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Como a tuberculose chegou ao Peru

Estamos observando ao vivo e em cores a tentativa de o vírus Ebola de se espalhar pelos continentes. Enquanto isso, um grupo de cientistas decifrou como a bactéria causadora da tuberculose chegou à América do Sul muito antes de Cabral e Colombo.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2014 | 02h05

Durante décadas se acreditou que a tuberculose teria chegado às Américas trazida pelos colonizadores espanhóis. E o motivo principal é a observação de que as cepas do bacilo Mycobacterium tuberculosis que são encontradas em todos os países das Américas são muito semelhantes às encontradas na Europa. Por isso a tuberculose foi agregada à enorme lista de doenças trazidas pelos colonizadores, como a gripe, o sarampo e muitas doenças venéreas. Nessa época também se acreditava que a tuberculose teria infectado os humanos quando os animais começaram a ser domesticados. Nós teríamos recebido a doença dos bovinos.

Mas, nos últimos anos, quando os cientistas começaram a sequenciar e comparar os genomas de todos os membros da família das mycobacterias, tudo mudou. Primeiro, foi descoberto que as cepas do bacilo eram muito mais heterogêneas na África do que no resto dos continentes, o que indicava que a doença teria surgido entre os humanos antes de nossa saída da África, centenas de milhares de anos atrás. Depois, foi o susto com as vacas. Sequenciando o genoma das cepas presentes no gado, os cientistas descobriram que foi o ser humano que passou a doença para os bovinos durante o processo de domesticação e não o contrário. Finalmente, começaram a ser descobertos esqueletos e múmias em diversas partes do planeta com alterações ósseas típicas de pessoas infectadas com tuberculose. Tudo isso levou os cientistas a criar uma nova teoria. A tuberculose teria infectado os seres humanos na África e teria se espalhado à medida que os humanos se espalharam pelo planeta.

Assim, não foi uma grande surpresa quando foram encontradas múmias no Peru com lesões ósseas típicas da tuberculose. Esses esqueletos pertenciam a pessoas da cultura Chiribaya, que habitou o sul do Peru entre 750 e 1350 anos antes de Cristo, muito antes da chegada dos espanhóis. Os esqueletos foram datados com carbono 14 e foi concluído que essas pessoas haviam vivido nas vilas de El Yaral, El Algodonal e Chiribaya Alta entre 1028 e 1280 anos antes de Cristo. Esta descoberta comprova que a tuberculose já existia nas Américas muito antes da chegada dos espanhóis. Mas a grande surpresa ainda estava por vir.

Os cientistas examinaram 68 destas múmias, mas em somente quatro delas foi possível extrair DNA em quantidade e qualidade suficiente para sequenciar o genoma da mycobacteria. Os cientistas conseguiram sequenciar completamente o genoma das mycobacterias de três dessas múmias. Comparando a sequência de DNA destas amostras com todas as outras amostras de mycobacterias, isoladas de seres humanos e animais de todas as regiões do planeta, descobriram que a cepa presente nas múmias do Peru era completamente diferente de todas as cepas presentes em seres humanos. Mais que isso, elas eram muito semelhantes às cepas encontradas nas focas que vivem na costa do Oceano Pacífico. Essa nova descoberta sugere que as tribos primitivas que viviam no Peru provavelmente se infectaram com a doença consumindo carne de foca. É claro que também pode ter ocorrido o contrário, os humanos terem infectado as focas, mas os cientistas acreditam que isso é pouco provável, uma vez que estes animais nunca foram domesticados como foi o caso das vacas. Eram simplesmente caçados e consumidos pelas comunidades Chiribaya. A conclusão é que provavelmente a tuberculose chegou ao Peru trazida por mamíferos marítimos.

Mas o mistério continua, como e quando as focas teriam contraído a tuberculose? Já se sabe que as galinhas chegaram ao Peru antes da colonização espanhola, vindas de ilhas do Pacífico habitadas por serem humanos (veja minha coluna intitulada Como a galinha chegou ao Peru, de 5/7/2007). Será que esses seres humanos teriam levado a tuberculose da África para a Oceania junto com as galinhas, e de lá ela teria chegado ao Peru por meio das focas e dos leões-marinhos? Ou será que esses seres humanos, já contaminados com a tuberculose das focas, teriam chegado até o Peru e se misturado com as populações humanas vindas da América do Norte?

É interessante observar como é difícil, dezenas de milhares de anos depois, reconstituir o espalhamento de uma nova doença pelo planeta. E, se não conseguirmos deter o Ebola na África, muitos acreditam que ele se espalhará pelo planeta. Mas com acesso aos aviões, muito mais rapidamente do que a tuberculose, que viajou a pé ou de barco, se infiltrando primeiro nas enormes favelas das grandes cidades. E, no futuro, os cientistas estarão dando tratos à bola para entender como nossa geração deixou isso acontecer.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: PRE-COLUMBIAN MYCOBACTERIAL GENOMES REVEAL SEALS AS SOURCE OF NEW WORLD HUMAN TUBERCULOSIS. NATURE VOL. 514 PAG. 494 2014

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