Congregação da FMUSP proíbe festas e consumo de bebidas na unidade

Decisão ocorre após denúncias de abuso sexual contra alunas; pelo menos oito casos são investigados pelo Ministério Público Estadual

Fabiana Cambricoli e Victor Vieira, O Estado de S. Paulo

26 Novembro 2014 | 13h56

Atualizada às 21h07

SÃO PAULO - A Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), órgão máximo da unidade, decidiu nesta quarta-feira, 26, suspender por tempo indeterminado festas e consumo de bebida alcoólica em suas instalações em Pinheiros, zona oeste da capital, após denúncias de violência sexual. A medida também é estudada pelo Conselho Gestor do câmpus da capital, responsável pela administração da Cidade Universitária, no Butantã, e da USP Leste. 
A decisão tem o apoio do reitor Marco Antonio Zago. “Há uma posição minha, que não é desconhecida pelo Conselho Universitário nem por diretores das unidades, de que essas festas não fazem parte da vida universitária e não deveriam acontecer”, afirmou ele, após participar de audiência na Assembleia Legislativa sobre a crise financeira das estaduais. No dia 2, o Conselho Gestor vai propor uma nova regulamentação para festas ou até suspendê-las.
A proibição de eventos e do álcool na FMUSP foi proposta pela direção e aprovada nesta quarta pela Congregação, instância com 129 integrantes - a maioria professores. A medida foi tomada após alunas de Medicina denunciarem, em duas audiências públicas da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, ter sofrido abuso sexual em festas. Ao menos oito casos são investigados pelo Ministério Público Estadual (MPE). 
Segundo José Otávio Costa Auler Junior, diretor da FMUSP, a retomada das festas só será discutida após o estabelecimento de novas regras para eventos estudantis. “Todo álcool está absolutamente proibido, incluindo na recepção dos calouros. Vamos passar por um novo processo de regulamentação (das festas), cujo tempo ainda não é determinado, pode demorar meses, pode demorar anos, não sabemos”, disse. 
A medida, porém, vai na contramão do que defendeu inicialmente o presidente da comissão que apura as denúncias na FMUSP, Milton de Arruda Martins, para quem vetar o álcool só leva o problema para longe. Na semana passada, após depor ao MPE, ele disse à imprensa que a proibição total de festas seria uma “solução que resolve o problema do diretor, mas não da sociedade”. Procurado novamente ontem pelo Estado, Martins disse que não há divergência entre as opiniões, uma vez que as festas foram suspensas só temporariamente, até que haja novas regras.
Risco. Aluno do 3.º ano de Medicina e integrante do Núcleo de Estudos em Gênero, Saúde e Sexualidade da faculdade, Felipe Scalisa afirmou que a violência pode até piorar com festas fora da USP. 
“Uso o exemplo do caso Edison (Tsung Chi Hsueh, morto afogado no trote de 1999). Proibiu-se o trote e eu perguntei para os professores quantos sabiam do ‘Churrasco da Invasão’, que é o mesmo ritual transferido para um sítio. A maioria deles não sabia”, contou Scalisa. “Se proibir as festas, é provável que façam festas fora e que elas tenham os mesmos problemas. É preferível que a instituição acolha isso e implemente políticas para a redução de danos”, afirmou.

Mais conteúdo sobre:
Estupros na USP

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.