Com salário de R$ 23 mil, garagista da Câmara está há 6 anos fora da garagem

Símbolo da discrepância de remunerações na Casa, Alexandre Pereira é, na verdade, assessor parlamentar do vereador Juscelino Gadelha

DIEGO ZANCHETTA, RODRIGO BURGARELLI, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h01

Um garagista da Câmara Municipal não trabalha na garagem há pelo menos seis anos. Alexandre Camargo Pereira, de 37 anos, é, na verdade, assessor parlamentar do vereador Juscelino Gadelha (PSB). Segundo o site da Casa, seu salário bruto é de R$ 23.206,96 - mais que o dobro do que ganha o presidente José Police Neto (R$ 9,3 mil). E pior: seu salário deveria ser de R$ 7 mil - e ninguém sabe explicar por que ganhou mais do que o triplo disso nos últimos meses.

A discrepância das remunerações na Casa virou tema até da revista inglesa The Economist, que apelidou servidores paulistanos de "gatos gordos". O salário dos garagistas, maior também que o dos 55 vereadores, de R$ 7,2 mil mensais, ainda chamou a atenção do prefeito Gilberto Kassab (PSD). Um dia após a divulgação dos salários do Legislativo - a Câmara de São Paulo foi o primeiro órgão desse poder a abrir os vencimentos dos seus funcionários -, o prefeito brincou e disse que gostaria de ser garagista da Casa.

Pereira nunca prestou concurso para trabalhar no Legislativo. Foi nomeado assessor parlamentar de Gadelha, que vai trabalhar com carro próprio e não usa motorista da Casa, em janeiro de 2005. Filho de Joaquim Nabuco Pereira, que recebeu em maio R$ 17 mil brutos para coordenar os motoristas, ele hoje é um "faz-tudo" no gabinete de Gadelha. Ajuda tanto a descarregar caixas que chegam ao gabinete quanto a elaborar ofícios. "Quem trabalha na garagem é meu pai, o supervisor dos motoristas. Já fui motorista do Zé Eduardo (José Eduardo Martins Cardoso, atual ministro da Justiça, vereador até 2003), já fiz esse trabalho, mas agora estou no gabinete do Juscelino", confirmou ao Estado.

Segundo o vereador, Pereira foi colocado "em função errada" e teria recebido R$ 23 mil - em vez de R$ 7 mil - por "dois ou três meses". Gadelha diz ainda que o valor recebido a mais será devolvido aos cofres públicos, mesmo que ele tenha de tirar a diferença "do próprio bolso".

Ontem, o holerite de Pereira, publicado no site da Câmara, ainda mostrava os vencimentos de maio (R$ 23.206,96). Questionado, ele afirmou que a reportagem deveria pedir mais explicações ao chefe de gabinete de Gadelha, Edson Dominguez. "O que sei é que foi um erro do vereador. Ele não trabalha na garagem", admitiu Dominguez. A presidência da Casa informou que "no próximo mês haverá a atualização de dados, com o novo salário".

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