Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Coletivos travam em SP guerra virtual

No centro da discussão está grupo que usa dinheiro público e apoia jornalismo alternativo

Bruno Paes Manso e Flávia Guerra, de O Estado de S.Paulo,

18 de agosto de 2013 | 02h04

SÃO PAULO - No domingo passado, moradores da Casa das Redes, em Brasília, do coletivo Fora do Eixo (FdE), receberam pela internet cumprimentos pelo Dia dos Pais. Mesmo não tendo vivido a experiência da paternidade, eles se consideram pais coletivos de Benjamin Juvêncio Nanni, de 9 meses, o "bebê copyleft" (sem direito autoral). A criação de Benjamin Guarani Kayowá, nome dele no Facebook, é compartilhada por todos moradores da casa, que se revezam em tarefas como trocar fraldas, dar papinhas, tirar fotos da criança e postar na rede.

O que parecia apenas uma das muitas discussões telúricas do grupo, começou a esquentar depois que um jornalista cobrou em seu blog a ação de promotores da Vara da Infância contra a família alternativa. Assustados, pais e avós biológicos se manifestaram contra a criminalização da experiência. "Ter mais pessoas influenciando no seu dia a dia fez com que ele avançasse no desenvolvimento", escreveu Isis Maria, mãe biológica de Benjamin. O pai é Marco Nanni. Ambos moram na Casa das Redes.

Era só o começo de uma série de petardos lançados ao longo da semana contra a filosofia hippie 2.0 do Fora do Eixo, coletivo cultural que atua na produção artística e que prega o coletivismo. Segundo os críticos, as supostas propostas libertárias do grupo estão repletas de contradições. Nas redes sociais, integrantes foram acusados de desvios morais (assédio e mentiras), políticos (indicações em conselhos e administração pública para obtenção de verbas públicas e patrocínios em editais para bancar projetos) e de práticas de crimes - como exploração de trabalho escravo e roubo.

A barra pesou na sexta-feira, depois que uma matéria da Carta Capital descreveu as casas coletivas como ambiente opressivo. Depois das manifestações de junho, mais uma vez, a nova geração mostrava como os debates políticos na atualidade haviam mudado. "A rede de desafetos do Fora do Eixo ficou maior do que a rede de colaboradores", diz o ex-secretário de Cultura de Cuiabá, Mario Olímpio, que em 2002 deu espaço a Pablo Capilé, do grupo, na administração tucana da cidade.  

Criado em 2005 a partir de Cuiabá, em Mato Grosso, o coletivo ganhou espaço na cena cultural independente do Brasil se associando a grupos de outros Estados. Cresceram apostando na arrecadação de dinheiro em editais públicos e também recursos privados para organizar manifestações culturais.

Liderança. Capilé, de 34 anos, o principal cacique da tribo, ex-estudante de Marketing em Mato Grosso, conseguiu conquistar adeptos na base do discurso solidário, repleto de simbologia. Apesar de financiamento com dinheiro público para muitos projetos, uma moeda (CuboCard) foi criada para mediar o escambo e a troca de serviços entre integrantes, antes feitos à base da brodagem (amizade).

Na prática, contudo, segundo os acusadores, o que se via era uma espécie de Oficina-de-Costura-do-Brás 2.0, com jovens trabalhando ininterruptamente 15 horas por dia. Nada que não pudesse ser justificado com filosofia: quando o trabalho traz realização, não é preciso ser separado do prazer. Confunde-se com a própria vida e se justifica por aumentar o nível de Felicidade Interna Bruta individual, em nome do grupo.

"Não partimos de nenhum autor para bolar essas ideias. Elas foram elaboradas na prática. Tínhamos pouco dinheiro e queríamos fazer muita coisa. Depois, tentávamos pensar e explicar o que estávamos fazendo", explica Capilé.

A ações intuitivas e práticas do grupo e suas técnicas de comunicação em rede começaram a ficar mais sérias depois que o grupo chegou a São Paulo, em 2011, onde construíram a casa Fora do Eixo, no politizado ambiente dos coletivos cujas ações e ideais desembocariam nas manifestações de junho. As contradições entre prática e discurso passaram a ser atacadas.

A primeira rusga ocorreu durante a organização da Marcha da Maconha, em maio de 2011. Houve forte repressão policial. Na semana seguinte, os jovens se organizaram para articular a Marcha da Liberdade. "Foi quando o Fora do Eixo apareceu. Não conhecia o grupo. Eles ofereceram gente para ajudar a divulgar o evento pelas redes. A comunicação funcionou, mas não conseguimos pautar o debate político. O resultado foi uma marcha despolitizada, com gente defendendo o amor e a liberdade", lembra o cientista social Marco Magri, do Desentorpecendo a Razão.

A presença do grupo cresceu ainda mais no ano seguinte, na eleição de 2012, quando eles ajudaram a promover o "Existe Amor em SP". Apesar de se definir como apartidário, atraiu simpatizantes de Fernando Haddad (PT) e ajudou na eleição do prefeito. Capilé foi chamado para o Conselho da Cidade e Rodrigo Savazoni, ligado ao grupo, tornou-se secretário executivo do titular da Cultura, Juca Ferreira.

Quando as manifestações de rua de junho começaram, o debate a respeito da incoerência do FdE já havia avançado a ponto de o coletivo quase ficar de fora dos protestos. Eles eram a atual esquerda festiva, figuras opostas aos integrantes do Movimento Passe Livre, que veio com pauta bem definida e concreta (redução de R$ 0,20 na passagem de ônibus), agindo a partir de táticas ousadas como desobediência civil.

Até que a Mídia Ninja surgiu na cobertura dos protestos e passou a ser apontado como "revolução" do jornalismo. Parceiro do grupo que cobriu as manifestações de junho, oferecendo suporte tecnológico, o FdE voltava às cabeças e à visibilidade na opinião pública. Com isso, a avalanche de trolls (ataques) teve início, num violento debate político e virtual sobre sua filosofia, ética e conduta.

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