Coisa de doido

Antes que você me venha com reclamação, vou informando que não pretendo desovar aqui Minhas Entrevistas Completas. É que, ao retomar a conversa da semana passada, me veio a lembrança de uma pergunta que me fizeram, já faz tempo, diante da câmera:

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

20 Março 2011 | 00h00

- O que mais o marcou na infância?

Não pude resistir:

- Catapora.

Considerando-se que não tenho cara de quem foi especialmente marcado na infância, nem mesmo pela catapora, imagino que o desastrado repórter estivesse, como a estudante de Letras da semana passada, querendo saber sobre leituras. Para não perder a piada, perdi a chance de falar do João Felpudo.

Conhece? Pouco provável: faz mais de 60 anos que o livrinho do alemão Heinrich Hoffmann saiu aqui pela última vez, em tradução do poeta Guilherme de Almeida. Não tenho ideia de onde foi parar o exemplar que havia na casa de meus pais, caprichosamente encapado por minha mãe com papel manilha inglês. Para pôr de novo os olhos sobre essa obrinha que tanto me fascinou e aterrorizou (e que, na terapia, teria sido bem mais eloquente do que eu), precisei recorrer à Biblioteca Monteiro Lobato.

Feito múmia em museu, lá estava, num armário envidraçado, um volume sexagenário em cuja capa o João Felpudo exibe frondosa juba, além de unhas capazes de humilhar o Zé do Caixão dos bons tempos. O visual talvez não assombre uma criança de hoje, que no máximo poderá estranhar a ausência de tatuagem e piercing. Será preciso explicar a ela que não se usavam tais adornos na Alemanha de 1845, ano em que o médico Heinrich Hoffmann escreveu e ilustrou as dez historinhas de João Felpudo.

Tudo o que o doutor pretendia era dar um livro ao filho de 3 anos. Não achando nada que lhe agradasse, tomou da pena e produziu textos e imagens que século e meio mais tarde manteriam vivo o nome do autor. Não visava fama ou fortuna: queria apenas alertar o garoto para as contrapartidas do mau comportamento. "Quando um menino é bonzinho", escreveu, "vem do céu o Anjo da Guarda/ com soldado, cavalinho,/ tambor, espada, espingarda..." E quando é mau? "Vocês vão ver/ o que pode acontecer..."

Não se sabe como o infante Hoffmann reagiu aos espantalhos que povoam as historietas paternas. Outros meninos, entre eles este cronista, encheram-se do mais eriçado horror. Não espanta que João Felpudo tenha sumido das livrarias brasileiras há tanto tempo. Não vejo recurso do politicamente correto que dê jeito, por exemplo, na tragédia de Paulina, a menina que em sentido literal brinca com fogo e acaba convertida num fumegante montinho de cinzas, ao lado do qual pranteiam seus gatinhos. Fim semelhante tem o gorducho Paulito, que por se recusar a tomar sopa vai definhando até morrer como Paulito Palito. Sobre o túmulo, o dr. Hoffmann julgou pedagógico desenhar uma sopeira.

A desobediência custa caro também ao Tonico, dado a se balançar na cadeira durante as refeições: um dia cai, arrastando sobre si a toalha e tudo o que havia na mesa.

O autor de João Felpudo implicou até com o inofensivo e sonhador Cheira-céu, que por andar "de narizinho para o ar" termina fazendo um mergulho imprevisto. Pelo menos não morreu, o que no livro já não é pouco. Mas o Alberto, que em dia de tempestade cismou de passear com o guarda-chuva novo, esse foi levado para sempre pela ventania. Quem mandou ser exibido?

Gaspar, Luisinho e Roberto, que vivem gozando todo mundo, se dão mal ao chamar de "boneco de piche" um "negrinho muito limpo e direitinho" com quem cruzam na rua. Justiceiro, o escrivão Tomás agarra os três e os mergulha no tinteiro, convertendo-os em seres ainda mais retintos que o objeto de suas gozações.

Nenhuma história de João Felpudo, ainda hoje, me infunde mais horror do que a do Juca. Ele não para de chupar o dedo, indiferente ao que diz a mãe: pode vir aí o alfaiate com a tesoura!

Eu nem precisaria ter revisitado o livro do dr. Hoffmann (xará, aliás, do fotógrafo de Hitler) para me lembrar do que nele me marcou, bem mais do que teria feito a mais devastadora catapora: a imagem do Juca em lágrimas - sem os polegares. E pensar que o autor de João Felpudo era psiquiatra. Coisa de doido, realmente.

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