Celio Messias/Estadão
Celio Messias/Estadão

Com piora da covid, cidades de SP vetam aluguel de sítio, param venda de bebida e têm até lockdown

Prefeituras se inspiram em Araraquara para adotar novas restrições e mais de 30 municípios adotam medidas mais rígidas do que o Estado de São Paulo; ocupação de UTIs paulistas está acima de 90%

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2021 | 10h00

Além de seguirem as determinações da “fase emergencial” impostas pela gestão João Doria (PSDB), municípios de São Paulo têm adotado medidas adicionais para tentar reduzir o agravamento rápido da pandemia da covid-19. As restrições incluem veto a aluguel de chácaras, suspensão da venda de bebida alcoólica e a proibição de grupos de mais de três pessoas. Em alguns casos, gestores recorrem até ao lockdown.

Segundo o secretário estadual de Desenvolvimento Regional, Marco Vinholi, cerca de 30 prefeituras decidiram adotar restrições mais rígidas do que o Estado. "Quando aquela localidade verifica a intensidade da pandemia e a necessidade de agir para poder intensificar essas ações. E estamos apoiando essas maiores restrições”, afirmou, em coletiva de imprensa, nesta quarta-feira, 17.

A lista inclui São José do Rio Preto, Orindiúva, Bady Bassitt, Guapiaçu, Monte Aprazível, Cedral, Ibirá, Tanabi, Nova Granada, Palestina, Onda Verde, Ribeirão Preto, Altinópolis, Barrinha, Brodowski, Jaboticabal, Orlândia, Batatais, Sertãozinho, Campinas, Santos, Pauliceia, Araraquara, Pirassununga, Boracéia, Lins, Itapeva, Buri e Capão Bonito. Há, ainda, outros municípios como Itararé, Tupã e Araçatuba, dentre outros, que não foram incluídos.

Para essas prefeituras, um dos principais exemplos são os resultados positivos obtidos por Araraquara, que reduziu em 53% a média móvel de novos casos em pouco menos de um mês após instituir lockdown. “A gente viu o que aconteceu lá, que teve redução considerável. A gente espera colher daqui uns dias uma redução no número de óbitos", comenta José Henrique Frascá Junior, secretário de Negócios Jurídicos de Monte Alto.

O município adotou medidas mais restritivas nesta quarta em conjunto com Ribeirão Preto e outros vizinhos, como Altinópolis, Barrinha, Batatais, Brodowski, Jaboticabal, Monte Alto, Orlândia, Rifaina, Santa Cruz da Esperança, São Simão e Sertãozinho.  “As medidas regionais ajudam a conter o fluxo de pessoas. Às vezes, a pessoa pensa: ‘não posso aqui, mas vou em outra cidade.’ A ação conjunta faz mais sentido.”

Em Monte Alto, a ocupação de leitos de terapia intensiva é superior a 100%, enquanto é de 93,8% em Ribeirão. “Nossa região aqui está com problema de superlotação das UTIs. A gente chegou a ter pacientes na fila de espera”, diz o secretário. Com recorde na média móvel de mortes pelo vírus, 67 cidades paulistas já não têm mais vagas de UTI, recurso não disponível em grande parte dos municípios paulistas.

Entre as novas restrições, válidas até domingo, 21, estão a suspensão de atividades comerciais, bancárias e industriais, o transporte coletivo de passageiros e grande parte dos serviços públicos. Já supermercados, açougues, padarias, comércios de insumos médicos e assemelhados podem funcionar apenas por delivery.

Em Tupã, a venda de bebidas foi suspensa nos próximos dois fins de semana, assim como o funcionamento da maioria dos estabelecimentos comerciais considerados essenciais, exceto postos de combustíveis e farmácias. A 75 quilômetros de Marília, com 65 mil habitantes e 100% de ocupação na UTI, o município também vetou a presença de menores de 12 anos em espaços comerciais e de serviços. 

