Comerciante é roubada em delegacia

Criminoso entrou no DP e arrancou a bolsa aos trancos; seccional diz que policiais imaginavam se tratar de briga de marido e mulher

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2010 | 00h00

Uma comerciante de 52 anos foi atacada por ladrões e teve a bolsa roubada dentro da delegacia e na frente da polícia, em Salto, a 98 km de São Paulo, na quinta-feira. Ela tinha acabado de sacar R$ 13,5 mil numa agência bancária e entrou no 1.º DP para registrar queixa de um celular clonado. Um homem entrou na repartição, arrancou a bolsa da mulher, que resistiu, e fugiu sem que ninguém fizesse nada. Um comparsa dava cobertura.

"Eu me senti a idiota. Se dentro da delegacia não tive segurança, vou ter onde?", indagava ontem. Ela foi abordada quando conversava com a atendente e descreveu o ladrão como um rapaz alto e forte. "Ele disse que queria a bolsa, mas eu falei que não dava. Ele agarrou e começou a puxar para um lado, e eu puxava para o outro."

Na bolsa estava o dinheiro que ela havia sacado uma hora antes. Com medo de represálias, ela só falou sob a condição de não ser identificada. A mulher contou que conseguiu arrancar a bolsa do ladrão e jogar por cima do balcão. "Ele foi atrás, pegou e, na saída, agarrei a bolsa de novo e pedi ajuda, mas ninguém fez nada. Foi aí que ele gritou para o comparsa: atira nela! Então larguei a bolsa." O bandido saiu pela porta da frente. A bolsa foi jogada nas imediações, sem o dinheiro. De acordo com a comerciante, vários policiais estavam no local. "Eles ficaram só olhando. Depois o escrivão veio dizer que achou que o cara era meu marido e se tratava de briga."

Retrato falado. Os trancos que levou do ladrão na tentativa de arrancar a bolsa causaram um hematoma e uma forte distensão muscular no braço direito. Ela foi medicada no mesmo dia. Ontem, achava difícil recuperar o prejuízo. "Vou reclamar para quem? Para o bispo?" A Corregedoria da Polícia Civil abriu inquérito para apurar o caso. O delegado seccional de Sorocaba, André Moron, disse que a conduta dos policiais que estavam no local - uma atendente, um carcereiro e um escrivão - será investigada. De acordo com Moron, o escrivão estava numa sala contígua à recepção quando ouviu o tumulto. "Ele saiu, mas demorou para entender o que se passava e pensou realmente que era briga de marido e mulher. A situação era tão absurda que os outros policiais ficaram sem ação."

O delegado acredita que nem os bandidos sabiam que ali era uma repartição policial - o prédio não tem identificação externa nem conta com câmeras de vigilância. "Onde apareceu a oportunidade, eles atacaram." Um agente da capital foi a Salto apenas para fazer o retrato falado do criminoso e a polícia da cidade estava empenhada ontem em prendê-lo. "É questão de honra. Não vamos deixar sem resposta", disse Moron.

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