Nilton Fukuda/AE
Nilton Fukuda/AE

Comerciantes tradicionais perdem espaço e 25 de Março vira ‘Chinatown’

Mais lucrativo para donos de imóveis, modelo de loja dividida em boxes tem expulsado brasileiros e descendentes de libaneses e armênios

Artur Rodrigues - O Estado de S. Paulo,

11 de agosto de 2012 | 19h56

SÃO PAULO - Abdo Schahin, Afonso Kherlakian, Assad Abdala... Os nomes das ruas nos arredores da 25 de Março são de origem árabe, mas estão cada vez mais com jeito de ‘Chinatown’. Depois do português, o mandarim e o cantonês são as línguas mais faladas. Galerias lotadas de comerciantes chineses não param de tomar o lugar dos tradicionais armarinhos de libaneses, armênios e turcos.

Descendente de armênios, Fernando Parsequian, de 49 anos, teve de deixar o imóvel onde sua loja, o Depósito Gregório, funcionou por 21 anos. No lugar, o dono do local abriu a Galeria Chinesa, onde dezenas de boxes alugados por no mínimo R$ 3.500 cada garantem, juntos, muito mais do que os R$ 50 mil que Parsequian chegou a pagar. "Minha família trabalhava na região havia mais de 50 anos, mas eu fui expulso pela especulação imobiliária", reclama o comerciante, que mudou para a zona norte.

A estimativa de comerciantes da região é de que mais de dez lojas tradicionais já fecharam as portas nos últimos dois anos para dar lugar a galerias. "O último reajuste do aluguel era de 40%, ficou impossível pagar. Chineses pagam mais e vira ‘shoppinho’", diz o comerciante Edson Donizetti, de 46 anos, que transferiu seu Palácio das Bonecas para a zona leste.

Mudança. Dentro das galerias, os chineses predominam. Na Galeria Chinesa, o gerente do local, Diego Catan, de 30 anos, diz que a convivência é harmoniosa, apesar da dificuldade de comunicação. "Eles são os mais sossegados", garante.

A conversa com brasileiros, porém, dificilmente avança além do preço e da suposta qualidade dos produtos. Mesmo os que sabem bem o português, esquivam-se das perguntas. "Falo só um pouquinho. Pergunta para outro", disse um comerciante, ao ser abordado pela reportagem.

Pelos postes e nas paredes das galerias da região de comércio popular mais movimentada do País, já é comum ver anúncios em mandarim. Restaurantes, cabeleireiros e escolas voltadas apenas à comunidade chinesa também têm se multiplicado, assim como os prédios em que praticamente todos os moradores são orientais.

"Até pela dificuldade de comunicação, que dificulta o transporte, os chineses têm essa característica de morar perto do trabalho", diz Cheung Ka Wai, de 30 anos, explicando a concentração de conterrâneos na região.

No Brasil desde criança, ele é um dos diretores da associação de jovens chineses JCI Brasil China, que organiza o Ano-Novo Chinês de São Paulo. E acredita que, se houvesse uma Chinatown na cidade, seria mesmo na área da 25. "A comunidade chegou a pensar sobre isso, mas são necessárias várias autorizações para construir arcos, por exemplo, como os que existem nas Chinatowns pelo mundo."

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