''Clamor popular definiu a sentença''

''Clamor popular definiu a sentença''

Roberto Podval, advogado de defesa dos Nardonis

Rodrigo Brancatelli, O Estadao de S.Paulo

28 Março 2010 | 00h00

Visivelmente cansado, mas ainda assim com uma expressão de alívio no rosto, o advogado Roberto Podval afirma que a tática da defesa não poderia ser outra. Para ele, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá já entraram condenados no julgamento, "graças ao clamor popular". Em entrevista exclusiva ao Estado em seu apartamento em Higienópolis, na região central de São Paulo, cerca de uma hora após a leitura da sentença que incriminou o casal, ele elogiou a atuação do rival, o promotor Francisco Cembranelli. "Ganhei um amigo", disse.

Ao lado de amigos e colegas, Podval brindava na madrugada de ontem o fim de uma semana de trabalho intenso, sem um final feliz para os clientes. Ainda assim, mesmo com o alívio pelo fim dos trabalhos, o criminalista criticou a "vontade de vingança da sociedade". Durante a semana, ele havia sido hostilizado e vaiado pelo público que compareceu ao Fórum de Santana, na zona norte da capital paulista. Uma pessoa chegou até a tentar agredi-lo. Podval reiterou que não havia elementos para comprovar a culpa de Anna Carolina e disse que continuará na defesa para tentar reverter a decisão de ontem.

O senhor parece conformado, ou até mesmo aliviado depois da sentença.

Não tinha o que fazer, é isso. A situação já estava encaminhada, eles já entraram condenados. Eu tentei fazer o meu trabalho, fizemos algo digno, um belo trabalho. Faz parte do processo, o júri está ali representando a sociedade, representando aquelas pessoas que estavam ali fora. E as pessoas clamavam por um misto de justiça e vingança. Não foi surpresa nenhuma o que ocorreu. O importante é que meu cliente com certeza se sentiu bem representado.

Se o senhor pudesse, faria algo diferente na defesa do casal Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá?

Não, não tinha outra coisa a fazer. A defesa se prende no discurso dos réus, e isso não depende de mim. Eles falam uma coisa e eu não posso mudar isso, não tem outra tática. Na preparação deles, eu falei para os dois: "Vão lá e contem as suas histórias". Não tinha outra coisa a fazer.

Mas o senhor considera que o resultado poderia ser outro, se a decisão não estivesse nas mãos de um júri popular?

QUEM É

CV: Formado pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), Roberto Podval, de 44 anos, atua como advogado desde 1988. Já defendeu Sérgio Gomes da Silva, o Sombra (acusado de mandar matar o prefeito Celso Daniel), e o ex-cirurgião plástico Farah Jorge Farah, condenado a 13 anos pelo assassinato de uma paciente com quem teve um romance. Entre seus clientes também está o iraniano Kia Joorabchian, investigado por lavagem de dinheiro na parceria da MSI com o Corinthians. É casado e tem três filhos.

Honestamente, acho que é um absurdo o fato de condenarem alguém sem ter provas. A Anna Carolina foi condenada sem provas. O promotor usou o passado dela para falar que Anna Carolina asfixiou a menina, mas realmente não havia provas. Falaram que ela tinha um passado problemático, só isso. Mas absolutamente não provaram que ela asfixiou a garota. Se não fosse júri popular, não tinha condenação. Mas o júri representa a sociedade, né? E a sociedade estava naquele limite entre a justiça e a vingança. Deu nisso. O resultado não seria esse se não fosse o clamor popular do caso.

O senhor ouviu o barulho dos fogos quando foi anunciada a sentença?

Sim, deu para ouvir, sim. É isso, o clamor, essa vontade da sociedade. Mas eu respeito.

E o que o senhor achou do trabalho do promotor Francisco Cembranelli? O senhor não quis falar, não quis dar entrevistas para a imprensa no Fórum de Santana, alegando que o "brilho da noite é de Cembranelli". Ao mesmo tempo, vocês dois chegaram a discutir no último dia do julgamento...

Olha... (pausa). Ele foi correto. Tudo aquilo faz parte. Eu respeito muito o papel de cada um, e ele fez o papel dele com brilhantismo. Posso dizer que ganhei um amigo.

O senhor chegou a falar com Antônio Nardoni, o pai de Alexandre, depois da sentença?

Sim, sim, ele me procurou depois da sentença.

E o que ele falou?

Ele agradeceu. Foi o que eu falei, não tinha muitas expectativas. A sentença já estava decidida, né? Eu não tinha expectativas, nenhuma. Mas ele agradeceu, ele entendeu que o filho dele foi representado da melhor maneira possível.

O senhor já recorreu da decisão. Continua então à frente do caso?

Sim, claro, vamos continuar.

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