''Concreto, sim, mas não tanto...'', pede Augusto de Campos

Um dos pais do movimento concretista, o poeta de raras entrevistas fala da São Paulo ''moderna e civilizada'' e lembra da época sem prédios e carros de Perdizes

Edison Veiga,

03 de outubro de 2010 | 00h11

Foram quase seis meses de insistência - nas cordiais palavras do entrevistado, uma "amabilíssima insistência". Por fim, Augusto de Campos, um dos maiores poetas de São Paulo - e que tão bem soube traduzir a concretude da cidade -, cedeu aos apelos da reportagem. Mas impôs algumas condições: que a conversa acontecesse por escrito, via e-mail, e suas respostas fossem publicadas na íntegra, sem cortes ou edição. Isso explica o formato especial deste Paulistânia.

Poeta, tradutor, ensaísta, crítico de literatura e música, Augusto de Campos é um paulistano que ganhou respeito mundial. Nascido em 1931, publicou o primeiro livro aos 20 anos, quando ainda era estudante da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Na década de 1950, com o irmão Haroldo de Campos e o amigo Décio Pignatari, fundou a revista Noigandres e inventou a poesia concreta. A seguir, um pouco de sua vida, da rotina de criação ao bairro de Perdizes.

De que forma a poesia está presente em seu cotidiano?

É o meu "a-fazer" predileto. A arte faz parte do ar que respiro. E a poesia, a arte em que consigo me expressar. Mas é talvez a mais difícil das artes, embora pareça a mais fácil. Por isso mesmo prefiro ler e traduzir, ou seja, "interpretar" a poesia dos outros (o que também não é nada fácil) como uma forma de vivenciá-la e de conversar e aprender com os que admiro. Às vezes consigo fazer poemas. Penso como Valéry: "Ser poeta? Não. Poder ser poeta." Meus primeiros poemas que se poderiam chamar de concretos, ou pré-concretos, de 1953, impressos em várias cores e propostos para várias vozes, denominavam-se POETAMENOS.

Como é sua rotina de criação, o seu fazer poético?

Passo a maior parte do tempo no computador. Dentro ou fora do universo digital, leio, ouço e vejo muito mais do que escrevo. O meu fazer poético é, antes, como disse, um "a-fazer" e a minha criação propriamente dita, um acidente de percurso.

Anos atrás, quando ainda era vivo, Haroldo deu uma entrevista na qual falava sobre as mudanças no bairro de Perdizes. Como vê a mudança dessa região ao longo dos anos? De alguma forma essas transformações interferem ou interferiram em sua criação?

A minha maior crítica é ao excesso de prédios e automóveis e à falta de segurança - queixas comuns aos habitantes das megalópoles. Quando viemos morar na Rua Apinajés, contemplávamos a linha de montanhas com o Pico do Jaraguá à vista. Hoje não vemos mais nada. Prédios e mais prédios de todos os lados e ângulos. Concreto, sim, mas não tanto?

São Paulo foi o berço do concretismo. O movimento precisava desta cidade para existir? De alguma forma poderia ter surgido em outro lugar?

Como o Movimento de 22, tinha de nascer em São Paulo. Nos anos 50, aqui se concentraram os museus de arte moderna, a cinemateca, as bienais, as importadoras de livros e discos estrangeiros. O Rio, maior rival, sempre encantador, não era tão avançado e multi-informativo e era mais sentimental e francês (leia-se: surrealizante). Bastava falar em "matemática" e o mundo desabava. No entanto, já Edgar Allan Poe escrevia que poesia é 1/3 metafísica e 2/3 matemática. Lautréamont, pai do surrealismo, dedicou-lhe todo um Canto de Maldoror: "Ó matemáticas severas, eu não vos esqueci, desde que vossas sábias lições, mais doces que o mel, se infiltraram em meu coração, como uma onda refrescante." Pound: "A poesia é uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações para as nossas emoções". E Maiakóvski: "Eu, à poesia só admito uma forma: concisão, precisão das fórmulas matemáticas." Com um discurso sentimental e complacente não se poderia virar a mesa da poesia e atualizá-la. Só mesmo paulistas para assumirem o desafio pignatariano: "Na geleia geral brasileira, alguém tem de exercer as funções de medula e de osso."

Como é sua relação com São Paulo?

Gosto da cidade, especialmente pelo que tem de civilizado e moderno. Lembro de ter ouvido João Gilberto dizer ao radialista-jornalista Walter (Pica-Pau) Silva: "São Paulo civiliza, Waltinho?"

Por que você escolheu Perdizes para viver?

Não escolhi. Nasci na Avenida Angélica. Em meados da década de 1940, meus pais vieram residir nas Perdizes, numa casa da Rua Capitão Messias. Eu e Haroldo gostávamos muito de futebol e jogávamos na rua, que era pequena e plana, com poucos automóveis circulando... A nossa única preocupação era uma vizinha que não devolvia a bola e às vezes chamava a "rádio-patrulha" para acabar com a festa. Era futebol o dia inteiro. De lá meus pais se mudaram para uma casa da Cândido Espinheira. Quando me casei, fui para um pequeno apartamento na mesma rua, próximo do Parque da Água Branca, depois para a Rua Bocaina. Haroldo também continuou nas Perdizes. Por um bom tempo, nos anos 60, Décio Pignatari e Waldemar Cordeiro vieram morar no bairro. Também Ronaldo Azeredo. Por fim, em 1990, mudei-me para a Rua Apinajés, sempre nas Perdizes. Mas moraria com muito agrado em outros bairros - Higienópolis, por exemplo, perto da Praça Vilaboim, um recanto que aprecio muito.

Culturalmente, o que mais gosta de fazer na cidade?

Sempre gostei de ir a exposições e eventos culturais, além de restaurantes e bares, às vezes sedes de muitas conversas "entre pessoas inteligentes". Hoje, naturalmente, quase-oitenta, meu ritmo é muito menor. Fico muito em casa. Não vou mais a livrarias e casas de disco. Compro tudo na internet. Cinema, não dá mais: sou da geração pré-"pipococa". Prefiro "zapear" a TV, onde, a par de futebol e noticiário, entrevejo, com atraso, os filmes da moda, de preferência sob forma de montagem (dois ou três ao mesmo tempo). Melhor ainda: o meu Mac e o YouTube, onde assisto a coisas que nunca imaginei rever, como o Anemic Cinema, de Duchamp, ou ver, como o "Nude Soul"-antistrip de Erykah Badu ("? eles estão sempre prontos para assassinar o que não entendem"), a versão robotizada do Ballet Mécanique, de George Antheil; Billie Holiday, ao vivo, falacantando My Man, ou o Un Coup de Dés, de Mallarmé, em versão polonesa. Tudo existe para acabar em YT? Mas tenho muito carinho pelo Parque da Água Branca, onde eu e minha mulher levávamos nossos filhos, quando pequenos. Já foi mais bonito, com viveiros de pássaros e de pequenos animais. Nas últimas vezes em que lá estive, achei-o descuidado e rumoroso. Li, outro dia, que está sendo reformado. Tomara que volte a recuperar o encanto de outrora.

CRONOLOGIA

Obra concreta de Augusto

1931

Nasce na Avenida Angélica, na Consolação, região central de São Paulo

1951

Lança seu primeiro livro, O Rei Menos o Reino

1952

Com o irmão Haroldo e o amigo Décio Pignatari, lança a revista Noigandres, pilar do concretismo

1953

Lança o livro Poetamenos

1964

Publica Pop-cretos

1979

Lança a coletânea

Viva Vaia

2004

Publica Não

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