“Quando a UTI atinge 100%, a gente precisa ter realmente algumas medidas mais restritivas, mas que funcionem. A gente vê que, nos finais de semana, o povo não tem respeitado”, explica o prefeito, Caio Aoqui (PSD). “As pessoas estão comprando bebidas e se reunindo em chácaras, casas de amigos. Os mais jovens não se planejam, compram na hora. Agora, só vai ter bebida no supermercado até sexta-feira, às 20 horas, e, depois, vai poder comprar só depois das 5 horas de segunda.”

Já em Araçatuba, que está com mais de 100% de ocupação em UTI, foi instituído o fechamento de praças e ocupação mais restritiva para os estabelecimentos essenciais, que podem receber um cliente a cada 20 metros quadrados de área interna. Outra determinação é que supermercados, mercados, mercearias, açougues, quitandas e afins encerrem o atendimento presencial até as 20 horas, restringindo o restante da noite e da madrugada ao serviço de entrega. 

“Sei o quanto é difícil tirar a oportunidade de trabalho das pessoas, mas não podemos ignorar que só temos uma vida”, justificou o prefeito, Dilador Borges (PSDB). Ele também determinou que um estabelecimento só poderá ser considerado essencial se ao menos 70% da área de venda tenha produtos dessa categoria, como alimentos, artigos de higiene pessoal e assemelhados. “Percebemos que várias empresas vinham tentando driblar a fiscalização, trocando Cnae (classificação Nacional de Atividades Econômicas), colocando alguns itens de primeira necessidade.”

Além disso, o prefeito conta ter firmado parceria com a Polícia Militar para fazer uma força-tarefa em condomínios fechados ao longo do Rio Tietê. “Têm acontecido muitas festas nesses locais. Então, no sábado e no domingo, o Águia (helicóptero) vai sobrevoar (para identificar aglomerações) e vamos estar com uma equipe debaixo, com vigilância, guarda municipal, polícia”, explicou. “A luta continua. A gente está muito apreensivo com tudo isso que está acontecendo.”

Outra medida tomada por prefeituras foi a proibição do aluguel de imóveis a terceiros. Em Socorro, município com 100% de ocupação dos leitos, por exemplo, ele está vetado para chácaras, sítios e assemelhados para a realização de eventos com aglomeração. Medida semelhante foi determinada em Ibitinga, que está com ocupação superior a 100%, em que está suspensa a permissão para locação de áreas de lazer e ranchos.

Fechar praça e vetar reuniões de mais de 3 pessoas também são estratégias

Em Franco da Rocha, na Grande São Paulo, uma praça que teve registros de aglomerações foi fechada. Além disso, os estabelecimentos comerciais essenciais, exceto postos de combustíveis e farmácia, deverão permanecer fechados entre as 20 e as 5 horas. 

O fechamento de acesso a praças também foi determinado em Itararé, na divisa com o Paraná. Com 50 mil habitantes e com fila de espera por leitos de UTI, o município classificou, ainda, como aglomeração qualquer agrupamento de mais de três pessoas, proibindo que ocorra tanto nas vias públicas quanto em locais privados. A venda de bebidas alcoólicas após as 17 horas está suspensa, inclusive por delivery.

  Na avaliação do secretário municipal de Saúde, Marcus Vinicius Gonçalves, as medidas estão sendo efetivas, tanto que Itararé chegou ao 4º lugar no ranking de maior distanciamento social do Estado, com 58% (a média geral é 44%). Por lá, um decreto veta até mesmo celebrações familiares. “Às vezes, as pessoas acham que é inofensivo ter reuniões com 6, 7 pessoas. Mas, neste momento, é bastante negativo”, destaca.

 

No ABC Paulista, desde o fim de fevereiro, as prefeituras adotaram medidas mais restritivas no período entre 22 horas e as 4 horas por meio de um toque de recolher. Dentre elas, está a suspensão do transporte coletivo.

São Paulo enfrenta crescimento de casos, óbitos e internações. Nesta quarta-feira, 17, o Estado bateu novamente o recorde de hospitalizações em um dia, com 3.175, enquanto o pico do ano passado foi de 2.201. A média de ocupação na UTI é de 90,3%, taxa que chega a 90,7% na Grande São Paulo. Em leitos de enfermaria, ela é de 78,1% e 84,6%, respectivamente.

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