Werther Santanana/Estadão e Prefeitura de Matão
Itanhaém e Matão são as cidades que registraram o maior e o menor índice de violência, respectivamente, no Estado de SP durante pandemia. Werther Santanana/Estadão e Prefeitura de Matão

Com pandemia e isolamento, crime violento cai em 71% das cidades de SP

Indicador elaborado pelo Instituto Sou da Paz que avalia a exposição à criminalidade teve queda de 11% no primeiro semestre ante o mesmo período de 2019, refletindo a redução de roubos e estupros, mas alta de homicídios

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 05h00

SÃO PAULO - Os crimes violentos caíram em 99 dos 139 municípios paulistas (71,2%) analisados pelo Índice de Exposição à Criminalidade Violenta (IECV). O índice, elaborado pelo Instituto Sou da Paz com base nos registros de roubos, estupros e homicídios em cidades com mais de 50 mil habitantes, teve redução de 11% no primeiro semestre deste ano, ante o mesmo período de 2019.

As medidas restritivas e o isolamento social adotados em razão da pandemia do novo coronavírus deixaram as ruas das cidades vazias em boa parte do primeiro semestre deste ano. Principalmente entre março e maio, quando o temor da infecção era mais latente, a circulação de pessoas sofreu uma brusca mudança. Com menos gente exposta, assaltos a pedestres, residências e comércios caíram, puxando a redução do IECV. Queda ainda mais expressiva se deu nas ocorrências de estupro.

O melhor indicador foi o de Matão, cidade de 83 mil habitantes a 307 quilômetros da capital paulista. O município chegou a essa posição após ser a cidade que mais conseguiu reduzir os registros da criminalidade no primeiro semestre (-70%). Nova Odessa, a 135 quilômetros da capital, obteve o terceiro melhor índice – também fruto de uma queda significativa das ocorrências nos seis primeiros meses do ano (-55%).

O IECV é calculado a partir da média ponderada de três subíndices de crimes: letais (homicídio e latrocínio), contra a dignidade sexual (estupro) e contra o patrimônio (roubo em geral, de veículo e de carga). O índice, ao agregar várias dimensões da violência e da segurança pública, permite avaliar diferentes tendências criminais.

A pandemia afetou o Estado de formas diferentes desde a confirmação do primeiro caso da doença no País, em 26 de fevereiro. A capital enfrentou os primeiros efeitos do avanço da covid-19, que foi se espalhando para o interior nos meses seguintes. Em 24 de março, entrou em vigor o decreto estadual, válido para os 645 municípios, prevendo o fechamento do comércio e o funcionamento apenas de serviços essenciais. No início de junho, o Estado começou a reabrir, mas duas regiões (Franca e Registro) permanecem na fase mais restritiva do plano do governo. 

Consulte o IECV de 139 cidades paulistas. Clique na cidade e veja o número. Quanto mais vermelho é a cor do município, pior é considerado o seu índice em comparação com as demais cidades do Estado

Em 40 cidades (28,7%) houve alta nos registros de crimes violentos, indicando que a melhora na segurança pública não se espalhou de maneira uniforme em diferentes regiões do Estado. No litoral e no Vale do Paraíba estão as cidades com os maiores indicadores de violência, com Itanhaém no topo da lista. Essas regiões têm ainda outras quatro cidades entre as dez piores (Monguagá, Ubatuba, Peruíbe e Praia Grande).

Assassinatos em alta

Na contramão da tendência de redução estadual, o indicador que contabiliza os assassinatos aumentou. O Estado somou 1.522 vítimas de homicídio nos seis primeiros meses do ano (média de oito casos por dia), o que representou a primeira alta semestral em sete anos. Em 55 cidades houve mais mortes violentas no primeiro semestre deste ano do que no primeiro semestre do ano passado.

A diretora executiva do Sou da Paz, Carolina Ricardo, diz que os dados surpreendem ao mostrar alta em quase 30% dos municípios analisados. “Chama atenção porque era um momento em que havia oportunidade para que o crime caísse”, explica. Mas ela acredita que para compreender o aumento nessas localidades é preciso considerar fatores anteriores à pandemia. “A pandemia muda algumas coisas, mas não tudo. Há muitas desigualdades no Estado e elas podem ter se mantido ao longo do primeiro semestre.”

