Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

'Como alguém dirige bêbado, mata e foge?'

Motorista alcoolizado - segundo a polícia - e sem CNH atropelou o marido de Gisela, pagou R$ 100 mil de fiança e saiu da prisão

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h02

"O João só teve metade do pai que eu tive. O João vai crescer e não vai ter o pai que eu tive."

Antonio tem 14 anos. Na noite da última quinta, chorava escondido debaixo da escrivaninha, em seu quarto, dizendo essas palavras. João é seu irmão, de 7 anos. Duas semanas antes, na noite do dia 17 de julho, o pai deles morreu em um acidente quando voltava para casa depois do trabalho.

Fabio Antonio Heide tinha 43 anos. Com os irmãos, comandava o restaurante Kibe Kibe, no Campo Belo, na zona sul da capital, um negócio familiar de quase 30 anos. Como fazia todos os dias, fechou o estabelecimento por volta das 22h30 e pegou o caminho para casa, no Morumbi. Como fazia todos os dias, a bordo de sua motoneta, uma Honda Lead verde, ano 2012.

Naquela quarta-feira, entretanto, Fabio não veria novamente sua família. A cerca de 1 quilômetro de casa, um Jetta preto, ano 2007, veio em sua direção. De acordo com depoimentos de testemunhas ouvidas pela delegada de plantão na madrugada do dia 18, o carro veio na contramão.

Na casa dos Heides, o telefone fixo tocou. Antonio atendeu, passou para a mãe, "estão falando que é um acidente com o papai". Foi o tempo de Gisela Silveira Camargo Heide, de 41 anos, há 24 namorada de Fabio, há 18 casada com Fabio, trocar o pijama por uma roupa, tocou o interfone. "Eram dois rapazes, duas testemunhas, que vieram me procurar para contar sobre o acidente. Me aconselharam a ir para o hospital."

"Mas ele morreu? Mas ele morreu?", perguntava Gisela.

Fabio quebrou as duas pernas e um braço. Mas o que o matou foi o impacto da batida, o trauma na região torácica. Gisela soube que tinha se tornado viúva assim que chegou ao Hospital Universitário da USP, para onde Fabio foi encaminhado. "Meu filho me ligou perguntando se estava tudo bem. Respondi que não, que estava tudo ruim. E desliguei o telefone. Meu mundo caiu."

Naquele momento, Bernardo Romitti, de 36 anos, o condutor do Jetta, era levado para o 89.º DP (Morumbi). Bernardo "desejou fazer uso do direito constitucional de permanecer em silêncio, sem prejuízo de sua defesa e se manifestar somente em juízo", registrou o escrivão.

Bernardo recusou o bafômetro. Em laudo da delegada e do perito, foram constatados "sinais de alteração da capacidade psicomotora". O documento afirma que ele apresentava "sonolência", "olhos vermelhos", "desordem nas vestes" e "odor de álcool no hálito". Também mostrava "agressividade", "dificuldade no equilíbrio" e "fala alterada".

Bernardo foi preso em flagrante por "homicídio culposo na direção de veículo automotor", "embriaguez ao volante", "fuga de local de acidente" e "direção sem permissão ou habilitação". Sua carteira estava vencida desde março. Ora apresentado no inquérito como empresário, ora como empreiteiro (é proprietário da construtora Gaber), ora como assessor da diretoria da gráfica Romitti, de sua família, Bernardo foi levado ao Centro de Detenção Provisória (CDP) III de Pinheiros, na zona oeste.

"Mamãe, não é justo o que esse cara fez com o papai", dizia Antonio, no dia seguinte.

"Mas ele está preso. A justiça será feita."

O corpo de Fabio só foi liberado no fim da tarde da quinta-feira, dia 18. O enterro, no Cemitério São Paulo, em Pinheiros, seria no dia seguinte. "Foi quando soube que ele (Bernardo) pagou a fiança e foi solto", diz Gisela. "Como explicar para meus filhos? Como alguém dirige bêbado, mata um pai de família, foge do local e depois paga e é solto?"

O pedido de liberdade provisória foi feito pelo advogado Celso Vilardi - com a experiência de quem defendeu o filho do empresário Eike Batista, Thor, quando ele atropelou um ciclista em Duque de Caxias, em março de 2012. No documento, ele argumenta que "nem sequer há testemunhas presenciais" do ocorrido e que Bernardo "é primário e de bons antecedentes". O inquérito afirma, entretanto, que ele já havia sido processado, uma vez, por furto. No dia 19, mesma data do enterro de Fabio, um cheque de R$ 100 mil do Banco Safra abriu o portão do CDP para Bernardo.

"Há a notícia de que ele havia sido pego dirigindo embriagado nos Estados Unidos. Vou levantar os antecedentes", promete o advogado da família da vítima, Roberto Pagliuso. Voltado a brasileiros nos Estados Unidos, o jornal Brazilian Voice diz que "em 28 de junho de 2011, ele (Bernardo) foi preso na cidade de Aventura, Flórida, por dirigir embriagado e chocar seu carro contra outro veículo, felizmente sem provocar vítimas graves".

O advogado também pretende que seja revista a classificação de "homicídio culposo" para "doloso" (em que há a intenção de matar). "A classificação que deram é muito benéfica para ele", diz Pagliuso. "Também acredito que ele precisa ficar preso durante o processo."

Procurado pela reportagem, o advogado de Bernardo afirmou que ele e seu cliente preferem não comentar o caso enquanto o inquérito não for concluído. "As investigações são preliminares."

Gisela ainda parece em choque. Usa o presente para se referir ao marido. "Está difícil acordar e me ver sozinha. E o Dia dos Pais está aí."

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