Condomínios reduzem violência na Chácara Klabin

Moradores de 98 prédios do bairro investiram em equipamentos de segurança e fecharam parceria com as Polícias Civil e Militar

Camilla Haddad, Elvis Pereira, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2010 | 00h00

 

Moradores da Chácara Klabin, na zona sul da capital, sentem, aos poucos, a tranquilidade voltar ao bairro. Desde abril do ano passado, 98 prédios e 20 mil moradores têm concentrado esforços em um projeto diário de combate à criminalidade. Os resultados já apareceram, segundo dados da Polícia Militar: houve redução de até 80% nos crimes como roubos e furtos de carros e assaltos a pedestres na porta dos condomínios de luxo.

Segundo o Conselho Regional dos Corretores de Imóveis (Creci -SP), o metro quadrado de um apartamento na região pode custar até R$ 3.800. O dentista Jurandir Nascimbeni, síndico de um dos prédios e autor da ideia, afirma que o bairro era palco de sequestros relâmpagos e constantes assaltos, além de furtos de carros até de dia. Em janeiro, houve arrastão a um condomínio, após o porteiro ser rendido.

"Fiz uma primeira reunião, em abril de 2009, e consegui que 95 representantes de condomínios aparecessem. Discutimos como melhorar a segurança, a iluminação e montamos uma comissão de segurança", explica Nascimbeni. Com o dinheiro do fundo de reserva de condomínio os moradores conseguiram remover as câmeras antigas e instalar outros equipamentos, como câmeras que também gravam a parte externa dos condomínios, giroflex que servem para alertar moradores quando há algo errado e sensores nos muros e fundos dos condomínios, entre outros aparelhos. Cada prédio gastou cerca de R$ 6 mil.

O dentista garante que a parceria com as Polícias Militar e Civil foram fundamentais. "A base da PM veio para cá no ano passado e reforçou o patrulhamento."

João Antônio Leite, zelador de um dos prédios, diz que perdeu as contas de quantos assaltos presenciou no ano passado. "Era carro roubado em plena tarde de domingo", lembra. "Agora, quando o morador vê algo, liga para nós e pergunta se está tudo bem. Não se veem tantos roubos."

O tenente Luciano Miguel, comandante interino da 3.ª Companhia do 11.º Batalhão (Vila Mariana), aprova a parceria. "Isso aproximou o cidadão da polícia. Sem a ajuda da comunidade não dá para saber todos os problemas." O delegado João Lopes da Silva Neto, titular do 6.º DP (Cambuci), delegacia que responde pelo bairro, apoia a iniciativa, já que imagens de câmeras dos prédios ajudam a identificar criminosos. Ele afirma que a polícia desarticulou três quadrilhas especializadas em assaltos a condomínios nos últimos oito meses.

Melhora. Morador há dez anos da Chácara Klabin, o contador Edson Kenji Sabanai, de 38 anos, se sente mais protegido. "Depois do projeto de segurança não estou totalmente seguro, mas melhorou significativamente", diz. Sabanai afirma ter visto três carros levados por ladrões na porta de seu prédio. "E uma vizinha foi sequestrada." Para ele, a aproximação dos condôminos e a presença da PM minimizaram os riscos. "Não ouvi falar de assalto nos últimos meses."

No ano passado, o engenheiro Alexandre Melhado, de 50 anos, sofreu uma tentativa de assalto, poucos dias antes de seu irmão. Segundo ele, a sensação é que a situação melhorou um pouco. "Não soube de outros assaltos."

Falência. Apesar dos resultados positivos, o surgimento desses projetos é visto pelo professor David Teixeira de Azevedo, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), como um sinal de falência do Estado. "Uma coisa é a sociedade se mobilizar para aperfeiçoar um serviço. Outra é se unir para supri-lo", afirma.

O especialista em segurança patrimonial Felipe Gonçalves elogia a iniciativa dos moradores, mas faz um alerta em relação aos equipamentos. "É preciso saber o que comprar. O giroflex é perigoso. Para o bandido, é um sinal de que o porteiro está alertando outras pessoas e ele pode usar a força". Para Gonçalves, o sensor de presença, para detectar estranhos nos muros, é viável. "E o custo não é tão alto."

OS EQUIPAMENTOS

Giroflex

Instalado na fachada dos prédios, é usado para avisar se há risco dentro do condomínio, como um assalto. Assim, quem está do lado de fora pode avisar a polícia.

Desperta vigia

É um sinal sonoro disparado a cada 20 minutos para o porteiro não dormir.

Travamento dos portões

Equipamento permite que funcionários travem o portão da garagem em caso de pânico.

Sistema infravermelho

Sensor que emite som para o porteiro quando há pessoas no muro ou no fundo do prédio.

Holofotes

Instalados na área externa dos prédios para melhorar a iluminação na rua.

PARA LEMBRAR

Zona oeste tem iniciativa de moradores

Em ao menos dois bairros da zona oeste de São Paulo moradores também se organizaram para melhorar as condições de segurança da vizinhança.

Em 2004, dez edifícios de Perdizes implementaram o projeto Prédios Antenados, rede de comunicação para chamar a polícia. Os porteiros dos condomínios trocam informações por radiocomunicadores. O Conselho de Segurança (Conseg) do bairro diz que a criminalidade caiu após a iniciativa.

Na Vila Romana, casas receberam no ano passado placas na fachada com a mensagem "Meu vizinho está de olho". Os moradores combinaram de vigiar se há algo estranho na vizinhança para chamar a polícia. Hoje, há cerca de 250 imóveis participantes.

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