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Como o frango chegou ao forno

Assados, fritos ou ensopados, milhões de frangos são devorados todos os dias pela humanidade. A galinha foi domesticada no Sudeste asiático 8 mil anos atrás. Quatro ou cinco mil anos atrás a galinha já havia chegado ao Mediterrâneo. Cem anos antes do nascimento de Cristo (100 a.C.), ela já havia se espalhado pela Europa e chegado à Inglaterra. Mas a chegada da galinha não significa que ela tenha ido para a panela. Os arqueólogos acreditam que inicialmente a galinha era um animal de estimação, um bicho exótico criado para divertir e ornamentar o jardim dos ricos. O homem apreciava uma boa briga de galo antes de um frango assado. Mas, agora, cientistas desenterraram em Israel o que parece ser a primeira criação em larga escala de frangos e galinhas para produção de ovos e carne. O local estudado é Maresha, uma cidade fundada pelos gregos, antes do nascimento de Cristo, perto de Jerusalém.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2015 | 02h03

Como Homero não cita galinhas em seus escritos, os cientistas acreditam que os gregos ainda não conheciam as galinhas na sua época (800 a.C.). A partir de 700 a.C., elas aparecem nas moedas e nos vasos gregos e já são mencionadas por Theognis de Megera em 600 a.C.. Cícero descreve o estudo do comportamento dos galos de briga pelos romanos em 249 a.C.. O comportamento dos galos era usado pelo militares para prever o sucesso no campo de batalha. Mas foi por volta de 100 a.C. que a galinha começou a ir para a panela no Ocidente. Uma lei romana de 161 a.C. (Lex Faunia) proíbe o consumo de mais de uma galinha por dia. O historiador romano Varro descreve como tratar galinhas durante a época da postura e a primeira receita em que um ovo é usado é descrita por Apicius por volta dessa época.

Foi com esses conhecimentos que os arqueólogos iniciaram suas escavações em Maresha. Lá foram encontrados e estudados 1.092 esqueletos de galinhas. Usando a técnica do carbono 14 foi descoberto que esses esqueletos pertenciam a galinhas que haviam vivido nesse local entre 245 a.C. e 140 a.C.. Grande parte dos ossos mostrava marcas de facas, semelhantes às deixadas por nós quando separamos as partes de um frango ou desossamos uma galinha. Mas o mais interessante foi o resultado da análise do sexo dos animais.

Isso pode ser feito medindo relações de comprimento em alguns dos ossos de um galináceo. Os resultados mostram que em Maresha havia duas vezes mais ossos de fêmeas do que de machos. Esse desequilíbrio entre machos e fêmeas é típico de criações extensivas, pois bastam alguns galos para fecundar muitas fêmeas. As fêmeas, por produzir ovos, têm mais valor para o criador e tendem a morrer no local onde são criadas. Os machos são vendidos e seus ossos acabam perto do local onde são consumidos.

Para confirmar que essa era uma aldeia em que galinhas eram criadas, os cientistas fizeram um levantamento de todas as aldeias gregas da época. Enquanto em Maresha as galinhas representavam 29% de todos os ossos desenterrados, em outras nove aldeias eles dificilmente passavam de 10%. E nessas outras aldeias machos e fêmeas estão igualmente representados.

Esses resultados sugerem que foi por volta de 200 a.C. que as galinhas começaram a ser criadas de forma mais organizada no Ocidente com o objetivo de produzir alimento. Essa nova tecnologia se espalhou rapidamente pela Europa nos 100 ou 200 anos seguintes. A conclusão é que foi em Maresha, por volta dessa época, que as galinhas começaram a ir sistematicamente para a panela e os frangos, para o forno.

*É BIÓLOGO. MAIS INFORMAÇÕES: EARLIEST ECONOMIC EXPLOITATION OF CHICKEN OUTSIDE EAST ASIA: EVIDENCE FROM THE HELLENISTIC SOUTHERN LEVANT. PROC. NAT ACAD. SCI. DOI/10.1073/PNAS.1504236112 2015

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