Com neoclássicos em baixa, mercado de alto padrão inventa os ''contemporâneos''

Em vez de grandes pórticos e gradis de ferro, arquitetos hoje investem em fachadas com muito vidro, formas assimétricas e cores claras

Paulo Sampaio, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2010 | 00h00

Adeus, Petit Palais. A arquitetura neoclássica encontrada em prédios de bairros nobres de São Paulo, como Vila Nova Conceição e Jardins, na zona sul, está em baixa. Mas ninguém do alto padrão vai ficar sem teto. Os mesmos criadores dos projetos de "inspiração europeia" inventaram agora o estilo "contemporâneo". Em vez da cor acinzentada da fachada, dos pórticos frondosos cheios de frisos e detalhes, do gradil de ferro nas sacadinhas, os novos castelos verticais têm aparência de museus de arte moderna, foguetes ou prédios "retrofitados" (recauchutados) de Londres e Nova York.

O arquiteto Itamar Berezin, conhecido por alguns dos mais emblemáticos projetos neoclássicos da cidade (ele prefere chamar de "neopós"), conta que a demanda pelo estilo em seu escritório "está quase zerada".

"De cada 80 projetos que eu tenho hoje, no máximo dois são neopós. O que a gente tem feito agora é um contemporâneo de fachada mista, com uso de muito vidro, formas assimétricas e cores claras", diz ele.

Conceito. O melhor exemplo da última safra de Berezin é o Çiragan, na Alameda Ministro Rocha Azevedo, em Cerqueira César, na zona sul. A estrutura encimada por uma espécie de bico de foguete abriga 32 apartamentos diferentes, com tamanhos que vão de 50 a 220 m², e salas comerciais de luxo. O condomínio tem duas piscinas, sauna, ofurô, quiosque de massagem, lounge, espaço gourmet e sala de jogos. Diz Berezin que o prédio "tem vida". "Existe ali uma dinâmica social intensa."

Mercado. A corretora Lilian Marques da Costa, especializada em empreendimentos de luxo, explica que os apartamentos menores têm sido vendidos por cerca de R$ 350 mil. "O público de alto padrão está comprando produtos novos."

Segundo Fábio Romano, diretor de Incorporações da construtora Yuny, o conceito da "dinâmica social intensa" não era tão aceitável. "Em outros tempos, se você fizesse um apartamento de 180 m² e um de 100 m² no mesmo prédio, não vendia. Tinha de ser em torres diferentes."

Segundo ele, "o contemporâneo é uma tendência mundial". "O de São Paulo é inspirado em prédios retrofitados da Europa e dos Estados Unidos. Lá, eles chamam alguns de "glass houses" (casas de vidro). Olhando para a fachada do prédio residencial, você pode ter a impressão de que é comercial. Há mistura de elementos como tijolo, cerâmica e "alucobond" (espécie de alumínio platinado, como o que se vê no prédio da Marginal do Pinheiros conhecido como Robocop)."

Para vender o projeto futurista, providenciaram um estande à altura. O publicitário Bob Eugênio, especialista em mídia imobiliária, explica: "O ponto de venda deixou de ser rococó, com colunas gregas, chafarizes e pontezinhas. Tem um na Mooca (zona leste) que parece o MAM. Anteontem, me encomendaram um em forma de cubo de vidro."

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