Tiago Queiroz/AE-28/4/2011
Tiago Queiroz/AE-28/4/2011

Com site, livro e na TV, luta livre agora é cult

Com fãs nas novas gerações, lutadores fazem sucesso na Virada Cultural, recebem convites para shows e hoje se apresentam na feira Anime Friends

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 Julho 2011 | 00h00

O corpinho pesado de ex-galã, 1,75m, 93kg, não impede a decolagem no ringue do lutador Nino Mercury, o Italianíssimo. Macacão collant cavado no peito cabeludo, ele ajeita o penteado de mullets louro-farmácia, toma impulso, salta na horizontal e buf! acerta o peito do adversário com a sola das botinhas brancas. Apesar do ruidoso impacto, Hardcore Vini, de 28 anos, sai ileso. "Na luta livre ninguém fica ferido, é tudo show", garante Bob Jr., de 40 anos, criador da Brazilian Wrestling Federation (BWF) e empresário de mais de 60 lutadores.

Neste fim de semana, Bob e sua equipe participam da feira Anime Friends, que atrai cerca de 200 mil loucos por quadrinhos japoneses no Mart Center, na Vila Guilherme, zona norte. Em maio, eles reuniram 2 mil pessoas em uma apresentação na Favela de Heliópolis, na zona sul.

Dissidente do lendário Gigantes do Ringue (GDR), Bob foi o mentor nos anos 1990 do Campeões do Ringue, chegou a ter quadro no Programa do Ratinho, transformou a luta livre em arte marcial cult, fundou a BWF e criou um site acessado por mais de 1 milhão de fãs (www.bwf.com.br).

"Partimos de "storylines" (tipo de quadrinhos) para ilustrar nossas lutas. Os enredos são cheios de traições e vinganças", conta Bob. Bia, namorada-lutadora do personagem Mano John (os dois são noivos na vida real), envolveu-se em uma intriga de ciúme e paixão em uma das histórias mais assistidas do grupo. Os episódios vão ao ar aos sábados, no canal 9 da Net.

No ringue, Bino Rock aplica em Ninja um golpe chamado "roda gigante", que dispensa didatismos. Bino veste uma espécie de legging vermelho e, sobre o dorso nu, um casaco de paetês fúcsia. O figurino coloridão faz parte do espetáculo. Ninja usa uma máscara e reage ao agressor com sua especialidade, o "voo do dragão", acertando o peito do outro com um golpe de caratê. El Gringo é o mais bruto. Quando se aborrece, desce do palco, pega uma das cadeiras de ferro da plateia e a arremessa no inimigo.

É difícil acreditar que aqueles bofetões são de brincadeirinha. A plateia mais vibra do que ri. Pendurada nas cordas do ringue, a primeira fila grita "huhuuuu", extasiada. "A graça é torcer mesmo", diz o operador de cobrança André Vitor, de 20 anos, internauta viciado nos shows.

O gerente de vendas Cláudio Figueiredo, de 32, e sua namorada, a vendedora Vivian Pantoja, de 28, falam do assunto como se fossem contemporâneos de Ted Boy Marino, astro do programa mais famoso de todos os tempos sobre a luta livre, o Telecatch, exibido nos anos 1960 pela TV Excelsior. Em sua época, o loirão e parrudo Ted era tão célebre quanto Roberto Carlos ou Pelé.

Passado de luta. Cláudio e Vivian estavam entre os 6 mil expectadores das sessões de luta apresentadas durante a Virada Cultural, em abril. Os dois explicam que os mocinhos são chamados de volantes, porque giram nas mãos dos adversários, e os bandidos, de base. Historicamente, o árbitro costumava defender o bandido, para incitar a plateia. Hoje o que vale é a audiência, como em novela. "Os seguidores das nossas histórias é que mandam nelas", diz Bob.

Claro, tudo é de mentirinha, mas, na hora de dizer o currículo, bases e volantes confirmam orgulhosamente seu passado de luta. El Gringo, de 41, veio do judô; Red Calibre, de 26, praticou durante 14 anos full contact; Kid Abelha, de 44, é capoeirista.

Sobre as brigas que eventualmente eles se envolveram na vida real, os lutadores preferem evitar o assunto - mas não muito. Ao contar suas histórias, todas muito incríveis, sublinham que isso é coisa do passado. "Quando você é grande, ouve mais provocações", justifica Bob, ele mesmo oriundo do jiu-jítsu. Pirata, de 26, mostra uma cicatriz no nariz e diz que não foi campeão, mas ganhou 5 pontos. Nino, de 63, ex-boxeador, conta que já levou muita corrida em apresentações pelo interior. "A gente provocava os caras e eles vinham atrás."

História. Bob finaliza o livro Mocinhos e Bandidos - Os Heróis da Luta Livre, de 1.200 páginas, onde conta a história da modalidade. Segundo ele, os primeiros registros foram em 1928, nos Estados Unidos, onde lutadores que se esmurravam por conta própria nos subúrbios resolveram transformar o embate em show - e cobrar. Hoje há cerca de 300 equipes de luta livre naquele país, incluindo a que atua no mais antigo programa de televisão semanal do país, o WWE Monday Night RAW, com quase 5 milhões de espectadores. No México, ela também é muito popular, mas em versão mais dramática. Aqui, ao que parece, a luta livre se prepara para um novo e - pelo empenho dos nossos heróis - espetacular golpe.

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