Uma das hipóteses analisadas é a de que a pandemia afeta a economia como um todo, incluindo a economia do crime, que tem seus recursos reduzidos no período, levando a conflitos. “Um dos métodos de resolução de problemas no crime é a violência. Então, uma região que sofre com tráfico de drogas e criminalidade organizada vai ver a pandemia agravar esses fatores”, explica a especialista.

Os homicídios cresceram em todas as regiões, mas foi em cidades da Grande São Paulo que a alta foi mais intensa. A região composta por 38 municípios, sem contar a capital, viu a quantidade de assassinatos passar de 298 para 361 na comparação semestral entre 2019 e 2020. Na cidade de São Paulo, assim como no interior, os registros também aumentaram no período.

Um local que se destacou negativamente foi Birigui, cidade com 105 mil habitantes a 500 km de São Paulo. Os 13 homicídios registrados no primeiro semestre são mais do que o dobro dos crimes que aconteceram em todo o ano passado – cinco homicídios. Esse foi o município onde o IECV mais cresceu.

Uma das vítimas na cidade foi o peão de rodeio José Antônio Vieira de Andrade, de 55 anos. Ele foi morto a tiros na madrugada de 28 de junho, um dia depois de ter se mudado para uma casa nova. Um homem bateu na porta pedindo por ajuda e atirou quando Andrade apareceu. A vítima pode ter sido morta por engano no lugar do antigo morador da casa. A família pede a solução do caso, mas sem entender a motivação do crime ainda teme ser atacada novamente. 

O vereador de Birigui Fabiano Amadeu (Cidadania) disse ao Estadão que solicita reforço na estrutura policial da cidade desde o ano passado. “A insegurança só tem aumentado, não só em Birigui, mas por todo interior. Aquela história ‘o interior é mais tranquilo’ não convence mais”, afirmou. 

Além da polícia, a diretora do Sou da Paz destaca o papel que as prefeituras podem assumir na segurança pública. “Há uma rede de proteção e prevenção que não diz respeito à polícia, seja na área da saúde, da educação, da assistência social. A prefeitura pode criar mecanismos de redução de oportunidade para o crime com uma boa guarda, que não seja o ideal de uma guarda ‘rambo’, mas, sim, bem planejada e distribuída para lidar com o comércio ambulante ou atuar em lugares críticos”, diz. 

‘Segurança está no caminho certo’, diz secretário da PM

O secretário executivo da Polícia Militar, coronel Álvaro Batista Camilo, disse ao Estadão que São Paulo se saiu “muito bem” na proteção do cidadão durante a pandemia. “A polícia fez um bom trabalho e se voltou para os setores que permaneceram em funcionamento no período. Quando outros setores foram reabrindo, a polícia voltou o seu planejamento para essas áreas. O trabalho da segurança está no caminho certo e a busca continua para sempre melhorar”, disse. 

Ele celebrou a continuidade de operações e o patamar de apreensão de drogas no período, estimado em 100 toneladas ao longo dos seis primeiros meses do ano. “A criminalidade não parou e nós continuamos trabalhando forte”, reforçou. 

Sobre as cidades que viram aumento da violência no primeiro semestre, Camilo disse se tratar de “outliers, ou soluços, como conhecemos”. “É um caso aqui ou ali que sempre há no Estado muito por razões específicas ou anormais na cidade. Vamos trabalhar com o comandante local em reuniões de análises críticas em cima do que aconteceu. Nada é esquecido”, afirmou.

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Com pior índice de segurança, Itanhaém enfrenta atuação do PCC

Cidade do litoral sul de São Paulo ficou em primeiro lugar no Índice de Exposição à Criminalidade Violenta, do Instituto Sou da Paz, no primeiro semestre deste ano

Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 05h00

Os 401 roubos, sendo 46 casos de roubo de veículo e dez de carga, os 28 registros de estupro e os sete assassinatos, sendo um latrocínio, colocaram a cidade de Itanhaém, com 101 mil habitantes, como a mais exposta à criminalidade violenta no primeiro semestre deste ano, de acordo com o índice elaborado pelo Instituto Sou da Paz. O que ajuda a explicar a liderança é que nenhuma outra localidade vai tão mal no Estado em tantos indicadores diferentes quanto Itanhaém. 

