Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com desemprego e menos restrições anticovid, ambulantes lotam Paulista, Brás e 25 de Março

Agravamento da informalidade contrasta com a alta em apreensões realizadas pela Prefeitura de São Paulo no ano passado e com o movimento ainda baixo de clientes

Felipe Resk e Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 10h00

SÃO PAULO - A Avenida Paulista e outras ruas tradicionais de comércio na cidade de São Paulo voltaram a conviver com aglomerações de vendedores ambulantes. Empurrado pelo cenário de perda de renda e desemprego durante a pandemia, o agravamento da informalidade contrasta com a alta em apreensões realizadas pela Prefeitura no ano passado e com o movimento ainda baixo de clientes apesar das medidas recentes para flexibilizar as restrições contra a pandemia de covid-19.

Ao meio-dia de quinta-feira, 8, as calçadas da Avenida Paulista, um dos principais cartões-postais da capital, abrigavam cerca de 135 bancas, tendas ou panos com toda sorte de produtos expostos – de artesanato, a vaso de planta, capinha de celular ou roupa de frio. A maior concentração era vista entre a Alameda Campinas e o Museu de Arte de São Paulo (Masp), com 70 camelôs disputando o espaço de quatro quadras.

“Disseram que aqui era o melhor lugar. Estou há três meses em São Paulo e preciso conseguir dinheiro, senão como vou sobreviver?”, afirma um argentino de 34 anos, que optou por se identificar como Alexandre e vende incensos naturais há menos de duas semanas. “Antes, tentei trabalhar em Pinheiros, mas não vendi nada. Zero, zero.”

Com menos pessoas circulando nas ruas do que em épocas de normalidade, não é raro constatar trechos em que vendedores irregulares são os únicos presentes na Paulista. Boa parte dos camelôs é formada por imigrantes latinos. Segundo relatam, o ritmo dos negócios anda lento e muitos precisam trabalhar horas a mais para cumprir metas diárias. Em menos de meio hora, no entanto, Alexandre conseguiu concluir duas vendas. “Estou com sorte hoje, porque nos dias passados o movimento estava muito fraco”, diz.

Também argentino, Danilo Muniz, de 56 anos, chegou a ter uma loja no Brasil, mas recorreu à informalidade após falir. Sem autorização, tem alternado o comércio de plantas com o de bebidas pela Paulista e outras áreas do centro: “Está terrível. Hoje mesmo só vendi R$ 5, um vasinho de suculenta”.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontam que houve crescimento recente da taxa de informalidade no País. Conforme o levantamento, o número de trabalhadores por conta própria e sem CNPJ chegou a 18,1 milhões no trimestre terminado em abril – o maior índice em um ano, mas que ainda fica abaixo do patamar anterior à pandemia.

Comerciantes legais e frequentadores da região relatam que, durante os períodos mais agudos da quarentena, a Avenida chegou a ficar praticamente vazia e o retorno dos camelôs foi repentino.Com marmitas a R$ 10, Mary Fernandes, de 54 anos, sobrevive de negócios com os próprios ambulantes e confirma que a demanda disparou nas últimas semanas. “Felizmente, o movimento tem subido muito agora”, relata. Carregando dois sacolões pesados, ela percorre a Paulista a passos rápidos e vende de 35 a 70 almoços por dia:“Foi a forma que encontrei para conseguir algum dinheiro”.

Para moradores, comerciantes e presidentes de associações, o maior problema é o volume ocupado nas calçadas, o que diminui o espaço para pedestres e até invade pisos destinados a pessoas com deficiência. “Sem dúvidas nenhuma, o problema é cada vez mais complicado”, afirma Célia Marcondes, fundadora da Sociedade dos Amigos e Moradores do Cerqueira César (Samorcc). “Sabemos que estamos no momento de pandemia e o problema social é visível ali. Há uma tentativa de sobrevivência. Mas falta política pública, falta governo.”

