Com 40% dos imóveis do Pinheirinho no chão, moradores ainda retiram bens

Desalojados reclamam de desaparecimento e destruição de seus pertences; polícia nega e diz que amanhã vai terminar remoção

WILLIAM CARDOSO, ENVIADO ESPECIAL, SÃO JOSÉ DOS CAMPOS, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2012 | 03h07

Foi com surpresa e decepção que parte dos moradores do Pinheirinho enfrentou ontem o retorno às casas que deixaram às pressas no domingo durante a reintegração de posse do terreno de 1,3 milhão de metros quadrados em São José dos Campos, interior paulista. Desaparecimento e destruição dos bens e dificuldade para retirar o que lhes pertence foram situações relatadas. Até ontem, 40% dos imóveis já haviam sido demolidos. Mais um veículo foi incendiado.

"Não deixaram tirar minhas coisas. Está tudo lá. Isso não foi só comigo, não. Estava ouvindo boato lá fora e não estava acreditando. Agora, acredito. Etiquetaram tudo para nada, metade das minhas coisas está arregaçada", afirmou, aos prantos, a faxineira Ana Paula da Conceição, de 23 anos, mãe de duas crianças, de 5 anos e de 1 ano e 8 meses.

Ana Paula disse que era vendedora de cosméticos e que perdeu cerca de R$ 2 mil em produtos que estavam em sua casa. "Quero ver quem vai pagar agora."

As ruas próximas do Pinheirinho estavam cercadas por cordas na manhã de ontem. Os moradores encontravam dificuldade para buscar os bens. A prefeitura informou que destinou 70 caminhões e 500 homens para auxiliar os moradores, o que seria obrigação da massa falida da Selecta S.A., de Naji Nahas.

Segundo os desalojados, a fila para conseguir o auxílio da prefeitura é grande. Para evitar a espera, muitos resolveram contratar caminhões. "Tive de fazer um empréstimo para pagar os R$ 250 do frete. Não dava para esperar", disse o encarregado Edson Belmiro Feitosa, de 31 anos. "Sabemos de pessoas que chegaram em casa e já não tinha mais nada", disse a ajudante-geral Maria do Nascimento, de 48 anos.

Exploração. Diante do desespero dos moradores, profissionais que oferecem carreto até dobraram o valor do frete.

Quem precisou resgatar o carro e tinha irregularidades foi obrigado a contratar guinchos. "Só ontem, recolhi cinco carros. Cobraria R$ 60 normalmente, mas estou pedindo até R$ 100 agora", afirmou o socorrista Francisco Morais, de 38 anos.

Segundo a PM, as reclamações dos moradores não procedem. "Não tenho informação de casa destruída com tudo dentro. Em uma reintegração, diferentemente de uma ação de despejo, poderia ser retirado tudo e levado para um depósito", disse o coronel Manoel Messias. A expectativa da PM é de que a remoção de bens termine amanhã.

Abrigos. A situação de quem buscou ajuda nos abrigos era desconfortável até ontem. Problemas com a alimentação e infraestrutura ainda incomodavam.

A doméstica Leidijane da Silva, de 22 anos, disse que a alimentação não é distribuída adequadamente na Escola Dom Pedro. "Ontem teve até briga por causa de leite. Meu marido foi atrás das assistentes sociais porque as crianças ficaram até as 23 horas sem comer." Ela é mãe de Leidiane, de 3 anos, e Silvania, de 6.

À tarde, a chuva expôs outro problema. Por causa de goteiras, desalojados foram transferidos do ginásio para salas de aula.

O secretário de Desenvolvimento Social, João Francisco Sawaya de Lima, informou que existem outros abrigos disponíveis. "Para o abrigo do Vale do Sol, foram apenas 70 pessoas", disse. Lima informou que os moradores recusam a oferta de ir para outros abrigos.

Justiça. A Defensoria Pública de São Paulo entrou com ação civil pública para pedir que a Justiça obrigue a prefeitura de São José dos Campos a fornecer acolhimento emergencial aos moradores e também atendimento habitacional. O processo foi distribuído à 2.ª Vara da Fazenda Pública e aguarda julgamento.

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