“É tipo uma Osasco de antigamente”, define a advogada Regina Márcia Cabral Neves, presidente em exercício do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da cidade. Ela divide os bairros da cidade de acordo com características de insegurança. Em um “há muitos assaltos”. Outro é “esconderijo de bandido” e um terceiro tem “estupro de noite e de dia”, diz. “É muita coisa para uma cidade desse tamanho”, acrescenta. Sobre uma quarta região, a advogada diz que é onde estão instalados membros do Primeiro Comando da Capital (PCC).

Não se trata de um exagero retórico. No início do mês passado, a Polícia Civil em Itanhaém deflagrou a Operação Coche, que resultou na prisão de oito pessoas; um nono suspeito é considerado foragido. Na decisão judicial que iniciou o processo contra os que agora são réus, o juiz Paulo Alexandre Rodrigues Coutinho disse que a investigação teve como foco a desarticulação do crime organizado pelo PCC, que atuava no tráfico de drogas e com transporte clandestino no município. 

A investigação, relatou o juiz, mostrou indícios do interesse do crime organizado em apoiar a candidatura de políticos ao cargo de prefeito, “mediante a promessa de arrefecimento da fiscalização ao transporte clandestino na cidade”. Um dos investigados é ex-vereador do município e ex-presidente da Câmara local. A atuação do PCC de Itanhaém no ramo do transporte clandestino repete o que a facção já executa há 20 anos em outras cidades do Estado, incluindo a capital. 

“O vínculo entre o segmento empresarial da cidade e o crime organizado é perigoso e nocivo socialmente, pois acaba facilitando de forma exitosa a ocultação de valores auferidos no tráfico de drogas e até mesmo no transporte clandestino", escreveu à Justiça o delegado da seção de investigação sobre entorpecentes (Dise) da Polícia Civil. 

Uma outra dimensão da atuação do PCC em Itanhaém diz respeito ao emprego dos “disciplinas” – criminosos a quem a facção incube a tarefa de solucionar ao seu modo impasses dentro dos bairros. Para a polícia, trata-se de um “poder paralelo ao Estado”. 

O motorista Waldomiro Silvério Almeida, de 49 anos, chegava a um supermercado da cidade para realizar uma entrega de uma carga de leite antes das 7h da manhã do dia 8 de maio. Na porta, já o esperavam três bandidos armados. “Um botou a arma na minha costela com força e disse que se eu reagisse ia tomar um tiro. ‘Semana passada já matamos um, vai querer também?’”, contou Almeida ao Estadão

Dali, ele foi levado a um cativeiro na cidade, onde permaneceu até o início da tarde. “Depois, me levaram para um matagal e me mandaram ir andando na frente. Achei que eles iam me matar, era muito assustador. Me deixaram junto a uma árvore e disseram que só queriam a carga e que iam devolver o caminhão”, descreve o motorista, que nunca mais viu o veículo. 

O caminhão adquirido quatro meses antes ainda estava sendo pago e não tinha cobertura de seguro. Agora, com dificuldade para trabalhar, Almeida vê as prestações serem atrasadas e sujarem seu nome. “Ainda devo R$ 25 mil e estou fazendo bico, mas está difícil arrumar trabalho”, lamenta. 

Com ou sem ligação com o PCC, os crimes têm amedrontado os moradores. “Todos estão buscando mudar para apartamento por causa da insegurança. As pessoas têm medo”, conta Regina, cobrando uma melhor interlocução com a polícia local, sobre quem diz não ter a abertura devida mesmo com o cargo no Conseg, cuja premissa é aproximar as demanda dos moradores da atividade policial. “O capitão não me atende. Chama a polícia, dizem que não tem viatura.” 

Outro lado

Em nota, a prefeitura de Itanhaém disse desenvolver parcerias com os órgãos de segurança pública, por meio da Guarda Civil Municipal e com o programa Cidade Segura, que possui câmeras de monitoramento distribuídas em pontos de maior movimento. Os guardas armados atuam em ações de força-tarefa, diz o município, para inibir casos de violência e irregularidades na cidade. 

