Comandantes devem ter mais autoridade, diz pai de co-piloto

Ex-piloto, de 84 anos, critica falta de autonomia para decidir sobre segurança e diz que culpa é das empresas

André Mascarenhas, estadao.com.br

07 de agosto de 2007 | 17h06

O ex-comandante Raphael di Sacco, pai do co-piloto do Airbus A320 que explodiu em São Paulo no último dia 17, costuma dizer que perdeu "seis ou sete empregos por dizer não". Aos 82 anos e poucas semanas após perder o filho Henrique Stephanini di Sacco no acidente que chocou o País, ele usa o exemplo para chamar a atenção para o crescente enfraquecimento da autoridade dos comandantes, que cada vez mais vêem diminuída sua autonomia para decidir sobre as condições de segurança do vôo. "É hora de devolver aos comandantes da aeronave a prerrogativa de serem, de fato, totalmente comandantes", disse ele nesta terça-feira, 7, durante uma reunião da comissão parlamentar que averigua problemas relacionados ao aeroporto de Congonhas, na Câmara dos Vereadores.  O encontro contou com a presença de representantes das empresas aéreas TAM e BRA. Di Sacco sugere a criação de um órgão de segurança e fiscalização independente, formado por aeronautas, técnicos da aviação e aeroviários. O principal objetivo, segundo ele, seria criar condições para que os pilotos e co-pilotos possam "tomar as decisões que julgarem corretas sem a necessidade de se preocuparem com o fato de sua decisão agradar ou não as empresas". Embora legalmente os comandantes tenham essa prerrogativa, Di Sacco afirma que os que se recusam a operar em condições que considerem perigosas acabam sendo vítimas de represálias por parte das empresas. "Eu conheço isso porque seis ou sete empregos eu perdi porque disse não." Presente na reunião, o vice-presidente de planejamento da TAM, Paulo Castelo Branco, respondeu às críticas negando que haja pressão da companhia sobre os pilotos para não falarem sobre eventuais problemas. Ele também afirmou que a empresa tem certificados de qualidade reconhecidos internacionalmente. Grooving O ex-comandante Di Sacco também criticou o fato de a pista ter sido aberta sem a aplicação das ranhuras de escoamento, o chamado "grooving". Para ele, essa seria uma das principais causas do acidente. "Estão desfocalizando a questão. Até agora ninguém falou sobre as condições da pista. Este é o ponto do acidente", disse ele, que lembrou que a pista havia sido fechada para reformas justamente para tornar-se menos escorregadia - e foi aberta sem a aplicação do grooving.  "A pista foi reaberta para operação nestas condições. Com a pista lisa e com a chuva, a situação ficou pior do que era anteriormente. Pergunto: quem era o encarregado de determinar a abertura da pista? Ninguém até agora falou. Qual é o órgão?" Para Di Sacco, a explicação para a omissão sobre o assunto está no fato de que todos os órgãos do sistema aéreo brasileiro estão de alguma forma ligados à Força Aérea Brasileira (FAB). "Não tenho intenção alguma de revanchismo, mas quero mostrar à nação o quanto está errado esse conjunto de órgãos que se interligam numa mesma 'panela'", disse ele, referindo-se à a presença de ex-membros da aeronáutica nos principais órgãos e agências da aviação brasileira. Como exemplo, ele citou ainda a prisão de controladores de vôo que concederam entrevistas à imprensa. "Há elementos que, por se manifestarem contrários aos critérios de segurança do comando da aeronáutica, encontram-se presos. Presos porque quiseram dizer que aquilo não era bom. Onde é que nós estamos? É um sigilo de guerra? Ou é um sigilo de corrupção?", disse, enfático. Aéreas na parede Assim como Di Sacco, outras pessoas que participaram da reunião - representantes da sociedade civil, vereadores e um membro do sindicato dos aeronautas - cobraram mais empenho das empresas aéreas no cuidado com a segurança dos passageiros. Para a advogada Sandra Assali, da Associação Brasileira de Parentes e Amigos das Vítimas de Acidentes Aéreos, as empresas deveriam pagar US$ 350 mil de seguro às famílias de vítimas de acidentes, e não os US$ 17 mil pagos atualmente. "Assim esses acidentes não voltariam a acontecer, porque aí a conta ia ficar cara", disse ela. Ao final da reunião, Di Sacco deu uma breve entrevista, na qual explicou o que esperava de sua ida à Câmara dos Vereadores. "Meu filho eu não tenho como ter de volta. Mas há ainda um monte de amigos dele e uma sociedade que precisa que a verdade seja dita." 7 mandamentos Questionado sobre o primeiro dos 7 mandamentos da TAM - "Nada substitui o lucro" - o vice-presidente Castelo Branco disse que não há ordem nos mandamentos. "Quando o comandante Rolim os fez, pensou de maneira global. Não significa que o lucro seja mais importante que a segurança ou os clientes", afirmou. Ao final da reunião, o presidente da comissão da Câmara dos Vereadores, o vereador José Rogério Farhat (PTB), pediu que a empresa revisse essa ordem.  (Colaborou Camilla Riggi)

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