Presidente e fundador da Associação Paulista Viva, Lívio Giosa relata que a quantidade de camelôs costuma flutuar entre os dias úteis e fins de semana ou feriados. “Com o desemprego em alta, acredito que a Prefeitura não esteja fiscalizando tanto. A pandemia trouxe um afrouxamento da fiscalização e (os camelôs) começaram a ocupar as calçadas aos sábados também.”

“São três turnos com atividades diferentes”, descreve Raphaela Galletti, presidente da MOVPAULISTA, associação que reúne moradores, comerciantes e prestadores de serviço. “De manhã é uma coisa, durante o dia é outra configuração e à noite são outras barracas, que têm até iluminação própria, com pipoca, frutas, etc. A gente tem a sensação de que o pedestre não tem vez na calçada.”

A Secretaria Municipal das Subprefeituras, informou que na Paulista há 27 Termos de Permissão de Uso (TPUs) para bancas de jornais e revistas e seis TPUs para compartilhamento de bicicletas cadastrados pelo sistema Tô Legal!, programa da Prefeitura para legalizar comerciantes de rua.

'É como se tivesse acabado a pandemia'

Com quedas recentes na notificação de casos, mortes e internações pela covid no Estado de São Paulo, o governo João Doria (PSDB) decidiu flexibilizar regras para estabelecimentos comerciais semana passada, ampliando em duas horas o horário de funcionamento. A capacidade permitida passou de 40% para 60%. Embora não impacte diretamente na atividade informal, a medida tende a ampliar o número de pessoas circulando nas ruas.

Mesmo antes de as regras ficarem mais brandas, outros polos comerciais já registravam aglomerações na capital. Na região da 25 de Março, o Estadão flagrou centenas de pessoas circulando – muitas delas sem máscara ou de máscara no queixo. Sem espaço nas calçadas, ambulantes deixavam seus produtos à mostra na rua mesmo, em meio à passagem de carros.

“É como se aqui já tivesse acabado a pandemia”, resumiu uma mulher que trabalha na região há cinco anos. “O movimento, em si, anda meio fraco mas está voltando aos poucos. Em datas específicas, como dia das crianças ou natal, é que enche.”

No Brás, as ruas também estavam lotadas de camelôs. “Tem mais vendedor do que pessoas passando”, descreve Felipe Dias, de 21, que perdeu o emprego de garçom na pandemia e viu na informalidade uma chance de manter a renda. “É claro que a gente fica com medo de pegar o vírus. Mas tenho de sustentar uma irmã, minha tia e duas primas, uma delas está grávida. Se eu não viesse para cá, ia passar fome.”

Natural do Haiti, a vendedora Chrislande Dely, de 29 anos, diz que a atual concorrência entre os ambulantes é maior do que a demanda do Brás. “Hoje mesmo minha prima não conseguiu espaço para vender.”

Camelôs da Paulista, da 25 e do Brás são unânimes em dizer que a fiscalização da Prefeitura não diminuiu durante a crise sanitária. Dados da gestão Ricardo Nunes (MDB) também mostram que, na verdade, o número de apreensões subiu no ano passado. “Todo dia alguém perde a mercadoria”, relata Fernanda Aparecida, de 28 anos. “É um risco sempre, mas a gente precisa comer.”

Com menos pessoas nas ruas, também teria ficado mais fácil identificar atividades irregulares, segundo a administração municipal. Foram 160.629 lacres recolhidos na capital em 2020, ou cerca de nove toneladas, ante 154.120 lacres (cinco toneladas) em 2019, ainda no período pré-pandemia.

Já no acumulado deste ano, até maio, a estatística mais recente, as apreensões chegaram a 42.691 (quatro toneladas). “A fiscalização do comércio irregular é feita diariamente pelas 32 subprefeituras”, diz a Prefeitura.

Até 12 de julho, conforme a gestão Nunes, 17.694 estabelecimentos foram orientados quanto à necessidade do uso correto de máscaras e 12.789 materiais gráficos educativos foram distribuídos. A Prefeitura ainda afirmou ter distribuído 1.781 máscaras nas ações nos grandes centros comerciais, nas diferentes regiões de São Paulo e locais com o maior fluxo de pessoas. /COLABOROU JOÃO KER

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