“Outro trabalho que também ajuda nas questões de segurança é a eliminação de pontos escuros com a ampliação da rede de iluminação pública nos bairros, que melhoram as condições de visualização e inibem a ação de marginais no período noturno”, declarou. 

Sobre o índice, a prefeitura destacou que a região sofre com uma variação sazonal da população, que no verão chega a quadruplicar, o que poderia influenciar o aumento dos dados. A justificativa já tinha sido dada no ano passado, quando a cidade já havia liderado o  Índice de Exposição à Criminalidade Violenta (IECV)A nota disse ainda que levantamento da Secretaria da Segurança aponta queda de indicadores no primeiro semestre. 

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Moradores vivem rotina sem medo em Matão, a cidade mais segura de São Paulo

Cercada de indústrias e fazendas de cana, Matão é a cidade com mais de 50 mil habitantes mais segura do Estado, segundo o Índice de Exposição à Criminalidade Violenta, do Instituto Sou da Paz

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 05h00

Basta não estar chovendo para que a dona de casa Maria Helena Santos Andrade, de 41 anos, repita uma indispensável rotina: após o almoço, ela se dirige a um dos bancos instalados na calçada, à frente da casa, para a costumeira roda de conversa com os vizinhos. “É sagrado, a gente almoça perto do meio-dia, faz os afazeres e vai para a rua aqui na frente, onde os vizinhos também já estão chegando. Ficamos horas conversando, sem medo de nada”, contou. A rotina, típica de minúsculas localidades do interior, acontece em Matão, cidade de 83.170 habitantes, na região norte do Estado de São Paulo.

Cercada de indústrias e fazendas de cana, Matão é a cidade com mais de 50 mil habitantes mais segura do Estado, segundo o Índice de Exposição à Criminalidade Violenta (IECV), do Instituto Sou da Paz. A análise envolve 139 municípios paulistas. Os dados levam em conta a redução de indicadores de crimes violentos, como roubos, estupros e homicídios, no primeiro semestre deste ano.

O prefeito Edinardo Esquetini (PSB) acredita que a pandemia do coronavírus teve influência. “Para fazer com que os decretos de quarentena fossem cumpridos, realizamos muitas operações com participação da Guarda Municipal e da Polícia Militar”, disse.

Os dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP) do Estado de janeiro a junho deste ano, comparando com igual período do ano passado, mostram que os principais índices de violência já eram baixos e caíram mais. Não aconteceu nenhum homicídio ou latrocínio nos dois períodos. O total de roubos caiu de 54 para 22 e o de furtos, de 286 para 207. Nos primeiros seis meses do ano passado, houve seis roubos a banco. Este ano, nenhum. O número de estupros baixou de 12 para 3 e o de lesões corporais dolosas, de 146 para 80.

Houve queda nos furtos de veículos, de 44 para 37, mas o número de roubos de carros disparou, de 6 para 23. Também aumentaram as tentativas de homicídio, de zero para duas. Os números da criminalidade em Matão são bem menores que de cidades do mesmo porte.

Cruzeiro, com 82.238 habitantes, que ficou em quarto lugar no ranking de exposição à criminalidade, registrou no primeiro semestre 14 homicídios dolosos, 21 tentativas de homicídio, 10 estupros, 95 roubos, 317 furtos, 47 furtos e 10 roubos de veículos e 113 lesões corporais dolosas.

Os crimes de morte são tão raros que os moradores precisam puxar pela memória. O frentista Laércio Mendes, que trabalha em um posto na Avenida Baldan, lembra do assassinato de um policial militar, no início de 2018. 

Ação de quadrilha de roubos de carro

O tenente Luiz Augusto Alves Tavares, comandante do policiamento militar em Matão, disse que o aumento em furtos e roubos de veículos se deve à ação de adolescentes infratores. “Mapeamos a ação de uma quadrilha que age na região e usa menores de idade para roubar carros ou caminhonetes em Matão e entregar a receptadores”, explicou. Os grupos de vizinhança solidária ajudam a ação da polícia. “Os moradores reportam atividades suspeitas e usamos imagens de câmeras do comércio para chegar a possíveis criminosos.”

