Taba Benedicto/Estadão
Taba Benedicto/Estadão

Conheça a história da biblioteca que virou pouso da ‘capitã’ solidária

Projeto é mais um passo em trabalho de ONG que usa a contação de histórias como ‘arma’ emocional

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2021 | 05h00

De uma contação de histórias a uma fábrica de sonhos. Poderia ser apenas mais uma história de criação de uma organização não governamental, mas Lela Albuquerque, a Capitã (personagem que assume nas contações de histórias), queria ir além da simples doação: desejava que as obras fossem, de fato, visitadas por estudantes.

Desde julho, essa iniciativa virou realidade na sala de leitura da Escola Estadual República da Venezuela II, no bairro Jardim Arapongas, em Guarulhos (SP). O espaço multiúso remete a uma aventura marítima, com uso de cordas, correntes, paletes e caixotes de madeira. Em poucos meses, a biblioteca “desconstruída”, como descreve a diretora, Cristiana Pereira da Silva, já fez crescer o interesse dos estudantes pela leitura. O número de empréstimos aumentou, assim como o cuidado com as obras. “Na hora do almoço, vejo muitos alunos lendo.”

Só que foram necessários cerca de três anos para criar e tirar do papel o projeto do espaço interativo. Tudo começou com uma campanha de arrecadação de livros da ONG A História Mais Bonita – aquela que surgiu da iniciativa da Capitã. “Não adianta entregarmos os títulos e virarmos as costas. Você pode estar até entregando algo, mas, para a criança que não tem estímulo à leitura, é como se fosse nada”, diz Lela. “Aí, numa visão, veio a imagem dessa sala linda.” A visão se tornou um projeto, que contou com a dedicação dos demais voluntários da “embarcação” (como se referem à ONG). “Ela nos apresentou a ideia e perguntou se era viável, dissemos que sim e fomos procurar pessoas que poderiam fazer aquilo se tornar real”, conta Mariela Rocha, a Fada Mariluz, que participa da iniciativa desde 2017.

“A biblioteca é uma consequência das contações de histórias. Ainda não caiu a ficha de que o projeto chegou a este nível, de conseguir entregar um espaço como esse”, diz Mariela.

Trabalho como voluntário deu início a projeto

A História Mais Bonita, aliás, começa, de forma mais oficial, em 2016, mas a semente foi plantada um ano antes, quando Lela passou de forma voluntária a fazer contações com outra ONG e se tornou a Capitã. E tudo voltou a mudar quando sua filha precisou passar uma noite internada no hospital, aos 9 anos. “Foi só uma infecção intestinal, mas não melhorava. Ela ficou muito assustada”, lembra. A mãe não conseguia nem pregar os olhos, com medo de que a filha precisasse de algo. “Se alguém entrasse falando no quarto, eu ia agradecer imensamente. Decidi que me colocaria à disposição, seria esse alguém para outra pessoa”, conta.

Lela tinha conhecido e passado a acompanhar as redes sociais de Damiana Claudia Apolinário. Vinda de Terra Boa, no interior do Paraná, entre 2012 e 2016, a mãe de Samuel passou mais tempo em São Paulo do que na cidade onde a família vivia, para acompanhar o tratamento do filho.

Com poucos meses de vida, foi diagnosticado com atresia de vias biliares (AVB). Lela e Damiana se aproximaram após a noite passada no hospital. A Capitã resolveu pedir se poderia visitar e contar uma história a Samuel. “Comentei com ela que ele não estava para visita”, lembra. Mas Damiana decidiu dar uma chance. Com a autorização do hospital, a Capitã chegou à pequena sala onde ele fazia hemodiálise. “A história foi desenvolvendo, fomos interagindo… Deixei o Samuel falando, rindo.”

“Foi uma coisa inexplicável”, conta Damiana, que confessa ter sido cativada pela contação de Lela. “Fui uma criança também vendo ela lendo para ele.” E Lela voltou. Narrou, para o garoto, o encontro da Capitã com um príncipe emburrado. “Li a história e ele se emocionou demais”, lembra. “Entendi, ali, a maior lição da minha vida: Samuel se emocionou daquele jeito porque finalmente conseguiu reconhecer beleza na própria história. Apesar das dores, existe beleza.”

Dois meses depois, aos 7 anos, Samuel recebeu alta paliativa e aquela história deixou de ter novos capítulos. Damiana, porém, incentivou que Lela escrevesse narrativas com outras crianças, que, ao contrário do filho dela, talvez não tivessem percebido a beleza da vida delas. “Quando eu entrei nesse segundo quarto, foi game over. Não ia conseguir parar”, diz Lela. Ao divulgar um pouco sobre as contações nas redes sociais, a ONG A História Mais Bonita, formalizada em 2018, começou a ganhar forma e voluntários – hoje são 20.

As solicitações de contação de história podem ser feitas pelo e-mail ahistoriamaisbonita@gmail.com. Doações à iniciativa podem ser feitas via Pix, pela chave 31.789.540/0001-20 (CNPJ), ou na conta corrente 30540-0, agência 5081, do Banco Itaú. O site da ONG é www.ahistoriamaisbonita.com

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.