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Como dizer ‘não’

Excesso de regras não ajuda crianças e adolescentes a crescer – já os princípios, sim

Rosely Sayão*, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2019 | 01h00

“Nossas crianças precisam de limites!”. Costumamos ouvir com muita frequência essa frase, não é verdade? Ouvimos nas escolas, nas famílias, de influenciadores digitais. Em todos os cantos. Mas, o que ela quer dizer mesmo? O curioso é que muitos entendem esse bordão de uma maneira diferente. Para muitos, limites quer dizer “não”. Aliás, na internet encontramos muitos artigos e textos que ensinam mães e pais a dizer “não” aos filhos. Como se precisasse! Dizer não é fácil. 

“Não pode bater no irmão”, “não vai jogar videogame todos os dias”, “não é permitido falar palavrão”, “não vai sair sozinho”, por exemplo. A lista de frases que começam com “não” que dizemos aos filhos diariamente é imensa. Não é à toa que uma das primeiras palavras que o bebê costuma dizer seja justamente essa, às vezes mostrada com o gesto de balançar a cabeça negativamente, ou com palavras. Mamãe, papai, não: essas são as três palavrinhas que eles adoram falar.

“Não” significa, sim, um limite. Mas, cá entre nós: dizer “não” aos filhos funciona sempre? Sabemos que só de vez em quando. Por quê? Em geral, de tanto usarmos essa palavra, ela acaba enfraquecida e perde sua potência. Quer um exemplo que, certamente, já deve ter ocorrido com você? “Mãe, vou pegar um chocolate”. “Não, filho, é quase hora do almoço”. “Ah, mãe, só um.” O filho insiste tanto que consegue o que queria. Pronto: o “não” perdeu um pouco de seu significado no relacionamento entre mãe e filho.

Isso dá para resolver: escolher quando dizer “não” pode ser uma boa. No exemplo acima, a mãe poderia substituir a negativa definitiva pela temporária: “ainda não”. “Ainda não, filho. Assim que você almoçar, você pega seu chocolate.” 

Outra maneira de fazer o “não” valer é agindo, e não só dizendo. “Filho, não sobe essa escada” precisa vir acompanhada de alguma atitude do adulto que irá impedir que a criança se aventure a subir a escada. Aí, o “não” ganha seu real sentido para a pequena criança.

Voltemos aos limites. Há quem entenda que dar limites aos filhos significa impor regras na vida deles e fazer “combinados”. Antes de tudo, uma reflexão a respeito dos tais combinados, tão presentes nas escolas e nas famílias. Combinar algo com alguém significa estabelecer uma ação com a qual o outro concorda, certo? Então, vamos esquecer os combinados com as crianças porque, primeiramente, elas em geral não concordaram com o proposto e, em segundo lugar, porque a maioria das vezes elas não dão conta de bancar o que foi combinado. Vamos lembrar que elas não têm autocontrole ainda. O fiador desse contrato é quem deve arcar com tudo, combinado?

Bem, limites como regras têm tido uso abusivo, se pensarmos bem. O que há de regra na vida de crianças e de adolescentes é uma coisa impressionante. Hora para tomar banho, como comportar-se à mesa de refeições (por falar nisso, é imperdível o episódio “Come tudinho” do Porta dos Fundos, no fim da coluna), horário para dormir, entre outros.

E regras existem para serem sempre cumpridas? Não: para serem transgredidas e burladas também! Basta nos lembrarmos de um jogo de futebol, por exemplo. O jogador pode avaliar o risco da penalidade e escolher transgredir a regra para levar vantagem. E muitos aplaudem, não é assim?

Além disso, as regras pouco ensinam: apenas sinalizam um comando que deve ser obedecido. Regras não ajudam a criança e o adolescente a crescer.

Já os princípios, sim. Um exemplo? Em vez de determinar um horário para o filho tomar banho, é melhor ensinar o princípio da higiene que ajuda a manter a boa saúde. Assim, se de vez em quando o banho falhar – o que pode acontecer por causa das circunstâncias –, nenhuma regra terá sido transgredida.

Claro que isso não significa que nenhuma regra deva existir para estabelecimento de limites. O exagero delas é que acaba limitando em demasia a vida dos mais novos.

Quem quer levar uma vida repleta de “nãos” e de regras? Nenhum de nós: já bastam os inevitáveis. Então, por que promover isso às crianças e aos adolescentes?

* É PSICÓLOGA

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