O prefeito acredita que investimentos na Guarda Civil Municipal ajudaram a manter os baixos índices de violência. “Além de comprar viaturas e equipamentos – vale dizer que eles não tinham nem coturnos – fizemos a capacitação dos 32 guardas e contratamos mais 25. Da forma como foram treinados em academia de Campinas, eles podem se dar ao luxo de não usar armas”, disse. Conforme Esquetini, A prefeitura assumiu a manutenção das viaturas policiais e empresta funcionários para a Polícia Civil.

Mas o prefeito acha que o investimento que mais deu resultado foram as escolinhas de esportes que atendem 1.500 crianças. “Trouxemos toda criançada e a juventude para aulas de natação, judô, futebol, karatê e outras práticas. Nosso pessoal da capoeira faz um trabalho fantástico no Jardim Paraíso, uma região crítica.” Segundo ele, está sendo estudada a instalação de sistemas de monitoramento, do tipo muralha eletrônica, para reduzir os roubos de veículo. “Temos a terceira renda per capita do estado. Muita gente tem carro bom e caminhonete, por isso as quadrilhas da região vêm ‘trabalhar’ aqui.”

Na sexta-feira, 7, a cidade completou 14 dias na fase amarela do Plano São Paulo e bares e restaurantes foram autorizados a abrir até a 22 horas a partir do dia 10. Até então, o atendimento se encerrava às 17 horas. A cidade tem 183 casos positivos de coronavírus e 246 em investigação, além de oito óbitos confirmados. Mas o prefeito diz não ver risco de aumento nos índice de criminalidade. “Moro aqui desde os seis anos, há 46 anos, e nunca tive problema de roubo ou assalto, graças a Deus. A cidade é abençoada.”

Esse tipo de violência também passou longe da família de Maria Helena. Ela mora com o marido, o enteado e a nora em uma casa térrea da rua José de Oliveira, no Jardim Balista, entre o centro e a rodovia Brigadeiro Faria Lima (SP-326). Sua mãe mora ao lado. “

"Nunca houve um episódio de roubo ou assalto, nem aqui, nem na vizinhança, por isso nunca nos preocupamos em ter câmeras, cerca elétrica, essas coisas. Aqui no bairro todos se conhecem, ninguém usa ferrolho na porta. Se alguém está em busca de sossego, eu recomendo o Jardim Balista em Matão”, disse. 

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Análise: A pandemia afetou a exposição a crimes violentos nas cidades paulistas?

Os achados deste primeiro semestre de 2020 são surpreendentes e merecem a atenção da sociedade, gestores e profissionais da segurança pública

Carolina Ricardo, Leonardo Carvalho e Rafael Rocha*, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2020 | 05h00

Apesar da incerteza gerada pela pandemia de covid-19, as eleições municipais estão confirmadas para ocorrerem em novembro deste ano e com elas se apresenta uma oportunidade para aumentar a qualidade do debate sobre as políticas públicas em disputa, entre elas as de segurança pública. Isso tem sido um desafio em processos eleitorais, ainda mais em eleições municipais, já que prefeitos e prefeitas ainda não se veem como protagonistas de políticas de prevenção da violência e segurança pública.

É nesse sentido que a publicação do Índice de Exposição a Crimes Violentos (IECV), desenvolvido pelo Instituto Sou da Paz e cuja primeira edição foi publicada em parceria com o Estadão em 2018, traz importantes subsídios para uma compreensão mais ampla do fenômeno da violência e criminalidade em 139 cidades do estado de São Paulo. O IECV funciona como uma espécie de termômetro que permite mensurar diversos aspectos da segurança pública nessas cidades possibilitando um olhar integrado para estes indicadores e uma leitura particularizada da criminalidade violenta para municípios de diferentes regiões do Estado.

O primeiro semestre de 2020 foi marcado pela pandemia do coronavírus e por uma profunda mudança na circulação e comportamento das pessoas, com uma quarentena decretada a partir de 23 de março. O fenômeno criminal foi amplamente afetado por toda essa alteração, o que torna necessário um olhar detalhado para o comportamento do indicador neste período. Há dados consolidados do IECV entre 2014 e 2019 que permitem a compreensão de como as cidades estão expostas aos crimes violentos ao longo dos últimos anos. Mas os achados deste primeiro semestre de 2020 são surpreendentes e merecem a atenção da sociedade, gestores e profissionais da segurança pública. 

