Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com pandemia, Metrô de SP tem prejuízo de R$ 1,7 bilhão, corta trens e aumenta tempo de espera

Relatório anual com balanço da empresa alerta que desequilíbrio pode afetar calendário de obras

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 15h00

Correções: 13/04/2021 | 21h19

O Metrô de São Paulo registrou um tombo histórico em suas receitas no ano de 2020, terminando o ano com um prejuízo inédito de R$ 1,7 bilhão. O resultado é decorrente da queda do número de passageiros no sistema por causa da pandemia do coronavírus. Na crise, a empresa retirou trens de circulação e aumentou o tempo de espera nas plataformas no momento em que os passageiros precisaram estar mais distantes uns dos outros.  

A retirada de trens ocorreu tanto nos intervalos entre os horários de rush quanto nas horas de pico. Os dados são do Relatório Integrado Anual Metrô, que a empresa tem de publicar em seu Portal da Transparência. Ao longo de 2020, em mais de uma ocasião, o secretário dos Transportes Metropolitanos, Alexandre Baldy, afirmou que a empresa operava com “100% da frota disponível” ante as queixas de lotação.

O relatório, entretanto, mostra que a diminuição do uso da frota foi generalizada. No pico, a Linha 2-Verde, que opera na Avenida Paulista, rodou com oito trens a menos do que o comum (redução de 27 para 19 trens em circulação). Na Linha 3-Vermelha, a mais lotada da cidade, o governo retirou apenas três composições da linha nos picos, mas cortou o serviço de oito trens no intervalo entre os horários de rush. 

Ao todo, nas Linhas 1-Azul e 3-Vermelha, houve uma redução de cerca de 17% no total de partidas diárias de trens (de cerca de mil por dia para cerca de 850) na comparação entre 2020 e 2019. Na Linha 2-Verde, a diminuição foi de 29% (de 833 para 627, em média). 

Riscos

O prejuízo recorde da empresa, segundo o Metrô, é decorrente da queda de passageiros - as pessoas que puderam ficar em casa na pandemia ou aquelas que passaram a circular pela cidade de carro. Houve uma redução de 21,% nas viagens de metrô em 2020 na comparação com 2019 (uma média diária de 2,6 milhões ante uma média diária anterior de 3,3 milhões).

Esse prejuízo já coloca em risco o equilíbrio financeiro da empresa, segundo o relatório, o que pode comprometer as operações da empresa. “Caso a situação de confinamento persista, o Metrô não vai conseguir recuperar a demanda em nível suficiente para restabelecer seu equilíbrio econômico-financeiro. As ações de redução de custos e as atividades de obtenção de receitas tarifárias não serão suficientes para suprir a falta da receita tarifária”, afirma o relatório. 

Os dirigentes do Metrô falam em cortes de investimentos e atrasos na execução de obras diante do cenário. No relatório, afirmam ainda que “atrasos na liberação dos recursos financeiros previstos podem afetar o desenvolvimento na execução das obras metroviárias dentro das curvas planejadas de cronograma”.

Da série de ações previstas para cortar custos, está o fechamento de 25 bilheterias em estações. Os investimentos programados para este ano ainda estão em análise. 

O Estadão questionou o Metrô e a Secretaria dos Transportes Metropolitanos sobre os impactos do prejuízo e quais medidas estão sendo adotadas para reverter o quadro, mas a nota enviada pelo governo não respondeu esses pontos. “No relatório integrado, os registros de despesas administrativas contemplam também a provisão de recursos para processos judiciais, que em 2020 foi da ordem de R$550 milhões”, disse a nota. 

O texto destaca que a empresa reduziu despesas ao longo do ano para gerenciar a crise. “O prejuízo geral da Companhia é decorrente da queda na arrecadação como consequência da pandemia, que afetou ao setor de transportes em todo o mundo. E mesmo assim, o Metrô manteve uma alta oferta do serviço, incluindo a intensificação da limpeza nos trens e estações”, afirma a nota. 

O coordenador do Sindicato dos Metroviários Altino de Melo Prazeres Júnior destaca o prejuízo se deve, em parte, ao fato de que o Metrô não recebe subsídios do Estado para sua operação. “A maioria dos metrôs do mundo têm subsídio, porque os governos entendem que o serviço é essencial”, afirma.

Os funcionários da empresa, afirma o representante da categoria, dizem que a redução dos trens é resultado tanto da falta de funcionários, uma vez que, parte da equipe está em casa por causa da crise do coronavírus e parte se infectou. “Já tivemos 22 mortes. Sem investimentos, o Metrô não faz concursos”, disse. Além disso, afirma ele, funcionários da manutenção relatam falta de insumos para a manutenção dos trens, o que faria com que a frota ficasse mais tempo parada. 

Linha 4

Paralelamente ao prejuízo recorde do Metrô por causa da pandemia, o governo do Estado decidiu assinar dois contratos aditivos com a empresa ViaQuatro, do Grupo CCR, que administra a Linha 4-Amarela, garantindo à companhia pagamento adicional de R$ 1,05 bilhão por causa dos atrasos para a conclusão das obras da linha. 

A decisão de assinar os contratos foi tomada em dezembro, em uma reunião unânime do Conselho Diretor do Programa Estadual de Desestatização, composto pelo vice-governador, Rodrigo Garcia, o secretário de Projetos, Orçamento e Gestão, Mauro Ricardo, a secretária Desenvolvimento Econômico, Patricia Ellen, o secretário de Infraestrutura, Marcos Penido, e o secretário de Relações Internacionais, Julio Serson, além de outros representantes. Na reunião, segundo ata publicada no Diário Oficial, Mauro Ricardo chegou a considerar que a assinatura dos aditivos estaria condicionada à disponibilidade orçamentária antes do voto favorável dos conselheiros.

Após a concordância dos conselheiros, o governo deu andamento ao processo de assinatura dos acordos - que só foi finalizado no último dia 23, quando a CCR divulgou um fato relevante ao mercado com detalhes do acordo.

Correções
13/04/2021 | 21h19

A primeira versão deste texto apresentou Altino de Melo Prazeres Júnior como presidente do Sindicato dos Metroviários. O órgão não tem direção colegiada e ele é, na verdade, um dos coordenadores.

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