já existia contra o fechamento do cinema ganhou força quando o ex-governador José Serra (PSDB) "anunciou" o tombamento em um post no Twitter. "O conjunto de salas de cinema Belas Artes é um verdadeiro patrimônio cultural de São Paulo, na Consolação com a Av. Paulista", disse ele na primeira "twittada".

"Semana passada sugeri ao prefeito (Gilberto) Kassab que tombasse o prédio. Hoje, falei com o (Carlos Augusto) Calil, secretário da Cultura da capital sobre isso", continuou. "Tive a boa notícia: o tombamento vem na terça-feira", finalizou o ex-governador, dando como certo um processo que ainda precisa ser discutido.

Walter Pires concorda que o tombamento de um lugar como o Belas Artes é mais complexo que o do Teatro Municipal de São Paulo, por exemplo. "Nesse caso, a arquitetura por si só já expressa valores importantes a serem preservados. Mas nenhum edifício existe só pela arquitetura. Há de se avaliar a relação simbólica, afetiva das pessoas com aquele bem."

O diretor do DPH afirma que tem visto as manifestações públicas em prol do cinema e recebido telefonemas pedindo para que o lugar não morra. Por outro lado, avalia também o direito que o proprietário do imóvel tem de requerer seu bem de volta. "A cidade tem dinâmica, um edifício não está isolado no deserto. O dono do prédio é possuidor de algo que tem também o peso de um valor social", ressalta Pires.

Representante do grupo de estudos de patrimônio do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o arquiteto Eduardo Carlos Pereira afirma que o tombamento agrega valor ao imóvel. "Há muito tempo não existe isso de se fazer o que bem quiser com um imóvel, porque existem leis que restringem o uso dos terrenos", explica.

Flávio Maluf não fala com a imprensa desde que o caso veio a público, há duas semanas.

PARA LEMBRAR

A cidade já tem dois cinemas tombados - e um deles permanece desativado desde 2009. O Cine Ipiranga foi declarado patrimônio de São Paulo. Mas o título não foi suficiente para que o mantivessem vivo - o local continua fechado e sem perspectiva de abertura em um futuro próximo, seja como cinema ou como espaço cultural.

Já o prédio do Cine Marabá, de 1945, foi restaurado pelo arquiteto Ruy Ohtake após a preservação e hoje abriga três salas, uma com tecnologia 3D.

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