TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Concessionária quer deque no lago do Ibirapuera e novo Museu do Folclore

Empresa detalha propostas, como uma ‘vacina’ a boatos sobre o futuro do parque nas redes sociais; obras em marquise e situação de ambulantes continuam em aberto. Grupos da sociedade civil, porém, mantêm críticas ao modelo adotado

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Um espaço mais conservado e sinalizado, mas sem perder a essência. É o que promete a Construcap, empresa que venceu a licitação para concessão do Parque do Ibirapuera, na zona sul da capital paulista. Em um processo cercado de dúvidas, questionamentos – e boatos –, a empresa promete melhoras em algumas estruturas, como um deque no lago, e uma atração repaginada: o Museu do Folclore, no Pavilhão das Culturas Brasileiras (Pacubra), que hoje está fechado. Ela também poderá explorar lojas e quiosques nesse espaço.

A empresa detalhou ao Estado parte das propostas, como “vacina” a informações falsas das redes sociais (dando conta até de shoppings e de restaurantes fast-food no Ibirapuera). Organizações de defesa do parque e membros do conselho gestor do local, porém, questionam a forma como o processo tem sido conduzido pela gestão Bruno Covas (PSDB). 

Segundo o presidente da empresa, Roberto Capobianco, o destaque será um aplicativo de celular. Ele apresentará o parque aos usuários e passará a agenda de eventos do mês. Imóveis e árvores serão sinalizados com placas com QR Code, para apresentar digitalmente informações de cada bem. “O que queremos é manter a identidade do parque”, diz.

Nesse sentido, segundo ele, não há segredo sobre como a empresa fará dinheiro. “O Ibirapuera recebe 15 milhões de visitantes por ano”, diz. “Se 10 milhões deles consumirem R$ 5 no parque, teremos uma receita de R$ 50 milhões”, afirma. 

O novo Museu do Folclore será instalado no Pavilhão das Culturas Brasileiras (Pacubra), prédio anexo à marquise que, hoje, está fechado. O acervo é da Prefeitura e esteve até o fim dos anos 1990 na Oca. Grandes eventos temporários, como shows, não fazem parte dos planos. Capobianco diz temer o efeito de multidões. “Faremos atrações pequenas, em locais pouco frequentados, com os músicos do auditório”, diz.

O ponto em aberto é a marquise. A cobertura que interliga os prédios desenhados por Oscar Niemeyer tem problemas estruturais e precisa de obras que não estavam prevista no edital. Há trechos que estão interditados. Capobianco diz que a empresa está aberta a negociar termos do contrato de concessão para assumir a obra – mas nega a possibilidade de ampliação do tempo, de 35 anos. 

Quando a proposta de concessão passou a tomar corpo, ainda na gestão João Doria (PSDB), outro dos temores foi com relação à permanência ou não dos vendedores ambulantes que trabalham ali. A empresa não dá garantias de que vão continuar.

O responsável por concessões de parques da Construcap, Samuel Loyd, afirma que ele serão procurados e convidados a continuar no Ibirapuera após capacitação e mudanças nos negócios, “recolhendo impostos” – e cita ação parecida que a Construcap fez no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte.

A Construcap venceu a licitação ao oferecer à gestão Covas uma outorga de R$ 70,5 milhões. São previstos ainda R$ 180 milhões em investimentos. A licitação previu que quem levasse o Ibirapuera teria de gerenciar outros cinco parques, nas zonas leste, norte e oeste. 

Resistência

Grupos organizados apontam problemas no modelo adotado. O diretor-presidente da organização Parque Ibirapuera Conservação, Thobias Furtado, cita, por exemplo, a criação de uma única concessão para o parque todo, “como uma concessão rodoviária” e defende a opção, a partir de um plano diretor bem elaborado, de fazer concessões de áreas específicas, como o Planetário ou outro equipamento, e não uma transferência da área verde como um todo. 

A arquiteta Fernanda Araujo Curi, que estudou a história do parque para sua tese de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), aponta que a concessão não prevê nenhuma ampliação. “Do parque original, de 1954, o Ibirapuera já perdeu a área da Assembleia, do Círculo Militar, de uma série de residências”, diz. “Um milhão e quinhentos mil metros quadrados não é muito para uma cidade como São Paulo.”

A Construcap foi relacionada a pagamentos ilegais feitos por obras da Petrobrás no Rio na Operação Lava Jato. Capobianco chegou a ser preso em 2016 durante uma das fases da investigação, a Operação Abismo, e foi condenado pelo então juiz Sérgio Moro a 12 anos de prisão.

A empresa, entretanto, foi absolvida das acusações, em 1.ª instância, em 2017. Capobianco aguarda em liberdade o julgamento em 2.ª instância, pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF 4), em Porto Alegre.

Formato de novo plano diretor é entrave à concessão

Depois de questionamentos na Justiça por parte do Ministério Público e do vereador Gilberto Natalini (PV), a Prefeitura teve de elaborar um plano diretor para o Ibirapuera com as normas de conservação para o parque, antes de finalizar a concessão. Integrantes do conselho gestor do Ibirapuera criticam a “pressa” da gestão Bruno Covas (PSDB) em fazer uma proposta. 

O geógrafo Giuliano Cossolin, um dos membros, destaca que o plano deveria vir antecedido de pesquisas com usuários sobre o que a população quer para o parque. “Não temos prazo. Queremos o melhor”, diz.

A Prefeitura chegou a marcar em junho duas audiências públicas para apresentar o plano - um conjunto de diretrizes que, segundo Cossolin, tinha textos idênticos aos do edital de concessão. O Ministério Público negociou o adiamento das reuniões. “Aguardo a resposta para uma série de questionamentos que fizemos”, diz o promotor público Carlos Henrique Prestes de Camargo. A Prefeitura informou que o material apresentado originalmente está sendo “revisto”.

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