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Como amar pessoas que roncam

Quando era adolescente eu tinha um desejo secreto. Imaginava como seria bom aprender durante o sono. Me imaginava acordando após ter dormido com um livro de matemática sob o travesseiro, já sabendo resolver problemas de álgebra. Como isso era impossível, adotava outra prática também inútil: passava o dia carregando o livro embaixo do braço, na esperança de absorver seu conteúdo pelas axilas. Mas agora um grupo de cientistas demonstrou que o cérebro é capaz de aprender durante o sono.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2013 | 02h07

É sabido que durante o sono nosso cérebro solidifica o que aprendemos durante o dia (uma boa desculpa para justificar a soneca depois de uma manhã na escola). Apesar de os cientistas suspeitarem que o aprendizado também poderia ocorrer durante o sono, isso nunca tinha sido demonstrado.

O que permitiu aos cientistas demonstrar que o aprendizado ocorre durante o sono foi a descoberta de que nosso sistema auditivo e olfativo pode ser estimulado nesse período sem que a pessoa acorde. É sabido que, durante o sono, quando cheiramos algo agradável, fungamos mais fundo. Quando sentimos um cheiro desagradável, fungamos com menos intensidade. Usando esses conhecimentos, os cientistas tentaram ensinar um grupo de voluntários a associar diferentes cheiros a diferentes notas musicais.

Antes de dormir, os voluntários eram ligados a um aparelho de eletroencefalograma, que permitia saber se o voluntário estava realmente dormindo. Além disso, dormiam com uma máscara que cobria o nariz. Por meio dessa máscara, os cientistas podiam acrescentar diferentes odores ao ar que era respirado e podiam também medir o movimento respiratório (as fungadas do voluntário), determinando tanto o tempo da fungada quanto o volume de ar aspirado. Foram estudados 69 voluntários saudáveis, sem distúrbios de sono. Durante várias noites, foram executados aproximadamente 1.500 experimentos.

Os pacientes iam dormir quando sentissem sono. Quando o eletroencefalograma indicava um sono estável, um alto-falante tocava um apito em um volume suficientemente baixo para não acordar a pessoa. O apito durava 1 segundo. Logo em seguida, um odor era liberado na máscara de respiração durante 3 segundos. Passado algum tempo, esse procedimento era repetido, para que o cérebro da pessoa associasse o som ao odor. Foram usados dois tipos de odor e dois tipos de som. Cada som era sempre pareado com o mesmo odor. Dois dos odores eram agradáveis (sabonete e desodorante) e outros dois, desagradáveis (peixe podre e carniça).

Durante cada noite, os voluntários eram submetidos aos pares de estímulo (apito A/cheiro bom; apito B/cheiro ruim) diversas vezes. Feito isso, ainda enquanto os voluntários estavam dormindo, os cientistas testavam se o voluntário havia aprendido a associar o estímulo auditivo ao cheiro. Para isso, tocavam o apito sem liberar o cheiro. Se o aprendizado tivesse ocorrido, a pessoa responderia com o tipo de fungada correspondente. Tudo isso sem que o paciente acordasse. Se ele acordava durante o experimento, os dados eram descartados.

O experimento funcionou, depois de condicionados, ainda na mesma noite, quando o apito associado ao cheiro ruim tocava, as próximas respirações eram curtas e com pouco ar, mesmo na ausência do cheiro de carniça. Quando o apito associado ao cheiro bom era tocado, a pessoa imediatamente começava a respirar mais fundo e por mais tempo. Isso demonstra que as pessoas aprenderam a associar um apito a um cheiro durante o sono. Demonstra também que o aprendizado pode ser medido ainda durante o sono.

Na segunda parte do experimento, após as pessoas acordarem, os cientistas perguntavam se elas lembravam do que havia ocorrido durante a noite. Ninguém lembrava. Então, os cientistas colocavam novamente a máscara na cara do voluntário e, quando ele estava relaxado, tocavam o apito. Se o apito era o que durante a noite havia sido associado a um cheiro ruim, imediatamente as pessoas passavam a respirar um volume menor. Se o apito era o associado a um cheiro bom, as próximas respiradas eram longas e profundas. Isso demonstra que a associação criada durante o sono é mantida na memória e modifica o comportamento mesmo depois de a pessoa despertar.

Como isso vai ser usado no futuro ainda não sabemos. Mas, como passamos quase 30% de nossas vidas dormindo, o potencial é grande.

De prático e imediato essa descoberta pode melhorar o casamento de muitas pessoas. Se você costuma roncar, incomodando seu parceiro durante a noite, lembre de sempre usar um perfume diferente na hora de dormir e nunca usar esse perfume de dia. Assim, o cheiro que seu parceiro associa a você durante as noites maldormidas não vai diminuir o amor que ele sente durante o dia.

MAIS INFORMAÇÕES: HUMANS CAN LEARN NEW INFORMATION DURING SLEEP. NATURE NEUROSCIENCE, VOL. 15 PAG. 1460 2012

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