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Colesterol e câncer de mama

Faz muitos anos foi detectada uma relação entre obesidade acompanhada por níveis altos de colesterol e um maior risco de desenvolver câncer de mama. Essa relação aparentemente estranha agora foi explicada. Uma molécula produzida durante a degradação do colesterol se liga aos receptores de hormônios femininos e facilita o crescimento e a propagação dos tumores.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

14 Dezembro 2013 | 02h05

Inicialmente, a relação entre obesidade e um aumento no risco de desenvolver câncer de mama foi atribuída a um efeito direto da obesidade e dos distúrbios nos níveis de insulina. Mais tarde foi descoberto que mulheres que estavam tomando drogas para reduzir seus níveis de colesterol, no momento em que eram diagnosticadas com câncer de mama, tinham uma sobrevida mais longa e uma maior chance de serem curadas. Mas novamente a descoberta foi explicada como um possível efeito direto das drogas que diminuem os níveis de colesterol sobre as células tumorais.

Os cientistas somente começaram a acreditar que existia um efeito direto do colesterol sobre o aparecimento de câncer de mama quando descobriram que a destruição do colesterol no fígado produzia um composto chamado 27-Hydroxycholesterol (27HC) e que esse composto se ligava diretamente aos receptores de estrógeno. Aí acendeu uma luz. Os receptores de estrógenos, quando estimulados, fazem com que as células tumorais se dividam mais rapidamente. Em mulheres jovens, o estrógeno presente no sangue faz esse papel e é por isso que um dos principais tratamentos para o câncer de mama consiste em bloquear a produção de estrógenos. É também por esse motivo que mulheres mais velhas, pós-menopausa, têm menores chances de desenvolver câncer de mama.

Os cientistas então imaginaram o que poderia estar acontecendo. Em mulheres mais velhas, sem estrógenos e com níveis altos de colesterol, a degradação do estrógeno estaria produzindo grandes quantidades de 27HC e a molécula estaria se ligando aos receptores de estrógeno e facilitando o desenvolvimento dos tumores. Mas era necessário demonstrar que isso era verdade. Agora a hipótese foi confirmada, pelo menos em camundongos.

Em um primeiro experimento, os cientistas operaram camundongos fêmeas, retirando seus ovários (o que faz com que entrem na menopausa). Aí implantaram nestes animais células tumorais. Normalmente os tumores se desenvolvem lentamente nesses animais, a não ser que eles sejam injetados com estrógeno (simulando um ovário normal). O que os cientistas observaram é que, se injetassem 27HC nos animais, os tumores cresciam mais rápido, e que esse crescimento era reduzido por drogas que impediam a ligação do 27HC aos receptores de estrógeno. O experimento demonstrou que o 27HC facilitava o desenvolvimento dos tumores.

Em um segundo experimento, os cientistas usaram uma linhagem de camundongos que desenvolve facilmente tumores de mama. Nesses camundongos, 125 dias após o nascimento metade dos animais apresentam tumores de mama. Quando os cientistas colocaram nos animais um gene capaz de reduzir a quantidade de 27HC os tumores passaram a surgir mais tarde e a crescer mais lentamente. Mas, se doses extras de 27HC eram injetadas, os tumores novamente apareciam mais cedo e se desenvolviam rapidamente.

Finalmente, usando esses mesmos tipos de camundongos, foi possível demonstrar que a presença de 27HC aumenta as chances de metástases e sua ausência diminui a velocidade com que os tumores migravam para outros tecidos.

Os resultados demonstram, em camundongos, que uma taxa alta de colesterol provoca um aumento na quantidade de 27HC no sangue e que a presença dessa molécula facilita o crescimento e a disseminação das células tumorais. Pelo menos em camundongos sabemos exatamente como taxas altas de colesterol aumentam a probabilidade do aparecimento e propagação de tumores. No caso de seres humanos, estudos ainda estão em andamento, mas já se sabe que o 27HC está aumentado em pessoas que têm colesterol alto. É muito provável que um fenômeno idêntico ao detectado nos camundongos ocorra em seres humanos.

Tudo indica que agora temos mais um motivo para controlar nosso nível de colesterol. Não somente isso diminui nossas chances de sofrer problemas no coração e no cérebro, mas também pode diminuir as chances de mulheres mais velhas desenvolverem câncer de mama.

É BIÓLOGO

MAIS INFORMAÇÕES: 27-HYDROXYCHOLESTEROL LINKS HYPERCHOLESTROLEMIA AND BREAST CANCER PATHOPHYSIOLOGY. SCIENCE VOL. 342 PÁG 1094 2013

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