Comerciantes se protegem e moradores se trancam em casa

Relatos de invasões a estabelecimentos são rotina. Rapaz sangrando entrou em produtora de Fernando Meirelles

Rodrigo Brancatelli, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2010 | 00h00

Roberto Suzuki, geólogo de 68 anos, dono de uma fala mansa e gestos igualmente lentos, começa a apontar portões de ferro, grades, cercas elétricas e cadeados pesados, um aparato de segurança digno de um banco ou uma joalheria.

Mas ele é dono, na verdade, de uma floricultura - os bens mais valiosos em sua loja na Vila Leopoldina são lírios, rosas e orquídeas. "Tive de instalar tudo isso depois que os usuários de crack começaram a invadir aqui, atrás de coisas para revender", diz ele, calmamente. "Roubaram até a maquininha do cartão de crédito."

No entorno da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) não é exagero afirmar que há mais medo da degradação da região do que euforia com os novos empreendimentos imobiliários do bairro. São poucos ali que não têm histórias que envolvam assaltos, furtos e ameaças. No dia 22 de julho, por exemplo, funcionários da produtora O2 Filmes, do cineasta Fernando Meirelles, foram surpreendidos por um jovem que invadiu o local sangrando muito na cabeça. Ele estava sendo perseguido e havia sido agredido por outros moradores de rua, que ficaram do lado de fora esperando sua saída. A Polícia Militar e os bombeiros foram chamados para socorrer o rapaz.

O incidente mostra a rotina de apreensão que tem marcado aqueles quarteirões. "Achei que ia ter tranquilidade aqui, mas depois das 18 horas não dá para andar na rua", diz Viviane Vieira dos Santos, de 29 anos, há cinco meses morando no local. "Eu não deixo nem meus filhos andarem de bicicleta por aí, só no quintal. Vira e mexe passa um mendigo fumando crack aqui na frente de casa."

O consumo da droga nas ruas da Vila Leopoldina tem freado o desenvolvimento do bairro. A dona do restaurante Mainichi, Adriana Torigoe, que fica a um quarteirão de distância de onde está o principal ponto de tráfico de drogas da região, até já desistiu de servir jantar ou mesmo fazer happy hour em seu estabelecimento. "Não dá nem para pensar em fazer isso, não tem segurança", diz. "Já invadiram aqui quatro vezes, para roubar cigarro, bebida, uísque... Colocamos alarme e monitoramento eletrônico, mas não dá para ter clientes aqui à noite", lamenta a comerciante.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.