Com o(sobre)peso ideal para uma boa luta

Com o(sobre)peso ideal para uma boa luta

Amanhã, meninos e jovens, com idade entre 8 e 18 anos, participam do 32º Campeonato Paulista de Sumô; 250 competidores 'gordinhos' - orientais ou não - preparam-se para entrar na arena

MARCOS BIZZOTTO/AE, O Estadao de S.Paulo

27 Março 2010 | 00h00

Basta um garoto mais rechonchudo aparecer na bicicletaria de Mauricio Kenhiti Uehara, em São Bernardo do Campo, para receber um convite: "Quer praticar sumô?". Uehara é ex-atleta e técnico desse esporte, além de presidente da Associação de Sumô do Grande ABC. Sim, existe uma instituição do tipo. Assim como há outras oito no Estado, incluindo três da capital paulista. Elas reúnem mais de 300 lutadores amadores paulistas. E 250 deles, com idades entre 8 e 18 anos, competirão no 32.º Campeonato Paulista de Sumô Infanto-Juvenil. O torneio ocorre amanhã, entre 9h e 17h, no ginásio de sumô anexo ao Estádio Municipal de Beisebol Mie Nishi, no Bom Retiro (Avenida Presidente Castelo Branco, 5.446; entrada gratuita).

Uehara levará 10 de seus 20 alunos para competir, a maioria arregimentada quando criança na bicicletaria. Outros, convidados pelos que chegaram ao sumô pelas magrelas. "Entrei no esporte quando o sogro de Uehara me viu na bicicletaria e me chamou", conta o engenheiro Adailton Speravieri, de 37 anos, que começou a lutar com 13 e hoje é membro da associação do ABC. "Era gordinho, com cerca de 90 quilos e 1,70m, e acharam que eu me daria bem na arena." Speravieri já foi terceiro colocado no campeonato brasileiro da categoria.

Quando Speravieri, descendente de italianos, começou, em 1985, o sumô era um esporte quase que exclusivamente das colônias japonesas. "Era um dos poucos não nisseis a lutar." Hoje, a cena está invertida. "No máximo 20% dos atletas têm os olhos puxados", diz o engenheiro.

Tradições. Nos treinos quase não há orientais. No que o Estado presenciou, na quinta-feira passada, entre cinco atletas, só havia um, filho de Uehara. "Não há mais o velho preconceito de só aceitar nossos descendentes", afirma o técnico. "Antes, não chamávamos quem não tinha origem japonesa."

Apesar de o esporte ter se difundido para fora da colônia oriental, há um cuidado para preservar as tradições. "Jogamos sal na arena como um ritual de purificação, não deixamos o atleta comemorar suas vitórias, o que é um desrespeito com o adversário", conta Uehara.

Mas os traços da cultura japonesa costumam assustar quem não é familiarizado. "Quando comecei, com 10 anos, achava tudo estranho", diz Diego Nunes, de 16 anos, bicampeão paulista que participará do torneio de domingo. "Tanto que relutei em aceitar o convite de um amigo para ver os treinos. Achava que era só um monte de gordo de fralda se pegando." Após ter iniciado, porém, o garoto passou a curtir a luta. "Dá condicionamento físico e propicia as amizades."

Os treinamentos são pesados. A equipe do ABC pratica sempre aos sábados, das 19h30 às 22h. Começam com rituais japoneses de esfregar as mãos, para mostrar que a luta é justa, fazem alongamentos e depois passam aos exercícios específicos. São proibidos golpes como socos e chutes. Só é permitido empurrar ou aplicar quedas ao adversário. Ganha quem derruba ou joga o oponente para fora do ringue. As lutas são rápidas - cerca de 30 segundos.

Origem. Há diversas lendas sobre o surgimento do sumô no Japão. "Os primeiros registros têm mais de 2 mil anos", afirma o dentista Issao Kagohara, de 60 anos, presidente da Confederação Brasileira de Sumô. "Dizem que tribos promoviam lutas entre seus melhores guerreiros para decidir guerras sem sangue."

No Brasil, a tradição chegou junto com a imigração japonesa. "Os primeiros combates começaram em lavouras de café, no início do século passado", afirma Uehara.

Há cerca de 500 praticantes no País. Informações sobre onde e como começar podem ser obtidas no site sumobrasileiro.blogspot.com.

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