Como problemas das metrópoles afetam o dia a dia dos cidadãos?

Pelas histórias de sete personagens da metrópole que se interligam em um mesmo endereço, a Avenida Paulista, é possível entender a relação de problemas aparentemente tão diferentes entre si, como mobilidade, estresse, violência e habitação

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Para entender os problemas da metrópole, basta parar para escutá-la. E não é preciso percorrê-la toda. Numa única travessia da Avenida Paulista, é possível encontrar quem enfrente os males causados por décadas de crescimento desordenado e falta de planejamento.

 

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Pelas palavras do porteiro do condomínio, entende-se o que é viver 28 anos no mesmo bairro sem nunca ter tido acesso a água encanada e a esgoto tratado. O faxineiro da empresa conta como a família cresceu e cresceu - mas o apinhado barraco continuou igual. O analista mudou de casa, traumatizado por um assalto violento. E a administradora acha que tanto trânsito, pressão e falta de tempo ainda a farão sofrer um enfarte.

"Os problemas das metrópoles não escolhem padrão social. Todos já encararam violência, trânsito, poluição", resume o urbanista Kazuo Nakano, do Instituto Pólis. "Mas é nos centros desenvolvidos que se reúnem diferentes perfis. O perverso é que, após passar o dia em locais urbanizados, os que mais sofrem voltam para casa e encaram problema pior. É a desigualdade esfregada na cara."

Abaixo, moradores de São Paulo que convivem, dia após dia, com os problemas de viver numa região metropolitana.

 

 

Vanderlei: 40 anos no meio da poluição

 

Foi na década de 1970 que Vanderlei Soares dos Santos, de 62 anos, começou a trabalhar na Avenida Paulista como ajudante em banca de revistas. Quase 40 anos se passaram e lá continua o Vanderlei, ainda trabalhando em banca - e vivendo diariamente um mesmo fenômeno no fim da tarde: o ar fica carregado e a banca, esfumaçada. Com tanta poluição, problema comum a todas as metrópoles do País, Vanderlei tosse.

"Nunca foi melhor. Na verdade, só piorou", lamenta o ajudante, que trabalha ao lado do ponto de ônibus mais movimentado da Paulista, na esquina com a Avenida Brigadeiro Luís Antônio. A princípio causada pela fumaça das fábricas, hoje a poluição das metrópoles vem principalmente dos veículos.

Estudo do Laboratório de Poluição Atmosférica da USP elaborado em 2009 mostrou que, das nove regiões metropolitanas do País, seis (Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre) têm ar com qualidade inferior ao recomendado pela Organização Mundial da Saúde. "No fim do dia, tenho a garganta irritada, os olhos vermelhos e fico cansado", conta Vanderlei.

Ele não fuma, mas é como se tragasse três cigarros por dia. Assim, suas chances de ter câncer de pulmão são 15% maiores. Os riscos de sofrer com pressão alta, arritmia cardíaca e arteriosclerose também aumentam.

De 40% a 60% da poluição gerada nas metrópoles é causada pela queima de óleo diesel. Uma forma de minimizar o problema, portanto, seria exigir melhorias no produto. Havia resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente prevendo melhor qualidade do diesel a partir de janeiro de 2009. Uma alteração, porém, mudou o prazo para 2012 em São Paulo e 2014 nas outras metrópoles.

 

Edson: sete pessoas em um só barraco

 

No quarto de 10 metros quadrados, uma cama e um colchão para quatro pessoas. No outro cômodo, entre os móveis de sala e cozinha, mais uma cama - outras três pessoas vivem ali. No precário barraco, moram o faxineiro Edson Teles, a mulher, a filha, a mãe, o irmão, a cunhada, o sobrinho. A situação é descrita por ele como "de amontoado".

"Há 20 anos moramos aqui. A família cresceu, mas as condições não melhoraram. Nem a situação do bairro", contou Edson, de 35 anos, morador do loteamento irregular de Santana do Agreste, no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo. Em casas irregulares, sem esgoto tratado e com ligações telefônicas clandestinas, vivem 3,5 mil pessoas.

Edson enfrenta também problemas de infraestrutura e transporte - característica dos chamados "bairros-dormitório", distantes até 30 quilômetros dos centros urbanos. "Caminhão de lixo não chega, não tem emprego perto e o transporte é horrível."

Como Edson, há 4,4 milhões de brasileiros vivendo em habitações precárias e improvisadas, segundo estudo de déficit habitacional do Ministério das Cidades divulgado em 1º de setembro. Outros 18 milhões vivem em casas que não comportam o número de pessoas que abrigam. O estudo apontou que 27,6% (ou 1,5 milhão) das casas problemáticas ficam nas metrópoles.

