Com 50 anos de atraso, 'papa bondoso' será canonizado

João XXIII poderia ter virado santo durante o Concílio Ecumênico Vaticano II, que revolucionou a Igreja

José Maria Mayrink, O Estado de S.Paulo

14 Julho 2013 | 02h06

A canonização de João XXIII, anunciada pelo Vaticano no dia 5 e que deverá ser celebrada neste ano, chega com 50 anos de atraso. O "papa bondoso", como era chamado Angelo Giuseppe Roncalli, poderia ter sido canonizado durante o Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965), se Paulo VI, seu sucessor, tivesse ouvido o apelo dos bispos que pediram que fosse declarado santo, por aclamação, na Basílica de São Pedro.

"Estamos preparando terreno para a canonização do papa João por aclamação, sem processo e sem mais milagres, no encerramento do Vaticano II. Como na Igreja primitiva", escreveu d. Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, na carta circular n.º 32, redigida nos dias 4 e 5 de novembro de 1965. D. Hélder, que participou dos quatro períodos do Concílio com mais de 2,5 mil bispos do mundo inteiro, registrava, de madrugada, propostas, discussões e votações do plenário.

Paulo VI vetou a proposta de canonização para que uma decisão sumária não ofuscasse a figura de Pio XII, morto em 1958, cuja causa de beatificação se pretendia iniciar. João XXIII foi beatificado em 2000, juntamente com Pio IX, que governou a Igreja de 1846 a 1878, enquanto a causa de Pio XII ficou estagnada, pelas implicações e dificuldades políticas de seu pontificado durante a 2.ª Guerra.

A canonização de João Paulo II, que ocorrerá em brevíssimo tempo para os padrões da Congregação para as Causas dos Santos, apenas dois anos e meio após a cerimônia de beatificação, seguiu as normas do Vaticano, que exige a aprovação de dois milagres. Bento XVI, o papa emérito que trabalhou durante 23 anos ao lado de João Paulo II como prefeito da Congregação da Doutrina da Fé, empenhou-se pessoalmente para apressar a causa.

O papa Francisco fez mais do que isso no caso de João XXIII: dispensou a exigência de um segundo milagre. João XXIII morreu em 3 de junho de 1963, deixando o prosseguimento dos trabalhos nas mãos de Paulo VI.

A reunião do Vaticano II, que poderia ser considerada o grande milagre de João XXIII, foi uma revolução na Igreja. Além da reforma da liturgia, que substituiu o latim pelas línguas nacionais nas celebrações e fez os padres celebrarem a missa voltados para o povo, o Concílio publicou constituições dogmáticas e pastorais, decretos e declarações sobre fé, relação com outras religiões e compromisso do cristão com a justiça social. Foi um sopro de vida nova na Igreja, que ainda hoje continua estudando e assimilando o texto promulgado em 1965.

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