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Como o hábito faz o monge

Vestido de monge, você prega o desapego material, vestido de pirata, saqueia navios. Talvez esse exemplo seja radical, mas é fácil observar que expomos diferentes faces de nossa identidade, dependendo da atividade em que estamos envolvidos. Em família, ensinamos honestidade e humildade, mas nos tornamos mentirosos após uma pescaria, ou cometemos pequenas desonestidades no dia a dia. A coerência absoluta é quase impossível para o ser humano. O interessante é que um novo experimento demonstra quão fácil é induzir a honestidade ou desonestidade em uma pessoa. Bastam algumas perguntas.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

06 Dezembro 2014 | 02h02

O experimento foi feito com empregados de um grande banco de investimento internacional. São pessoas remuneradas pelo lucro gerado, que vivem em um ambiente altamente competitivo, onde o salário fixo anual é menor do que o bônus recebido no final do ano.

Foram recrutados 160 voluntários. Eles não sabiam qual o objetivo do experimento quando foram convidados a participar de um pequeno jogo. Eram levados individualmente para uma pequena sala, onde um pesquisador fazia algumas perguntas e explicava o jogo. Depois, o pesquisador saía da sala garantindo a privacidade do voluntário. O voluntário deveria pegar uma moeda e lançar para o alto. O resultado (cara ou coroa) deveria ser anotado em uma tabela no computador que estava sobre a mesa. Isso deveria ser repetido dez vezes.

O voluntário era informado que, para cada coroa anotada na tabela, receberia US$ 20 e, para cada cara registrada, não receberia nada. Dez coroas anotadas e ele saía da sala com US$ 200, nada mal. Como as atividades do voluntário não eram monitoradas, ele poderia se comportar honestamente, anotando o resultado obtido, ou roubar, aumentando um pouco o número de coroas reportadas no computador.

Quando você lança uma moeda um número muito grande de vezes, o número de caras e coroas obtido tende a se igualar, mas, quando um número pequeno de repetições é usado (dez no caso do experimento), a distribuição varia muito, não sendo difícil obter 7 ou 8 coroas e 3 ou 2 caras. Ou seja, observando o resultado de cada indivíduo, é impossível saber se ele roubou e, mais importante, é impossível identificar o ladrão. Esses voluntários, com mais de 10 anos de trabalho no mundo financeiro, sabiam disso.

O que os funcionários não sabiam é que eles haviam sido divididos por sorteio em dois grupos. Na conversa inicial com o primeiro grupo, as perguntas feitas pelos pesquisadores eram propositadamente gerais e se referiam à vida familiar do voluntário. Quantos filhos tinha, quantas horas dormia por noite, se praticava esportes, etc. Perguntas que sugeriam um ambiente doméstico. Já o segundo grupo era questionado sobre seu ambiente de trabalho. Em que banco trabalhava, se o banco era competitivo, como era sua remuneração, se ele se considerava igual ou superior aos seus colegas e assim por diante. Perguntas que sugeriam o ambiente de trabalho. Findos esses questionários os voluntários eram convidados a participar do jogo.

Se é verdade que é impossível saber quem roubou, juntando todos os dados, mais de 800 tentativas em cada grupo (80 pessoas jogando a moeda 10 vezes cada), é possível saber se o grupo como um todo obteve resultados compatíveis com as leis das estatísticas ou se foram observados desvios (roubo), o que aparece como um aumento significativo na porcentagem de coroas.

O que os cientistas observaram é que os voluntários que foram colocados aleatoriamente no grupo de controle, e foram submetidos a um questionário que sugeria uma situação familiar, não roubaram, ou seja, os resultados obtidos (51,6% de coroas) não são estatisticamente diferentes do esperado, 50% de coroas. Mas, no caso dos voluntários que aleatoriamente haviam sido colocados no grupo em que as perguntas sugeriam um ambiente de trabalho, os resultados obtidos demonstraram que houve trapaça. Eles registraram 58,2% de coroas, o que é estatisticamente diferente de 50% com alto grau de certeza.

Também foi possível estimar que, em 16% dos lançamentos da moeda, o resultado foi reportado de maneira errônea e que por volta de 26% dos voluntários reportaram mais coroas do que realmente obtiveram.

Esses resultados demonstram que os voluntários estudados não são intrinsecamente desonestos, pois se comportam honestamente quando o ambiente em que estão jogando é caseiro. Mas, quando as perguntas sugerem às pessoas que o ambiente em que elas estão operando é o profissional, elas se comportam de outra maneira, e tendem a ter um comportamento desonesto. Mas o mais interessante é que bastam algumas perguntas sugestivas para transformar um monge em um pirata, o que é muito mais simples e fácil do que trocar de roupa.

*É BIÓLOGO. MAIS INFORMAÇÕES: BUSINESS CULTURE AND DISHONESTY IN THE BANKING INDUSTRY. NATURE VOL. 516 PAG. 86 2014

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