Com medo, família vizinha de empresa de valores se trancou em banheiro

Moradores acordaram com tiros e explosões; filhos não querem dormir em casa. Projeto na Alesp veta empresa no perímetro urbano

Juliana Diógenes, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2016 | 21h19

A ação da quadrilha que tentou assaltar a empresa de valores Protege, em Santo André, com tiroteio e explosões, tirou vizinhos da cama, fez moradores passarem o dia com medo e crianças pedirem para não ficar mais sozinhas nem dormir em casa. A quarta ação do gênero desde março também deve retomar a discussão na Assembleia Legislativa que tira as empresas de valores do perímetro urbano das cidades paulistas.

Na ação desta quarta, o empresário Edson Granado, de 37 anos, relatou que ele, a mulher e o filho de 11 anos tiveram de trancar-se no banheiro. Eles moram no 6.º andar do Edifício Terraços do Campestre, na frente da Protege. Por medo de bala perdida, permaneceram no cômodo por 30 minutos. 

Granado ainda relata ter visto parte da movimentação da quadrilha. Ele conta que acordou assustado, por volta das 3 horas. “Comecei a escutar tiros longe. O barulho foi se aproximando. De repente, ouvi duas explosões. Achei que tinha acabado e fui até a janela, mas nessa hora a explosão foi tão forte que cheguei a ser lançado para dentro do apartamento”, diz. Da janela, o empresário afirma ter visto pelo menos dez homens fortemente armados, além de um furgão e uma picape estacionados na via. 

Segundo Granado, a mulher, que é bancária, havia participado no dia anterior de palestra sobre segurança que simulava um assalto a banco. “Ela, que já estava impressionada, ficou bem nervosa, bem abalada com a ação na frente do nosso prédio”, afirma. Já o filho teria pedido ao pai para não dormir em casa na noite desta quarta. “Disse que não quer mais ficar sozinho em casa. Porque às vezes nós descíamos e ele ficava jogando videogame no apartamento. E falou que vai dormir na casa da avó”, diz o empresário.

Também vizinha da empresa de valores, a empresária Camila Carneiro, de 40 anos, preferiu não ir trabalhar nesta quarta. Também não levou o filho, Igor, de 10 anos, para a escola. Por coincidência, segundo a moradora, o menino pediu na noite de terça para dormir na cama da mãe. “Primeiro, ouvi um barulho e achei que fossem fogos de artifício. Depois escutei tiro e gritaria. Até queria ir para a escola, mas percebi que eles (criminosos) ainda estavam soltos. Aí fiquei com medo”, explica o garoto. “Eu me senti como em Velozes e Furiosos (série de filmes de ação).” Por volta das 6 horas, os dois desceram e encontraram pregos e cápsulas de bala no condomínio. 

Moradora de um sobrado próximo da empresa, a aposentada Fátima Carvalho, de 57 anos, disse que a ação “parecia de guerra”. Ela conta que ainda não havia dormido e, exatamente às 3h11, escutou um barulho semelhante a um rojão. “Fui me arrastando pelo chão, tremendo, com medo de que viesse alguma bala perdida. Só vi coisa assim em filme”, afirma ela, que até 10 horas desta quarta não havia conseguido dormir. 

Assembleia. Um projeto de lei publicado na semana passada no Diário Oficial do Estado busca proibir a instalação de empresas de transporte de valores no perímetro urbano das cidades paulistas. De autoria da deputada Célia Leão (PSDB), a proposta surgiu após os ataques classificados por ela como “cinematográficos” a empresas em Campinas, Santos e Ribeirão Preto.

O texto publicado há uma semana estabelece que as transportadoras de valores devem funcionar apenas em áreas rurais sem grande número de moradores. As empresas já instaladas no perímetro urbano teriam dois anos para se mudar. A proposta também define que os carros-fortes só poderão transportar dinheiro para os estabelecimentos financeiros e comerciais no período entre as 22 horas e as 7 horas. 

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