Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com folia interrompida, escolas de samba de SP se preparam para futuro carnaval

Agremiações recomeçaram produção em janeiro, com efetivo reduzido; realização de desfiles em 2021 é incerta

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2021 | 08h33

Os sons, a movimentação, a quantidade de gente... Quem frequenta barracões de escola de samba diz que nunca viu um início de ano como este, sem a correria para terminar os últimos acabamentos e deixar tudo pronto para o desfile. É um momento histórico e triste para aqueles que fazem carnaval, pela incerteza de quando poderão voltar a desfilar e pelas perdas que as próprias comunidades tiveram ao longo da pandemia da covid-19.

Adiada, a folia de São Paulo ainda não tem uma definição se será realizada no segundo semestre de 2021, como foi cogitado no setor. Segundo a Prefeitura, a decisão é condicionada à área sanitária e está sendo articulada com as instituições envolvidas. 

Em grande parte das agremiações, o clima é de retomada com cautela, após meses de atividades presenciais quase paralisadas. As ruas internas das Fábricas do Samba ainda mantêm carros alegóricos e alegorias de carnavais passados, como um deus Ganesha com um braço só, a cabeça de um leão, uma grande coroa desbotada e esqueletos.

No barracão da Vai-Vai, cerca de 20 manequins desnudos estão guardados em um canto, enquanto as máquinas de costura seguem silenciosas e sacolas guardam fantasias de fevereiro passado que serão vendidas e doadas para escolas do interior. Só seis trabalham na confecção das fantasias piloto, que servirão de modelo para as que serão replicadas ali e em ateliês terceirizados.

Nesta época do ano, o galpão estaria repleto de mesas com até 50 pessoas na finalização de fantasias e adereços, enquanto o trabalho com carros alegóricos ocorreria debaixo de uma grande tenda, hoje desmontada. Mesmo com um momento tão atípico, as declarações são de satisfação pelo retorno da rotina nos barracões.

“Está sendo diferente, não tem a correria, a adrenalina”, conta Luciana Mazola, que trabalha no carnaval há 20 anos e até tatuou o escudo da escola de samba no antebraço. “Aqui convivo muito mais com os meus companheiros de trabalho do que com a minha família.Tenho dois amores na minha vida: meu filho e a Vai-Vai.”

Na pandemia, ela chegou a fazer cerca de 5 mil máscaras como alternativa de renda. “O próximo carnaval vai ser a superação de tudo. Tem pessoas que só sabem fazer isso”, comenta ela, que às vezes desfila, às vezes prefere observar o resultado do trabalho perto das arquibancadas. “Ver aquela multidão, olhando o que você fez, faz você lembrar de onde saiu, como foi feito, que passa em dezenas de países.”

Diretor de carnaval da escola, Gabriel Mello descreve o trabalho hoje como “devagarinho com constância”, com uma linha de produção modificada pela pandemia, em que cada pessoa é responsável por fazer uma peça inteira, a fim de evitar maior contato. Parte da equipe trabalhava na concepção do carnaval desde setembro, mas a transformação dos desenhos em fantasias começou há cerca de três semanas. O samba escolhido será anunciado este mês.

A ideia é manter os trabalhos. “Independentemente de quando for o carnaval, a escola tem que estar pronta”, comenta Mello. “É um pouco triste andar pelos corredores e não escutar o barulho que a gente está acostumado”, compara. “Fica uma sensação de, poxa, está chegando fevereiro e não temos nosso carnaval. As escolas estão muito fragilizadas, elas são centros comunitários e perderam muita gente (por causa da covid-19).”

Por isso, não imagina que as lembranças passem despercebidas nos desfiles. “Vai ser um momento de emoção, de alívio, de celebração, de respeito às pessoas que se foram, de veneração às pessoas que se foram. Talvez seja até uma forma de amenizar a dor”, descreve. “O carnaval serve para a gente adoçar um pouco a vida, extravasar o que guardou o ano inteiro. Dessa vez, vai ser o que guardou por mais de um ano. Como diz o enredo da Viradouro, não há tristeza que possa suportar tanta alegria.”

Na Acadêmicos do Tucuruvi, os trabalhos foram divididos em dois lugares para evitar aglomerações, deixando as alegorias no barracão e a confecção de fantasia na quadra da escola, em um momento em que não há ensaios. No local que costumava receber apresentações, as mesas de confecção ficam no espaço onde funcionava o bar, de frente para os instrumentos da bateria, ensacados. 

Como em outros barracões, por lá também se costuma ouvir sambas-enredo durante os trabalhos. “É para acelerar o coração. A gente é movido à bateria”, conta o carnavalesco Dione Leite, sobre o retorno das atividades presenciais neste mês. “Estava todo mundo esperando muito tempo por esse momento. É muito melhor usar máscara, até tomar álcool em gel se precisar do que ficar sem trabalhar. Além da questão financeira, o que é mais agravante é a sanidade mental.”

Para Leite, o próximo carnaval será histórico. “Antes da pandemia existia um sonho. Veio a pandemia e congelou o sonho de todo mundo. Aí veio esperança (com a retomada paulatina)”, lembra. “Será um grande carnaval. Acredito que vai ser o maior carnaval de todos. Vou chorar a avenida inteira.”

Já a Unidos de Vila Maria adotou o escalonamento dos trabalhos, com equipes reduzidas. Como outras agremiações, há dificuldades e aumento de preços de matéria-prima, majoritariamente importada da China. “Está tudo mais caro e não se encontra a variedade de antes”, conta o diretor executivo Demis Melo. “Este ano vamos nos virar com material nacional.”

Diferentemente de outros que atuam com o carnaval, o presidente da escola, Adilson José, é otimista quanto à realização dos desfiles ainda neste ano, mesmo que seja com máscaras, adaptadas às cores e características das fantasias. “Vai ser uma honra mostrar a força, a união, cada um mostrando seu enredo, sua ideia, alegria.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.