Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Com ''amor'' e no ''vai'' e ''vem'', sambas de SP e Rio se parecem cada vez mais

Levantamento feito pelo 'Estado', com base no que se ouve na Sapucaí e no Anhembi desde 2000, revela padronização nas letras

Bruno Paes Manso, O Estado de S.Paulo

06 Março 2011 | 00h00

Se fosse uma pessoa, o Rio estaria bem representado por uma mulher de biquíni bronzeada. Um homem de terno e gravata, talvez pálido, por seu lado, faria uma boa síntese de São Paulo. É inegável que as duas cidades têm imagens distintas. Enquanto a primeira é lembrada pelas praias e pela beleza natural, a segunda está associada ao trabalho e à economia dinâmica.

Em quatro dias do ano, contudo, durante o carnaval, enquanto cantam e dançam na Marquês de Sapucaí e no Anhembi, cariocas e paulistanos parecem pensar de maneira semelhante. Pelo menos é o que apontam as letras de samba que foram levadas para a avenida durante os desfiles de carnaval deste milênio.

Levantamento feito pelo Estado com base nas letras dos carnavais desde 2000, com a ajuda do site wordle, que produz uma nuvem de tags no qual as maiores palavras são as mais repetidas, revelou enorme coincidência nas composições.

Amor, vem, vai, coração, terra, mundo, história, Brasil, hoje, liberdade, sonho, esperança, felicidade são algumas das que mais se repetem. Em mais de cem listadas, não existem palavras com sentido negativo. Raras são as que aparecem em apenas um lado. Verbos de movimento, substantivos ligados a bons sentimentos ou a desejos revelam os discursos dos foliões em um período que, hoje, muitos estudiosos buscam analisar para tentar compreender um pouco mais a alma do brasileiro.

Basta observar a lista para ver que não há limites para temas. Vai do chocolate ao Teatro Municipal, passando pela paz universal, cabelos, Chico Buarque, Renato Aragão, favela de Heliópolis e Índia, entre muitos outros. A abordagem, no entanto, tende a ter um viés semelhante, esbanjando otimismo, reverência e um certo civismo. "Existem os enredos abstratos e os temáticos. Mas não há como fugir das palavras positivas, assim como é preciso fazer refrões que empolguem a plateia e a chame para participar da festa", explica o advogado e professor de Direito público Léo Lima, autor em 2009 do samba da X-9 sobre a Amazônia. "Era de protesto. Mas apresentamos o problema e cantamos a esperança na solução."

Disputa. Em média, 20 concorrentes por escola disputam as eliminatórias que definem os sambas-enredo. Além da qualidade da composição, é preciso contar com um bom intérprete, relacionamento próximo com os integrantes da escola e uma divulgação eficaz, por meio de CDs a serem distribuídos à torcida.

O arquiteto Aquiles da Vila, que compõe o samba da Rosas de Ouro há três anos, incluindo o que deu o título à escola ano passado, ainda diz que os critérios rígidos dos jurados acabam estabelecendo um certo padrão. "A letra deve seguir o enredo."

Autor de pelo menos 30 sambas, alguns que se tornaram clássicos dos anos 1970 e 1980, o sambista Osvaldinho da Cuíca acredita que o carnaval de hoje se desvirtuou. "Os mesmos grupinhos são escolhidos, é preciso conhecer gente das escolas, os sambistas foram colocados de lado e isso diminui a qualidade das composições", diz. "Carnaval é alma e coração. O problema é que o coração hoje está com taquicardia, com sambas muito acelerados, e a alma foi vendida ao diabo, por causa do excesso de patrocínios. O samba é o que menos importa."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.