Quando comparamos o Índice de Exposição a Crimes Violentos do primeiro semestre de 2020 com o mesmo período de 2019, vemos uma melhoria na maioria dos 139 municípios analisados. No entanto, ao observar isoladamente cada um dos elementos que compõem o IECV – crimes contra a vida, patrimoniais e sexuais –, é possível identificar como as dinâmicas desses tipos de crimes violentos foram afetadas de maneira bem diferentes pela pandemia de covid-19 e as medidas de isolamento social. 

Os crimes patrimoniais, que já vinham em forte tendência de queda nos últimos anos, tiveram uma redução ainda mais intensa nos últimos seis meses, período marcado pela menor circulação de pessoas nas ruas. Um bom exemplo desta dinâmica são os roubos de veículos, que já vinham em redução contínua desde o ano de 2014. Entre os meses de janeiro e junho de 2019, 23.620 veículos foram roubados nas ruas do estado, uma média de 131 roubos diários. Já no primeiro semestre de 2020, foram registrados 16.222 roubos de veículos, cerca de 90 roubos por dia, e uma significativa redução de 31% nas ocorrências.

Por outro lado, os crimes contra a vida, sobretudo os homicídios dolosos, que apresentaram uma redução contínua entre os anos de 2013 e 2019, voltaram a aumentar no primeiro semestre de 2020. Foram cometidos 1.522 assassinatos entre janeiro e junho deste ano, um aumento de 4,5% em comparação com o primeiro semestre de 2019.

No entanto, esse crescimento não se deu de forma homogênea no Estado, se concentrando em cidades específicas, sobretudo da região da Grande São Paulo, como Itapecerica da Serra, município cuja taxa de homicídios mais que dobrou: de 4 por 100 mil habitantes na primeira metade de 2019, para 9,7 por 100 mil nos primeiros seis meses de 2020.

É essencial que um aumento tão intenso, especialmente durante o período de isolamento social, seja mais bem compreendido, e isso só será possível por meio de um investimento do Estado de recursos econômicos e, sobretudo, políticos que priorizem a investigação e esclarecimento dos homicídios em São Paulo.

Por fim, os crimes de estupro, cujos registros subiram anualmente a partir de 2016, apresentaram um movimento de queda abrupta no primeiro semestre deste ano. Na primeira metade de 2020, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo registrou 5.069 ocorrências de estupro, uma redução de cerca de 14% frente os 5.889 registros do mesmo crime entre os meses de janeiro e junho de 2019.

É importante salientar que, ao contrário dos homicídios, o crime de estupro é fortemente afetado pela subnotificação, ou seja, a ocorrência deste tipo de crime é muito maior do que o número de denúncias registradas pelas instituições do sistema de justiça. De acordo com a última pesquisa nacional de vitimização, realizada pela Secretaria Nacional de Segurança Pública em 2013, no Brasil somente 7,5% das vítimas de violência sexual notificam o crime à polícia. Ou seja, é possível que mais de 90% dos estupros ocorridos na última década no país não tenham sido registrados.

O Índice de Exposição a Crimes Violentos é valioso justamente por trazer um número que resume esse conjunto de crimes e por permitir a análise da distribuição dos crimes violentos de forma desagregada, e como estes indicadores criminais variam em cada um dos municípios para os quais o IECV foi calculado. Mas este é apenas um primeiro passo.

Porque os homicídios se multiplicaram em cidades como Itapecerica da Serra e Birigui durante o período de isolamento social? A redução dos números de estupros no primeiro semestre de 2020, justamente quando crianças e adolescentes – vítimas de cerca de 74% dos estupros registrados no Estado) – estão em casa, aponta uma queda deste tipo de crime ou de sua notificação às autoridades?

Essas são perguntas essenciais não apenas para compreendermos como os crimes violentos foram afetados pela pandemia, mas para que medidas de segurança pública realmente eficazes e direcionadas aos municípios com maiores índices de exposição à criminalidade violenta sejam tomadas pelos governos estadual e municipais, especialmente em um ano de debates eleitorais municipais.

* Carolina Ricardo é diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, Leonardo Carvalho é coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz e Rafael Rocha é pesquisador do Instituto Sou da Paz

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