Coleta seletiva dobra em SP, mas Haddad vai atingir só 1/4 da meta de reciclagem

Passado mais de um ano da lei das sacolinhas, lançada para incentivar o reaproveitamento do lixo, a Prefeitura não aplicou nenhuma multa por descumprimento das regras; a cidade processa atualmente 2,5% do material – expectativa é alcançar 10%

Bruno Ribeiro, O Estado de S. Paulo

01 Maio 2016 | 22h00

SÃO PAULO - A quantidade de lixo reciclado na cidade de São Paulo mais do que dobrou nos últimos três anos, mas a gestão Fernando Haddad (PT) vai terminar o atual mandato sem cumprir a meta de reaproveitar 10% de todo o material produzido na capital. Passado mais de um ano da lei das sacolinhas de supermercados, nenhuma multa foi aplicada até agora por seu uso incorreto. O item, agora comprado nos caixas dos estabelecimentos, são vistos como material de educação ambiental pela Prefeitura. 

A capital fechou o ano passado com 85 mil toneladas processadas de lixo nas usinas de triagem ou nas cooperativas de catadores. Em 2013, primeiro da gestão petista, eram 40 mil toneladas. O aumento de 112%, no entanto, fará com que a cidade recicle apenas 2,5% das 3,4 milhões de toneladas geradas anualmente pelos paulistanos.

“A meta existe para ser perseguida. Desde o ano passado e no primeiro semestre deste ano, toda a infraestrutura para que ela seja alcançada foi desenvolvida”, diz o diretor de Planejamento e Desenvolvimento da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb), Samuel Oliveira.

As sacolinhas, lançadas para incentivar a reciclagem, tinham como propósito facilitar a separação do lixo nas residências. Nas de cor verde, o paulistano deveria colocar o material reciclável e, na de cor cinza, o lixo comum e também orgânico, a ser levado para o aterro sanitário. Pela lei, estabelecimentos comerciais que descumprem a regra podem receber multa de R$ 500 a R$ 2 milhões – para os moradores da capital, a punição varia de R$ 50 a R$ 500.

Oliveira reconhece que os itens impostos pela lei não são responsáveis pelo aumento da reciclagem. “Ela (a sacolinha) é um diferencial para chamar a atenção, assim como os jingles que tocam nos caminhões de coleta”, diz o diretor da Amlurb.

Uma explicação para a evolução da reciclagem é a expansão do número de ruas atendidas por caminhões de coleta seletiva. “Chegamos a 89 dos 96 distritos da cidade com coleta porta em porta. Em 40, a coleta é universalizada (realizada em todas as ruas). Até 2012, eram 14”, conta Oliveira.

Justificativa. O resultado aquém do esperado é justificado pela “lei da oferta e procura”. “Estamos oferecendo uma estrutura adequada à demanda existente hoje. Conforme a população passe a separar mais o lixo, já temos as bases para que consigamos processar mais material”, diz Oliveira. O argumento é para justificar o fato de que caminhões de recicláveis passem tão poucas vezes pelas ruas – em geral, é apenas um dia da semana, contra seis do lixo comum. “Vamos passando uma vez. Quando vemos que a quantidade é insuficiente, porque a demanda cresceu, podemos aumentar a oferta”, afirma.

Da forma como a coleta foi organizada na cidade, os caminhões podem ser operados pelas 32 cooperativas ou pelas duas concessionárias do serviço de lixo. Por não compactar o material coletado nas ruas, os caminhões transportam carga máxima de 3 toneladas de resíduos ante às 11 toneladas que podem levar os caminhões de lixo comum.

Atitude. Há na cidade moradores que têm de brigar para ter o lixo separado coletado em sua casa. Um deles é Claudio Spinola, diretor de uma empresa que fornece composteiras para processar lixo doméstico.

Desde 2009, ele pede caminhões de coleta seletiva em sua rua, no Butantã, na zona oeste da capital. Spinola chegou a procurar diretamente a cooperativa que atende a sua região para buscar ajuda. “Disseram que a quantidade que eu produzia não valia a pena. Então, organizei toda a vizinhança, a rua de cima e a rua de baixo, e montei um ponto de entrega voluntária em casa. Aí, sim, passaram a retirar”, conta.

Montar um ponto de entrega de material reciclável, no entanto, causou uma série de transtornos. “Tivemos de tampar os latões, colocar cadeado, limpar tudo duas vezes por dia”, diz. Diante das reclamações dos vizinhos, Spinola desistiu da ideia e a coleta parou de ser feita em sua rua. “Agora, estamos esperando pela empresa e pela Prefeitura”, diz.

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