E o problema não é exatamente falta de moradia: só em regiões metropolitanas há 1,9 milhão de casas vagas (no País todo, são 7,2 milhões). "Em todas as metrópoles, os centros esvaziam e as periferias incham", disse a arquiteta Ermínia Maricato, do Laboratório de Habitação da USP. "É preciso trazer a população para os centros, o que diminuirá a expansão das periferias."

 

Gilmar: em pé no ônibus 4 horas por dia

 

São quatro horas diárias no ônibus, sacolejando em pé por 22 quilômetros ida e volta, entre a casa no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e o trabalho como segurança na Avenida Paulista. Gilmar Oliveira, de 62 anos, está cansado. "Ônibus todo dia, trânsito que não anda. É encostar na janela e chorar." Ele poderia tentar trem e metrô - há uma estação a dois quilômetros de sua casa -, mas, pela distribuição da rede, Gilmar demoraria mais três horas. Teria de tomar seis trens diferentes e seguir viagem primeiro até Osasco para depois voltar para dentro da cidade.

"É tanta troca de trem lotado que só posso ir de ônibus", diz Gilmar, que sai de casa diariamente às 4h30, para chegar à Paulista às 6h40. À tarde, o tempo gasto é o mesmo.

O segurança não pode optar pelo metrô porque, em décadas de investimento, o esforço para integrar novas linhas às ferrovias já existentes ainda não é suficiente. Ao ir de ônibus até o trabalho, em percurso também não integrado a estações de metrô, Gilmar contribui para a existência dos "movimentos pendulares", grande entrave na mobilidade urbana. Segundo estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, até 40% da população que trabalha nas metrópoles tem de se deslocar da periferia ao centro. Assim, vias de acesso e avenidas principais dos centros urbanos recebem tráfego que não suportam.

O desafio dos novos governantes é reduzir a distância entre viagens, com política de transporte integrada ao uso e ocupação do solo. "Ao construir uma estação, deve-se pensar no entorno e criar oportunidade de crescimento", explica o consultor Jurandir Fernandes, ex-secretário de Transportes Metropolitanos de São Paulo. "Assim, menos pessoas viajarão tanto para chegar a seus empregos."

 

Nailton: à beira do córrego, virose é rotina

 

A cada dois ou três meses, o porteiro Nailton Amaro dos Santos, de 28 anos, costuma ir ao posto de saúde de seu bairro, no Jardim Jacira, extremo sul da capital. E o motivo é sempre o mesmo: uma das filhas, Angel, de 7 anos, ou Nicole, de 4, pegou novamente a "virose". "Elas acabam no soro, desidratadas, e ficam três dias para voltar ao normal. E todos sabem por que isso acontece."

A causa dos problemas de saúde das crianças é falta de saneamento. A casa da família fica a dez passos do Córrego da Jurema, que recebe esgoto in natura dos cerca de 10 mil moradores do bairro. Angel e Nicole, "numa idade em que é difícil segurar", brincam na terra às margens do córrego e enfrentam doenças decorrentes disso.

Como o porteiro e seus familiares, outros 17,4 milhões de pessoas enfrentam o problema em regiões metropolitanas do País - a pior situação fica em Belém (PA), onde 90% das casas não estão ligadas à rede de esgoto, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Na região metropolitana de São Paulo, o déficit atual é de 15% (ou 3,1 milhões de pessoas). Dentro da capital, porém, ainda há pontos críticos: em Parelheiros, na zona sul, por exemplo, 57% das casas não estão ligadas à rede de esgoto.

O problema do saneamento no País - que só atentou para isso na década de 1970 - passa pela falta de projetos no setor. Como os municípios não conseguiram apresentar projetos de obras para financiamento, o governo federal alterou o prazo para apresentação de planos de 2010 para 2014. "Significou empurrar para frente um problema já mais do que presente na vida de 18 milhões de brasileiros", explica o conselheiro do Instituto Trata Brasil, Raul Pinho.

 

Hugo: nova cidade, após quatro assaltos

 

Não levou um mês para que a família do analista de contas Hugo Siqueira, de 26 anos, se adaptasse à nova situação: teriam de mudar, se ainda quisessem ter paz. Numa noite de abril de 1996, a mãe, o irmão mais novo e Hugo ficaram 20 minutos na mira de assaltantes. Ninguém jamais esqueceu dos revólveres na cabeça, nem da sensação de virar refém. Por dias, a mãe não conseguiu dormir. A única forma de a vida voltar ao normal foi deixar a Casa Verde, na zona norte, onde a família sempre havia vivido.

