Comitê quer reservar água em represas para se prevenir de nova crise no verão

Sabesp prevê inicialmente usar metade do chamado 'volume morto' até novembro

Fabio Leite, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2014 | 02h05

Preocupado com as incertezas que cercam a próxima temporada de chuvas, o comitê anticrise que monitora a seca histórica do Sistema Cantareira pediu aos órgãos gestores do manancial que definam reserva estratégica de água a ser preservada ao fim de novembro, quando a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) prevê o esgotamento do "volume morto" - água represada abaixo do nível das comportas -, que começará a ser captado neste mês.

A recomendação feita à Agência Nacional de Águas (ANA) e ao Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) revela preocupação com uma possível repetição da estiagem enfrentada neste verão, que foi o mais seco em 84 anos. O grupo anticrise é composto por técnicos dos dois órgãos, dos comitês das bacias hidrográficas Alto Tietê e dos Rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), que recebem água do Cantareira, e pelo diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato.

"Aos órgãos gestores, ANA e DAEE, que, em função das incertezas envolvidas no regime hidrológico futuro e de eventuais imprevistos, seja definido um volume estratégico a ser preservado ao final do período de planejamento, 30/11/2014", recomenda o comitê anticrise. Segundo o grupo, o "volume útil" do Cantareira, que ontem estava em 10,5% da capacidade, deve acabar em "meados de julho", em plena Copa do Mundo, conforme o Estado antecipou.

No plano emergencial enviado ao comitê, a Sabesp prevê iniciar a captação do "volume morto" no dia 15 de maio nas Represas Jaguari-Jacareí, na região de Bragança Paulista. Os dois reservatórios, que representam 80% da capacidade de todo o Sistema Cantareira, estavam ontem com apenas 3% de volume armazenado. Dali, a Sabesp pretende retirar cerca de 120 bilhões de litros represados abaixo do nível da tubulação, usando bombas flutuantes.

Estimativa. Pelos cálculos apresentados, a quantidade é suficiente para abastecer a Grande São Paulo até o fim de agosto. A partir daí, a Sabesp deve iniciar a captação de 80 bilhões de litros do "volume morto" da represa Atibainha, em Nazaré Paulista, que deve durar até 27 de novembro, conforme estimativa da companhia.

Até esta data, a presidente da Sabesp, Dilma Pena, garantiu o abastecimento de água sem a necessidade de adotar racionamento generalizado. Após esse prazo, a companhia espera que a próxima temporada de chuvas, que normalmente começa em outubro, volte a encher os reservatórios. Mas, para o comitê anticrise, esse cenário ainda é incerto e, por isso, o grupo quer a garantia de uma "reserva estratégica".

Segundo dados apresentados pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB), o "volume morto" tem cerca de 400 bilhões de litros. Desta forma, restariam nas represas cerca de 200 bilhões de litros para possível uso em caso de nova seca. A quantidade é suficiente para abastecer a Grande São Paulo por aproximadamente quatro meses.

Segundo o comitê anticrise, a vazão média afluente aos reservatórios do Cantareira entre outubro de 2013 e março deste ano foi de apenas 16,4 mil litros por segundo. Na pior crise registrada até então, entre 1952 e 1953, a vazão média foi de 26,3 mil litros por segundo, ou seja, 60% maior.

Em abril, por exemplo, mesmo após a Sabesp ter reduzido a captação do Cantareira em 6 mil litros por segundo, a retirada média do manancial foi de 23,9 mil litros - 9,1 mil litros a mais do que o volume de água que entrou no período. O déficit, segundo o comitê, representa uma redução de 23,6 bilhões de litros do sistema.

Além de reduzir o limite de captação de água pela Sabesp em 10% anteontem, a ANA e o DAEE devem começar neste mês uma série de encontros com agricultores, indústrias e empresas municipais de saneamento da região de Campinas para avaliar conjuntamente a situação de estiagem local, seu impacto sobre as vazões dos rios e as medidas mitigadoras a serem adotadas.

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