Bruno Ribeiro/Estadão
Bruno Ribeiro/Estadão

Com discursos sobre as eleições e vaias ao prefeito, Parada do Orgulho LGBT lota a Paulista

Multidão, fantasiada, com coroas com as cores do arco-íris e fantasias de Carnaval, se amontoa ao redor dos 18 trios elétricos enfileirados pela Paulista

Bruno Ribeiro e Marco Antonio Carvalho, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 13h49
Atualizado 03 Junho 2018 | 23h13

SÃO PAULO - A 22.ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo foi marcada neste domingo, 3, na região da Avenida Paulista, por discursos políticos com foco nas eleições, pedindo o fim do preconceito e da homofobia, e denunciando agressões no País contra os cidadãos das diferentes orientações sexuais. E terminou em uma reedição (mais friorenta) do carnaval de rua, com muitas fantasias e consumo de catuaba.

Todos os 18 trios elétricos que empurraram a multidão desde a concentração, na frente do Museu de Arte de São Paulo (Masp), até o fim da Praça Roosevelt, na Rua da Consolação, tinham bandeiras com urnas e frases com o tema “Poder pra LGBTI+: Nosso voto, nossa voz”, buscando conscientizar a comunidade sobre a importância do voto nas eleições deste ano. Os organizadores estimaram em 3 milhões o número de participantes.

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Antes de a Parada começar, políticos como a vereadora Soninha Francine (PPS) e a viúva da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), assassinada em março, a arquiteta Monica Tereza Benício, discursaram. “Apesar de ter cara de festa, é um ato político. É resistência. Temos de vir para a rua fazer festa, mas também para fazer revolução. Isto aqui é revolução. Por nenhuma Marielle a mais assassinada, por nenhum gay assassinado, por nenhuma lésbica assassinada e nenhuma trans assassinada”, afirmou Monica.

"Isso é um ato político, é contra o preconceito. Mas também é uma festa e eu vim aproveitar", concordou o operador de telemarketing Felipe Tubone, de 22 anos.

A apresentadora Tchaka abriu o evento com críticas aos parlamentares conservadores, que foram acompanhadas de gritos da plateia pedindo "Fora Temer". Depois, Tchaka puxou o mesmo grito de protesto.

A recepção foi menos amistosa para o prefeito Bruno Covas (PSDB), que fez um discurso, de menos de dois minutos, sob vaias. “A cidade de São Paulo tem de dar exemplo para o mundo de orgulho e de diversidade. Parabéns a todos vocês e um excelente evento.”

Camuflados

A tarde fria, com máxima de 17°C e garoa, não desanimou quem estava na parada. Homens vestindo apenas sungas, botas e óculos de sol, e mulheres de sutiã ou com adesivos cobrindo os mamilos deram o tom da festa. O destaque deste ano foram as roupas camufladas, tanto deles quanto delas, alguns com placas como “intervenha aqui”, em uma ironia aos pedidos de intervenção militar feitos por radicais de direita cuja agenda inclui ataques aos homossexuais.

"Sou totalmente contra a intervenção. Mas adoro roupa camuflada ", comentou a estudante Amanda Diegas, de 17 anos, que colocou uma jaqueta camuflada para participar do evento.

"A gente tem de vir. Primeiro para dar visibilidade, para todo mundo ver quantos somos. É importante. Mas é uma festa. É um carnaval, mas a gente se sente ainda mais seguro”, contou o bancário Renato Auricchio da Silva, de 25 anos, vestido com um maiô e saia transparente.

Na Rua da Consolação, havia também muitas famílias, amontoadas nos cantos da rua, que estavam ali só para ver a festa. “Eu já vim vários anos, moro aqui do lado. Desta vez, a gente trouxe nossa filha para ver, mas ela não está nem aí”, disse a vendedora de móveis Marília Paz Morais, de 36 anos, que estava com marido e filha, Laura, de 3 anos, que tinha as atenções mais voltadas para uma bexiga de unicórnio que acabara de ganhar do que para a parada em si. 

A música predominante foi a das batidas eletrônicas. Mas também havia espaço para funk nacional e clássicos da disco, dos anos 1970, extremamente associados especificamente aos gays. O trânsito de todo o entorno foi bloqueado e, como ocorre em todos os anos, houve congestionamento na Avenida Rebouças. 

Com um maiô com as cores do arco-íris, a cantora Anitta tornou o trio em que ela estava um dos mais disputados da parada. Outra cantora que dominou a festa foi Pabllo Vittar, também de maiô com as cores do arco-íris. Ela chegou com um roupão feito de reportagens de jornal sobre crimes ligados à homofobia. 

Infraestrutura

Com 38 pontos de bloqueio ao trânsito e forte policiamento, a parada ocorreu com tranquilidade. Mas era possível ouvir o tempo todo alguém se queixar sobre celular roubado na aglomeração. Outro ponto fraco foi que, embora houvesse banheiros químicos instalados ao longo das duas vias, havia gente urinando na rua. As paredes do Cemitério da Consolação se transformaram em um mictório ao ar livre.

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