"Mudamos para perto de familiares, para um proteger o outro", conta Hugo, que trabalha na Avenida Paulista e hoje vive em Taboão da Serra. Ele faz parte de um alto contingente de pessoas assaltadas na Região Metropolitana de São Paulo - a cada quatro domicílios, há uma vítima de assalto, segundo pesquisa de 2009 do Centro de Políticas Públicas do Insper (ex-Ibmec-SP).

No caso de Hugo, vários assaltos. Ele também já foi roubado na rua e dominado com amigos outras duas vezes - os ladrões sempre andavam em turma, armados. Em nenhum caso havia polícia por perto e ninguém pensou em fazer boletim de ocorrência. "Não senti a presença da polícia nenhuma vez."

Uma forma de aumentar a sensação de segurança é garantir a integração das polícias. "As inteligências das Polícias Civil e Militar devem unir os potenciais investigativo e ostensivo, numa transição de responsabilidade dos Estados", diz o sociólogo José Luiz Ratton, da Universidade Federal de Pernambuco. "A polícia articulada será mais presente na rua e a população confiará mais ao procurá-la." Discutida desde 1999, a integração das polícias nunca foi objeto de política pública eficaz dos governos estadual e federal.

 

Fabiola: rotina de estresse e ansiedade

 

Há dois anos, quando estourou a crise econômica, a administradora Fabiola de Andrade, de 25 anos, sentiu seus nervos "estourando também". "Era muita pressão. A empresa começou a demitir, só conseguia pensar que seria a próxima." Fabiola passou a ter crises de ansiedade e tremia sempre que um dos diretores passava perto de sua mesa. Quando procurou ajuda médica, contou ter medo de sofrer um enfarte.

Desde que começou a trabalhar no mercado financeiro, em 2008, Fabiola sofre com crises de estresse. O estilo de vida é determinante para se sentir "o tempo todo nervosa". "Sinto que não vivo bem aqui", resume a paulistana, cuja família veio do Nordeste.

Problemas no trânsito - duas horas diárias entre o Imirim, na zona norte, e a Avenida Paulista - e a falta de tempo para o lazer intensificam a ansiedade que o trabalho causa em Fabiola. Há dois anos, ela faz tratamento médico. Como a administradora, o mal atinge 35% da população das metrópoles, segundo o Centro Psicológico de Controle do Estresse, que estuda o transtorno desde 1985.

O "estresse inescapável" (ligado a situações inevitáveis, como o trânsito) e a desproporção entre tempo e valor do trabalho são algumas das causas específicas do estresse das grandes cidades. "As pessoas ficam no escritório até as 22 horas, em jornadas consideradas "normais". Não sobra tempo para descansar a mente e aumenta a probabilidade de crises de ansiedade", explica o psiquiatra Márcio Bernik, coordenador do Ambulatório de Transtornos de Ansiedade do Instituto de Psiquiatria da USP. Entre as doenças ligadas ao estresse estão depressão e desordem de ansiedade generalizada (preocupação desproporcional em relação ao problema).

 

Durvalina: mudança para ter emprego

 

Sem encontrar emprego em Poá, na Região Metropolitana de São Paulo, a diarista Durvalina Cordeiro, de 42 anos, mudou-se em abril para a Avenida Paulista, para um apartamento alugado ao lado do Parque Trianon. Conseguiu encontrar trabalho, mas sentiu imediatamente o problema de viver na região central de uma metrópole: o custo de vida aumentou, a família não consegue mais economizar.

"Mudei para arranjar emprego onde antes não conseguiria. Foi uma tentativa de aumentar a renda, mas, por enquanto, a conta não fecha", conta a diarista, que trabalha em casas na região da Avenida Brigadeiro Faria Lima, na zona oeste de São Paulo.

Embora a renda da família tenha subido - de R$ 1,5 mil para R$ 2,4 mil mensais -, Durvalina está se sacrificando. Já não consegue reservar os R$ 500 mensais para a faculdade da filha, Elaine, de 16 anos. Da renda, 62% (R$ 1,5 mil) são gastos em aluguel e alimentação - acima da proporção aceitável pelo Ministério das Cidades. "Com o resto dos gastos, não sobra nada", conta. "Não vou conseguir pagar a faculdade. Estou incentivando que ela consiga emprego para pagar."

Em média, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a cesta básica em regiões centrais das metrópoles é 15% mais cara do que nas periferias. O aluguel para áreas centrais também sobe entre 15% e 25% para habitações de nível semelhante.

Para evitar que pessoas tenham de se mudar para aumentar a renda, a solução seria criar polos locais de desenvolvimento. "Se houver incentivo para a criação de serviços nas periferias, a renda sobe e os pagamentos também", diz o economista Sérgio Mendonça, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

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