Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Com crise, moradores de rua de SP passam sede e ficam sem banho

Na Cracolândia, pedestres com garrafas de água viraram alvo de dependentes químicos; centros de acolhimento têm torneiras secas

Pedro Venceslau e Mônica Reolom , O Estado de S. Paulo

21 Fevereiro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Enquanto o governo paulista debate cenários para evitar o rodízio oficial de água na Grande São Paulo, os moradores de rua da cidade dizem que estão passando sede e ficando sem tomar banho, por causa da crise hídrica. Segundo relatos ouvidos pelo Estado em centros de acolhimento e na Cracolândia, no centro da capital paulista, tem sido difícil encontrar água potável em equipamentos da Prefeitura e em estabelecimentos que antes a cediam.

“Os moradores de rua estão passando sede. Há um recrudescimento da dificuldade de acesso à água pelo pessoal de rua”, afirmou o padre Julio Lancellotti, coordenador da Pastoral do Povo de Rua e titular do Comitê de Políticas Públicas para a População de Rua de São Paulo. 

Ele comandará no domingo, 22, uma missa na região da Cracolândia para alertar as autoridades. “A crise hídrica fez as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) terem restrição, bem como os centros de acolhida”, ressaltou. 

Depois do evento, serão distribuídos reservatórios com água potável. Segundo o religioso, o maior problema é que os moradores de rua não têm onde armazenar água, o que causa um efeito inusitado. Na Cracolândia, os viciados têm abordado pessoas na rua para roubar ou, segundo Lancelotti, “pegar com avidez” garrafas.

Problema. A reportagem esteve na sede do programa municipal De Braços Abertos na Rua Helvetia e constatou que faltava água nos dois filtros e na torneira. Funcionários explicaram que o problema era pontual, causado por uma reforma. Já os frequentadores disseram que a escassez é frequente e, por isso, têm recorrido a uma torneira de rua para beber água.

Em um centro de acolhida na zona norte que atende 900 pessoas, não há água nas torneiras das 13 às 5 horas do dia seguinte, impossibilitando o banho. “Temos uma caixa de água que ajuda, mas pela manhã sempre falta para que eles façam higiene pessoal e usem os banheiros. E ficam revoltados”, informou um funcionário que não quis ser identificado. 

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) explicou que a cidade passa por manobras de redução de pressão para combater perdas de água. Já a Prefeitura determinou em janeiro a redução em 20% do consumo de água nos equipamentos municipais. Na Cracolândia, o governo municipal destacou que não tem ingerência sobre os hotéis que abrigam os viciados e muitos não têm caixa de água, o que pode atrapalhar o consumo.

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