Com fim de auxílio, famílias voltam para áreas de risco

População ainda reclama de interrupção no pagamento de bolsa; prefeita nega acusação de Defensoria e diz que benefício foi mantido

Rodrigo Brancatelli , Rodrigo Burgarelli ENVIADO ESPECIAL SÃO LUÍS DO PARAITINGA, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2010 | 00h00

Apreensão. A dona de casa Quitéria Ximenes mostra escombros da casa em que sua filha vivia antes das enchentes que destruíram Paraitinga; hoje, ela vive em uma área de risco ao lado          

 

 

 

Os moradores de São Luís do Paraitinga estão confusos. Cerca de sete meses depois das chuvas que destruíram grande parte do patrimônio local, a falta de informação sobre o que fazer e o medo de que a tragédia se repita no próximo verão são assuntos frequentes nas rodas de conversa de quem perdeu a casa nas enchentes. Segundo a Defensoria Pública, ainda há desabrigados "esquecidos" em pousadas e desalojados que estão voltando para suas casas em áreas de risco - notícias que só atestam que a enchente de janeiro ainda não teve um ponto final.

A funcionária pública Neide Aparecida Alves, de 34 anos, é exemplo dessa desinformação. Ela teve a casa interditada pela Defesa Civil e acabou tendo de alugar um sobrado no centro, onde mora com o filho. Como compensação por ter saído de sua residência, ela recebia um auxílio-aluguel de R$300, mas reclama que o valor deixou de ser pago em maio. "Protocolei o pedido de prorrogação, mas faz três meses que nem eu nem meus vizinhos estamos recebendo", diz.

A falta do auxílio fez até com que a dona de casa Quitéria Libânia Ximenes, de 67 anos, se despedisse da filha Cleonice, que teve de se mudar de São Luís para o Rio, onde tem parentes. "Ela recebeu o auxílio por apenas quatro meses - depois, parou. Aí não tinha condição de ela continuar na cidade sem a ajuda", afirma Quitéria.

A casa de Cleonice foi completamente destruída com a queda de um barranco na noite de ano-novo. A mãe voltou a morar bem ao lado dos escombros - segundo a Defensoria Pública, em área de risco de desmoronamentos -, mas ela diz não temer um novo desastre. "Mesmo se tivesse medo, para onde eu poderia ir? Tenho de ficar aqui mesmo."

Outro exemplo da falta de informação é um casarão rosa e espaçoso, localizado em uma das vias de acesso bloqueadas na entrada da cidade: a Pousada Caravela. O local virou casa para mais de 70 pessoas desabrigadas. Separadas pelas paredes de concreto e madeirite que dividem os quartos, as histórias de 17 famílias se cruzam diariamente no pátio, por onde caminham adultos, idosos e crianças - já nasceram quatro bebês desde fevereiro - que não sabem onde vão morar daqui a um mês.

Um senhor morreu ali - segundo os outros desalojados, ele parou de comer por causa de uma depressão. "Disseram que vamos mudar para as casinhas novas da CDHU. Vamos ver se muda mesmo, né? Já não está dando mais para ficar aqui", disse o ajudante geral José Guimarães, de 42 anos.

Prefeitura. A prefeita de São Luís do Paraitinga, Ana Lúcia Sicherle, afirmou que não pode comentar a ação porque não foi notificada. "Já mandamos ofício para o defensor, mas ele se recusa a nos enviar", diz. A prefeita afirma que o auxílio-moradia só deixou de ser pago para quem vivia de aluguel antes da tragédia. Mesmo com a reportagem constatando ontem que os moradores desalojados estão voltando para área de risco, ela se limitou a dizer que "isso não existe".

Sobre o dinheiro de doações usado na reforma da prefeitura, Ana Lúcia afirma que o valor foi doado por um banco que não quis ser identificado, mas que havia destinado o dinheiro para a reforma do prédio. Ela diz ainda que o restante das doações não foi utilizado porque o governo espera um "levantamento das prioridades sociais".

AS ACUSAÇÕES DA DEFENSORIA

Alertas e Defesa Civil

Oito alertas meteorológicos foram enviados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) 72 horas antes das chuvas. Famílias de áreas de risco não teriam sido retiradas, no entanto, porque a cidade não contava com Defesa Civil.

Desvio de doações

A Prefeitura teria se apropriado indevidamente de R$ 96 mil de doações aos flagelados para reformar a sede.

Desalojados

Haveria desabrigados "esquecidos" em pousadas e o governo estaria cortando o auxílio-moradia de R$ 300 dado às famílias atingidas. Famílias também estariam sendo forçadas a voltar para suas residências em áreas de risco.

Risco de enchentes

Até hoje, o governo não iniciou obras para desassorear e recuperar as matas ciliares na bacia do Rio Paraitinga

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