Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Comércios têm prejuízo de até 90% com fechamento de parques por febre amarela

Dona de restaurante chegou a dispensar cozinheira; situação preocupa principalmente na região do Horto Florestal, fechado há mais de um mês em São Paulo

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2017 | 11h15

SÃO PAULO - Há quem chame os parques de São Paulo de "praias de paulistano". Entre comerciantes do entorno de áreas verdes da cidade, a comparação faz sentido, especialmente nos períodos de maior movimento: dias ensolarados, fins de semana, feriados e, principalmente, férias escolares. 

No entorno do Horto Florestal, por exemplo, a chegada de dezembro costumava ser recebida com expectativa. Agora, contudo, ela é vista com apreensão entre os comerciantes, que calculam uma queda que chega a 90% das vendas após o local ser fechado há 33 dias, junto com o Parque da Cantareira, como forma de contenção da febre amarela. 

Para driblar o prejuízo, Roseli Gavioli, de 52 anos, deslocou um dos dois funcionários para comercializar coco em um automóvel por bairros do Horto. Logo após o fechamento, ela teve de devolver 2 mil frutos ao fornecedor, pois a venda do produto caiu de 300 unidades diárias para uma média de 30. 

"É a primeira vez em 20 anos que acontece algo assim com a gente. No inverno, sempre diminui, mas entra pelo menos um pouco de dinheiro", diz ela. "Tenho conta de luz, água e 13º para pagar. A minha sorte é que aqui (o ponto) é meu e não pago aluguel", aponta.

Além deles, a Prefeitura e o Estado de São Paulo fecharam os portões e emitiram alertas de "não recomendação de uso" para outros 13 parques da região norte, além do Parque Ecológico do Tietê, na zona leste. Há 10 dias, o Estado visitou metade deles, dos quais, em seis deles, comerciantes reclamam de queda brusca nas vendas, que giram entre 40 e 90%.

Dona de um restaurante, Mari Torlesi, de 50 anos, teve de dispensar uma cozinheira depois do fechamento do Horto. "Já tinha passado a crise. Quando estava começando a melhorar, veio isso. A maioria não vai conseguir segurar até janeiro", diz. "Quando vende um ou dois, a gente tem de ficar feliz. A gente não compra mais nada, não tem o que abastecer, não tem o que fazer. Parece que a gente está abandonado aqui", lamenta.

Também no entorno do Horto, Rosa Souza de Oliveira, de 46 anos, tinha servido quatro almoços até as 13 horas do dia 13 de novembro, abaixo da média do dia, que é de 30. "No fim de semana, chegava a ter fila", comenta a dona do restaurante.

Vendedor de picolé na frente do Parque Lions Tucuruvi, no Tucuruvi, Carlos Alberto Souza, de 57 anos, relata que a média de vendas no fim de semana caiu de 320 para 100 peças. "Ficava cheio (o parque). Até brincava que morador não gastava com buffet nem salão de festas, porque os aniversários eram feitos no parque", comenta.

Já no Parque São Domingos, no bairro São Domingos, o vendedor de sucos e caldo de cana Roberto Santana, de 50 anos, calcula prejuízo de 80%. "O único lazer que o pobre tem é o parque. Agora, que está fechado, vai ficar todo mundo em casa", compara.

Já o vendedor de coco Valdemar Leite da Silva, de 63 anos, comenta que no fim de semana costumava não ter espaço nem para estacionar bicicleta no Parque Rodrigo Gásperi, na Vila Zati. "O pessoal chegava de carro (nos domingos), via que estava fechado e ia embora. Não faz sentido nenhum fechar o parque. Nós estamos aqui do ladinho. Se tiver mosquito, ele vai vir até aqui."

Poder público. Por meio de nota, a Secretaria Estadual do Meio Ambiente afirmou utilizar "critérios técnicos" para decidir sobre o fechamento dos parques. Já a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente informou que a decisão de fechamento foi "preventiva e de modo emergencial, considerando a saúde das pessoas". "A decisão de reabertura dos parques se dará assim que o levantamento de primatas, feito pelos técnicos desta secretaria, for finalizado. A população será comunicada", informou por meio de nota.

"A comunicação com os moradores do entorno é feita com a ajuda dos administradores dos parques, comunicado em frente aos portões, redes sociais e inclusive a imprensa. O motivo principal de fechamento destas áreas é que se trata de um corredor ecológico, onde pode haver circulação do vírus da doença", acrescentou.

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